Uma cerimónia “sóbria, demasiado longa e aborrecida”, uma distribuição de prémios a lembrar uma “brincadeira de crianças” onde todos os concorrentes tiveram direito a “uma fatia do bolo no final”, um final “salomónico” com tanta gente em palco “como num concerto de gospel”, em que “ninguém sabia quem podia falar primeiro”. Estas foram algumas das críticas que a imprensa espanhola dedicou à 39.ª gala dos Goya, os maiores prémios de cinema de Espanha, ensombrada pela ausência de Karla Sofía Gascón depois de estalar a polémica junto da atriz de Emília Pérez.
Começando pelo fim, pairaram sobre o Palácio de Congressos de Granada memórias dos Óscares de 2017 em Los Angeles. Nessa noite, o prémio de Melhor Filme foi erroneamente atribuído a La La Land quando o vencedor devia ser Moonlight, com a monumental gaffe de Warren Beatty ao ler o envelope errado e o caos que se seguiu. Neste sábado, temeu-se que Belén Rueda tivesse tido igual tropeço, já que anunciou que o Goya de 2025 para Melhor Filme iria para El 47, pegando no microfone pouco depois para estender essa distinção a La Infiltrada, quando a equipa do primeiro filme já estava de pé.
El #Goya2025 a Mejor Película es para 'El 47' y también para 'La infiltrada'. Momentos de confusión en la gala, ante un hecho inédito en la historia de los Goya.https://t.co/0vh2MSdsze pic.twitter.com/iIhE7IYpYC
— RTVE Noticias (@rtvenoticias) February 9, 2025
Na verdade, Rueda não fez nada de errado — quanto muito, foi atraiçoada por uma organização atabalhoada, já que os ambos receberam mesmo o prémio em conjunto. De resto, o regulamento dos Goya permite tal situação quando dois filmes recebem o mesmo número de votos, mas só por uma outra ocasião tinha acontecido semelhante caso, 34 anos antes, na atribuição do prémio de Melhor Curta-Metragem em 1991.
O que aconteceu, explicou o jornalista Carlos del Amor, acompanhado pelo ator Tamar Novas, na rede social X, é que o envelope dado a Rueda tinha dois cartões sobrepostos e a atriz só viu o primeiro. Em vez de ser dado um aviso de antemão, a organização dos Goya optou ao invés por dar à equipa de apresentação uma folha de papel branca contendo apenas a palavra ex-aequo, ou seja, para indicar que o prémio seria repartido.
Y aquí explicación de lo que ha pasado en el Goya a mejor película y esa confusión, gracias @tamarnovas por la aclaración. #ElSobre #LetraPequeña pic.twitter.com/zJHhs4r3QG
— Carlos del Amor (@cdelamor_) February 9, 2025
Mais tarde, o El Periódico de Catalunya desvendaria junto de fontes da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Espanha que só uma pessoa sabia de antemão o resultado: uma notária madrilena que tinha sido encarregada de verificar os votos que os académicos tinham emitido por via telemática e de registar os resultados, incluindo assim o referido papel em branco com a inscrição a dizer ex-aequo. Segundo o mesmo jornal, o notário de Granada, que foi quem guardou os envelopes com os vencedores até ao momento da gala, sabia o que continham.
Como tal, o inesperado da situação gerou momentos caricatos, como o facto de só haver uma estatueta dos prémios disponível àquela hora, dada primeiramente aos responsáveis por El 47. Já para a equipa de La Infiltrada ficou a promessa de que receberiam o galardão físico mais tarde. Em jeito de brincadeira, Arantxa Echevarría, realizadora deste segundo filme, disse “se mais não fosse, deviam dar-nos um porta-chaves, pois eles ficaram com o prémio”.
Radiografia de um aborrecimento
A confusão por conta desta atribuição alongou ainda mais uma cerimónia que já ia em mais de três horas, coroando assim uma gala bastante criticada pela imprensa espanhola. O El País, por exemplo, deixou o seu veredito logo no título, analisando “os sucessos e (demasiados) erros do Goya 2025 como gala televisiva”.
Num texto bastante duro, o jornal espanhol fala numa sessão onde o guião “foi demasiado fraco, sem momentos marcantes para recordar nos anos vindouros” e onde o “humor esteve ausente”. Tal deveu-se em parte à decisão de voltar a contar com atores de prestígio para apresentar os Goya — neste caso, as atrizes Leonor Watling e Maribel Verdú — e não humoristas, resultando num trabalho competente mas aborrecido. ”Talvez este tenha sido o ano em que mais se sentiu a falta de um comediante ao leme para dar à gala um humor que torne mais digerível o tédio da cerimónia de entrega de prémios, alguém que possa dar um toque de ironia a tudo isto”, aponta.
Além de erros técnicos de som que afetaram tanto apresentações de prémios como números musicais, outro dos grandes problemas terá mesmo recaído na tendência dos vencedores em alongar-se nos discursos. “Este ano houve demasiados galardoados que não fizeram o que lhes competia para evitar que o público mudasse de canal ou adormecesse. A música que foi tocada para sinalizar subtilmente aos premiados que estavam a prolongar-se demasiado não teve muito efeito e alguns até disseram claramente que não iam fazer caso disso”, critica o El País.
“Podíamos entrar e sair da nossa sala de estar e a televisão passava sempre a mesma palavra: obrigado. Se olhássemos para o ecrã, só víamos uma coisa: lágrimas. Acho que é muito pouco profissional chorar porque se recebe um Goya. Muita gente que não tem futuro no cinema espanhol ganhou. Todos eles leram os seus agradecimentos, por isso não devem ser grandes atores”, atirou um dos cronistas do El Confidencial.
Dos apelos ao combate às alterações climáticas aos pedidos pela defesa da habitação social e educação universal, passando pelas homenagens às “super-mães” e aos imigrantes, o próprio tom dos discursos tendeu a ser politizado e carregado. Um exemplo óbvio foi o de Richard Gere, ator norte-americano recentemente radicado em Espanha e que foi receber o prémio Goya Internacional. Caracterizando Donald Trump como um “rufia e um bandido”, Gere alertou para um “tribalismo muito tolo que está a começar a tomar conta de nós, onde pensamos que estamos todos separados uns dos outros”. Dizendo que os EUA estão neste momento numa “fase sombria”, o ator alertou que tal já se alastrou para outras geografias, dando o exemplo da Hungria de Viktor Orbán. “Temos de estar vigilantes”, avisou.
#Goya2025 | Richard Gere hace referencia a Donald Trump en su discurso tras recibir el Goya Internacional:
"Vengo de América, que está en un lugar muy oscuro, donde un matón es el presidente, pero no solo pasa en Estados Unidos" pic.twitter.com/bsQ7KhgHGN
— José Pablo López (@Josepablo_ls) February 8, 2025
Uns prémios “salomónicos”
Uma das conclusões retiradas destes prémios Goya — até mesmo pela imprensa internacional — é que todos os cinco filmes nomeados para melhor filme ganharam um grande prémio, quer por interpretações, quer por argumento. O El País aponta que essa pluralidade explica-se pelo facto de a Academia espanhola ter-se aberto a mais públicos, o que se refletiu no tipo de filmes a concurso: se em 2016, os filmes a concorrer à principal categoria representavam apenas 6% das vendas de bilhetes pelo cinema espanhol, o elenco de 2024 representou 18,4%. O facto de a cerimónia ter deixado de se realizar em Madrid e de cada vez mais homenagear filmes de outras regiões espanholas (e respetivos dialetos) ajudou também.
No entanto, apesar de tal situação poder ser lida como prova da vitalidade que neste momento o cinema espanhol possui, houve também outras interpretações a retirar — especialmente dada a vitória “salomónica” de El 47 e La Infiltrada. No mesmo jornal, questiona-se se a atribuição do duplo prémio foi um caso em que “a emoção popular” superou “o risco artístico”, recentrando a questão na disputa entre o cinema de autor mais audaz e valorizado pela crítica e o cinema menos aventureiro mas de maior aceitação popular. “Desde o nascimento dos Prémios Goya, como acontece também com os Óscares, não raras vezes o seu prémio final se baseia na dicotomia entre o sólido cinema popular que agrada a todos e o ímpeto do cinema artístico que, pela sua complexidade narrativa, não chega ao coração de uma parte dos espectadores ou dos votantes”, explica.
No caso de El 47 e La Infiltrada, essa dicotomia estava bem patente. Como reflete a GQ espanhola, o primeiro — visto como o concorrente “de autor” entre os dois — teve um bom encaixe de bilheteira, pelo que não se pode falar “de uma joia escondida na nossa filmografia ou de um filme difícil, rodado de costas para o público”. No entanto, o segundo, fazendo mais de oito milhões de euros e contando com cerca de 1.300.000 espectadores, tornou-se num fenómeno em Espanha — tanto mais que “a princípio, nem sequer era candidato aos Goya”, tendo sido “precisamente o seu inesperado desempenho comercial que o pôs em órbita”.
“De alguma forma, os dois vencedores dialogam de um modo tão especial que, talvez, possa ter servido para cortar o nó górdio dos Goya, pelo menos este ano. El 47 é o tipo de filme que costuma agradar ao sector mais purista da Academia: combativo, cheio de interpretações complexas, estilizado e muito político. Por seu lado, La Infiltrada transforma um episódio real da luta contra o terrorismo num thriller de ação épico destinado a tomar de assalto as salas de cinema, o que acabou por acontecer. O facto de terem partilhado o grande prémio da noite significa que, por uma vez, as duas fações opostas, ou as duas visões do que os Goyas devem ser, podem orgulhar-se de ter ganho a batalha. Não sabemos quando voltaremos a ver um ex-aequo na categoria principal, pelo que teremos de guardar este momento como se fosse a passagem do cometa Halley”, conclui a revista.
O El Confidencial, por seu lado, teve uma conclusão mais cáustica, considerando que este desenlace fez com que a cerimónia parecesse “um daqueles jogos infantis em que todos acabam por receber uma fatia do bolo no final, na esperança de que ninguém se zangue”.
A sombra de Gascón
Soube-se poucos dias antes desta cerimónia que Pedro Almodóvar não iria comparecer, devido ao que divulgou vagamente como “problemas de saúde”. Seria uma baixa de peso, dado o seu estatuto e pelo facto de estar a concorrer pelo prémio de melhor realizador por O Quarto ao Lado. Especulou-se, inclusive, que isso dever-se-ia por saber de antemão que não ia vencer esse prémio (confirmou-se: o filme “apenas” venceu Melhor Guião Adaptado). Essa, no entanto, não foi a ausência mais gritante da noite, e sim do nome que tem corrido as bocas do mundo: Karla Sofia Gascón.
De figura pioneira — a primeira mulher transgénero a ser nomeada para o Óscar de Melhor Atriz, segunda mulher espanhola a merecer essa distinção — até persona non grata, bastou desenterrar-se uma série de tweets com declarações polémicas sobre a comunidade muçulmana e os protestos pela morte de George Floyd, entre outros temas sensíveis. Com isso, mereceu distanciamento e reparos da própria equipa, foi alvo de uma campanha de críticas online e deixou de fazer parte da promoção de Emilia Perez, filme que chegava a estes Goya a concorrer por Melhor Filme Europeu.
Não obstante ser uma atriz espanhola — e portanto, a representar o filme francês junto do “seu” público —, Gascón optou por não comparecer, cumprindo a promessa que fez num comunicado em que se afastaria para que o filme pudesse falar “por si próprio”. De tal forma se tornou num ativo tóxico para Espanha que o próprio ministro da Cultura, Ernest Urtasun, disse publicamente que “os seus tweets não representam a sociedade espanhola” e que “a sua candidatura está manchada”. Já o primeiro-ministro Pedro Sánchez, apesar de não secundar o seu ministro na censura pública, afastou-se do tema Gascón, deixando apenas uma indireta: “Infelizmente, estamos num momento muito preocupante no que diz respeito aos discursos dos representantes políticos e de alguns presidentes. Nesse sentido, quero apenas sublinhar os princípios e os valores que este governo defende. E gostaria de sublinhar que são a diversidade, a tolerância e o respeito”.
No entanto, se tivesse viajado para Granada, o que Gascón teria encontrado seria apoio, a avaliar pelas declarações que vários dos presentes fizeram. A atriz Aitana Sánchez-Gijón, galardoada este ano com o Prémio Goya de Honra, afirmou: “O seu trabalho continua a ser tão bom como era antes. Recebeu uma onda desproporcionada e destrutiva. Ela também tinha opiniões que excluem e geram violência. Mas eu não desejo esse mal a ninguém. Agora ela pediu desculpa de uma forma mais enfática. Deve ser deixada em paz, já sofreu o suficiente, tal como os grupos que se sentiram atacados pelas suas palavras”.
Já o realizador Juan Antonio Bayona afirmou que Gascón “está a ser linchada”. “A situação em torno de Emilia Pérez é muito triste — eu adoro-a, mas é verdade que ela cometeu muitos erros e que são irresponsáveis”, afirmou o realizador, que considera que a atriz espanhola ‘não estava preparada nem aconselhada para tudo o que fez’. Por todas estas razões, lançou a mensagem de que “a tolerância anda de mãos dadas com a compaixão”.
Ao contrário do que tem sido a toada nas últimas semanas, mas ainda assim sem se referir diretamente a Karla Sofia Gascón, os representantes da distribuidora de Emília Perez em Espanha, Miguel Morales e Enrique Costa, deixaram um apelo em sua defesa quando foram receber o prémio: “Perante o ódio e o escárnio, mais cinema e mais cultura”. Mais surpreendente foi o apoio dado por C. Tangana. Em palco para receber o prémio para Melhor Documentário por La guitarra flamenca de Yerai Cortés, deixou este apelo: “Este é um filme sobre compreensão e perdão. Não sei quanto a vocês, mas eu estou sempre a cometer erros. Tenho de pedir perdão constantemente e acho que vocês também. Por isso, vamos ser compreensivos, vamos perdoar e deixar que as pessoas cometam erros. Porque quanto maior for o erro, mais precisamos do perdão dos outros”.