Começa a existir alguma sintonia entre a Renault e a Honda no que respeita à capacidade da Nissan para se gerir a si própria e evitar deficits que coloquem em causa a sua sobrevivência. Em 1999, depois de salvar da falência uma Nissan enterrada em dívida, a Renault criou uma Aliança em que liderava, mas não tinha o poder total de gestão, necessitando do acordo dos japoneses para temas estratégicos, o que segundo os franceses limitava a eficiência do consórcio. Quando tentou fazer evoluir o acordo de Aliança para Grupo, para maior integração, a Nissan criou o “incidente” Ghosn para não perder a parte que ainda detinha no controlo da empresa, o que acabou por a tornar ingerível. Em vias de ser salva, desta vez pela conterrânea Honda, a Nissan volta a opôr-se à perda de controlo, o que para a Honda não é aceitável, especialmente depois de ver o que aconteceu com os franceses.

Com os dois construtores a quererem mandar na empresa resultante da fusão Honda-Nissan, estão complicadas as negociações entre ambos visando impedir a falência da Nissan — pela segunda vez em 25 anos, sendo que esta nova crise da marca japonesa acontece apenas seis anos após o recuo da Renault. O potencial casamento entre os cônjuges nipónicos encaminha-se para o divórcio, somente dois meses depois de ter começado o namoro. Segundo o New York Times, a ruptura ficou a dever-se à vontade expressa da Honda em evitar problemas futuros, retirando poder de controlo à Nissan e remetendo a sua parceira na fusão para a posição de marca subsidiária. Ou seja, seria a Honda que ficaria aos comandos da holding a formar.

A decisão da Honda em subalternizar a Nissan na gestão surgiu após a análise que o construtor japonês com dinheiro solicitou aos planos de reestruturação anunciados pelo construtor japonês coberto de dívida. Para a fusão avançar, a Honda impôs como condição que existissem mudanças na Nissan que a tornassem lucrativa, o que esta garantiu com despedimentos e encerramento de fábricas para diminuir os custos. Mas certamente por não confiar nos planos da Nissan, pelo menos não tanto quanto na sua própria análise, a Honda decidiu forçar a mão e tornar ainda mais exigentes as condições para a fusão avançar, operação esta que a administração da marca nunca desejou em primeira instância.

Com uma produção anual superior a 4 e 3 milhões de veículos, respectivamente para a Honda e para a Nissan, a fusão é fundamental para a sobrevivência da Nissan, mas podia ser igualmente útil para ambas, numa fase em que nenhuma das marcas possui uma gama de veículos eléctricos “composta” e ambas precisam de fazer evoluir rapidamente os seus veículos a bateria.

De acordo com fontes próximas dos dois fabricantes, as negociações entre Honda e Nissan continuam, mas são poucos os que acreditam que possam ter sucesso. Certo é que após a notícia do quase colapso das negociações ter sido tornado público, as acções da “aflita” Nissan caíram 5%, enquanto os títulos da Honda subiram 8%, mas face à exposição dos bancos japoneses à situação da Nissan e ao interesse do Governo em garantir postos de trabalho também estes deverão ter uma palavra a dizer.