Quando, a 23 de janeiro, foram anunciadas as nomeações para a 97.ª edição dos Óscares, o destaque foi claro: com 13 nomeações, Emilia Pérez chegava-se à frente como um dos grandes candidatos à vitória na noite mais importante da indústria de cinema norte-americana. O filme de Jacques Audiard, uma produção francesa filmada no México com atores espanhóis e norte-americanos, foi um sucesso de tal ordem entre os membros da Academia de Hollywood que se tornou mesmo num dos mais nomeados de sempre, juntando-se a um clube que inclui obras como E Tudo o Vento Levou, Mary Poppins, Forrest Gump, A Paixão de Shakespeare, O Senhor dos Anéis — A Irmandade do Anel ou Oppenheimer (apenas Eva, Ben-Hur e La La Land tiveram mais: 14).
No festival de Cannes de 2024, o filme ganhou o Prémio do Júri e o de Melhor Atriz. Nos Globos de Ouro, já em janeiro deste ano, foi escolhido como Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Filme — Musical ou Comédia. Figura-chave deste sucesso, Karla Sofía Gascón, a protagonista de Emilia Pérez, foi uma das estrelas da campanha do filme rumo aos Óscares. Indicada para a estatueta de Melhor Atriz Principal, a primeira atriz abertamente trans a consegui-lo, a sua nomeação foi amplamente aplaudida, mesmo à medida que a “ópera” musical de Audiard — sobre um barão da droga mexicano que, tentando fugir ao passado em busca de redenção, recruta uma advogada que o ajuda a mudar de sexo e de vida e a assumir uma nova identidade — ia sendo alvo constante de críticas pela sua representação dos cartéis de droga, da sociedade mexicana e da comunidade LGBT. Gascón, pela sua parte, desvalorizava. “Há uma parte da sociedade que vive do ódio, de vender ódio”, dizia, acusando os críticos do filme de “estupidez” e desafiando-os a “fazerem o seu próprio filme”.
[o trailer de “Emilia Pérez”:]
Foi um estado de graça que durou pouco. Apenas duas semanas após o anúncio das nomeações, Gascón é hoje um ativo tóxico para a Netflix — a plataforma que distribui Emilia Pérez nos EUA — que, nos últimos dias se afastou da atriz, retirando-a de todo o material publicitário e de campanha para os Óscares (e cancelando apoio para viagens de promoção). Tudo por causa de uma série de tweets, feitos ao longo dos anos pela atriz no atual X e agora recuperados que, vão desde declarações polémicas sobre a comunidade muçulmana e os protestos pela morte de George Floyd, até críticas aos próprios Óscares e a Selena Gomez, companheira de cena de Gascón no filme. A recuperação das publicações foi feita pela jornalisat canadiana Sarah Hagi, uma das autoras do podcast Scamfluencers. Rapidamente, a “descoberta” espalhou-se pelos media internacionais.
O verniz estalou de imediato. O realizador do filme e Zoë Saldaña, outra figura-chave do elenco e nomeada para Melhor Atriz Secundária, apressaram-se a distanciar-se dos tweets polémicos de Gascón (Audiard veio mesmo dizer esta semana que não percebe “porque é que Gascón escreveu estas coisas”, mas também reforçou o apoio ao filme); já a própria veio a público defender-se, uma e outra vez, numa série de declarações nas redes sociais, retrações e desmentidos, culminando numa entrevista à CNN en Español, sem o aval da Netflix e onde, entre lágrimas, pedia desculpa ao mesmo tempo que falava numa campanha orquestrada de difamação contra si, garantindo que jamais iria renunciar à sua nomeação:
O “descalabro” de Gascón não foi, contudo, um choque inesperado. Pelo contrário, surge como o desenvolvimento mais recente de uma das mais violentas campanhas para o Óscar na memória recente, período durante o qual têm chovido nas últimas semanas trocas de galhardetes e acusações públicas entre os filmes nomeados — incluindo pela própria atriz de Emilia Peréz que, numa entrevista à Folha de S. Paulo (que antecedeu toda a polémica) acusava a equipa de Fernanda Torres, protagonista de Ainda Estou Aqui e sua concorrente direta na luta pelo Óscar de Melhor Atriz, de conspirarem contra Gascón e Emilia Peréz.
Foi também o desenlace de uma sucessão de polémicas envolvendo o filme de Jacques Audiard. No seguimento das nomeações, houve até quem descrevesse Emilia Pérez como um dos mais odiados filmes da história recente dos Óscares, leitura em muito devida aos elementos “problemáticos” da narrativa. E se é um facto que, até há apenas uns dias, essas críticas não pareciam afetar a dinâmica vencedora do filme, o que é certo é que a “bomba Karla Sofía Gascón” rapidamente fez a aposta da Netflix passar de favorito da época de prémios a enfant terrible da corrida aos Óscares. E o mal pode estar longe de estar feito.
Os tweets da polémica e uma campanha orquestrada por… Fernanda Torres?
Os primeiros sinais de controvérsia em torno de Gascón remontam a 2016. Nesse ano, a atriz, então conhecida maioritariamente pelas suas atuações em telenovelas mexicanas, partilhou uma série de mensagens onde descrevia o Islão como “uma infeção da humanidade” e “incompatível com os valores Ocidentais”. Anos mais tarde, em 2020, durante os protestos internacionais pela morte de George Floyd às mãos da polícia, a futura Emilia Pérez questionou os motivos dos manifestantes. “Acho que muito poucas pessoas se importam com George Floyd, um drogado e um pelintra”.
À CNN espanhola, a atriz foi contundente a defender-se. “Pensar que alguma vez insultei alguém pela cor da sua pele, não admito a ninguém, a ninguém”, declarou de dedo em riste. Mais tarde, afirmou contar entre as suas amizades mais próximas uma pessoa muçulmana, negando categoricamente ser contra o Islão, mas sim contra “os radicalismos”.
▲ Selena Gomez, Zoe Saldaña, Karla Sofia Gascón e Jacques Audiard: os protagonistas de "Emilia Peréz", no filme e à volta dele
Na sua conta na dita rede social, entretanto apagada, Gascón apontou ainda armas aos Óscares, que em 2021 descreveu como “um festival afro-coreano” e “uma demonstração do [movimento] Black Lives Matter”. E falou de Selena Gomez, colega de elenco de Emilia Pérez, que descrevia em 2022 como “uma rata rica que faz de pobre coitada sempre que pode e nunca vai parar de incomodar o seu ex-namorado”, referindo-se ao cantor Justin Bieber.
“Claro que isso não é meu, (…) nunca me referiria a ela dessa forma”, afirmou na entrevista televisiva, alegando que algumas das declarações a si atribuídas teriam sido manipuladas. Tese que defendeu também na sua página de Instagram, onde garantiu estar a ser vítima de um esquema orquestrado com o objetivo de a prejudicar. “Eles já ganharam, atingiram o seu objetivo: manchar a minha existência com mentiras e coisas tiradas do contexto”, acusou numa publicação na rede social.
A que “eles” Gascón se referia, não é claro. No entanto, a atriz já tinha avançado um potencial suspeito: a equipa de Fernanda Torres e de Ainda Estou Aqui. Nomeado para três Óscares, o filme do brasileiro Walter Salles compete diretamente com Emilia Pérez em todas as categorias nas quais está inscrito: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz Principal. Nesta última, Gascón levantou acusações de que certas equipas de relações públicas estariam a “jogar sujo” na corrida aos Óscares deste ano, e não se coibiu de mencionar diretamente Fernanda Torres:
“O que não gosto é que exista uma equipa de redes sociais que trabalha à volta de todas estas pessoas tentando diminuir o trabalho de outras pessoas, como o meu, ou o do filme, porque isso não leva a lado nenhum. (…) Há muitas pessoas que trabalham no ambiente da Fernanda Torres que dizem mal de mim e de Emilia Pérez”, afirmou.
Se o filme brasileiro já vinha beneficiando de uma extensa maré de apoio viral, as declarações de Gascón viraram a fúria dos internautas brasileiros contra a atriz espanhola e contra o filme que protagoniza — de tal modo que a própria se viu forçada a retratar-se. “Nos meus comentários recentes, referia-me à toxicidade e ao discurso de ódio violento nas redes sociais que infelizmente continuo a experienciar. A Fernanda tem sido uma aliada maravilhosa, e ninguém diretamente ligado a ela tem sido nada além de solidário e extremamente generoso.”, garantiu.
De filme elogiado a produção criticada
O mal, porém, já estava feito, e o ressurgimento dos tweets nos últimos dias serviu de gota de água para a Netflix, que afastou Gascón do esforço promocional de Emilia Pérez e cortou relações com a atriz. De acordo com o Hollywood Reporter, esta não será convidada para mais nenhum evento de antecâmara dos Óscares, tendo a gigante do streaming feito saber que não iria pagar quaisquer deslocações, guarda-roupa e maquilhagem adicional daqui para a frente.
Neste momento, a presença de Karla Sofía Gascón nos Óscares é uma incógnita, ela que até há pouco tempo era uma das protagonistas da temporada de prémios de 2025. Para já, certo é apenas que, além da distribuidora, também os restantes membros da equipa de Emilia Pérez se apressaram a distanciar-se da atriz. “Deixa-me triste porque não o apoio. Tenho tolerância zero para retóricas negativas para com pessoas de qualquer grupo”, afirmou Zoë Saldaña, na corrida ao Óscar de Atriz Secundária que daqui para a frente será o foco dos esforços promocionais da Netflix, se a mais recente campanha da plataforma é alguma indicação. Também Jacques Audiard, realizador do filme, condenou a “autodestruição” de Gascón, e garantiu: “Não falei com ela [desde o início da polémica], e não o quero fazer”.
Karla Sofía Gascón has been completely erased from the latest Oscars 'For Your Consideration' ad for Emilia Pérez. I wonder why!?? pic.twitter.com/4AJ2jOSsgl
— Jason (@jasonosia) February 3, 2025
A mais recente polémica em torno da protagonista do filme parece, no entanto, estar a ter outro impacto: o fórum e agregador de apostas Gold Derby indica que o filme está em queda livre entre os analistas norte-americanos, os mesmos que até há uns dias vaticinavam que Emilia Pérez podia ser o grande vencedor dos Óscares 2025. Com efeito, o copo parece ter transbordado, num filme que desde o início tem sido alvo de críticas dos mais variados quadrantes pela sua representação do México e das comunidades sobre as quais a história incide, como a comunidade LGBT. “Agora que Emilia Pérez já está disponível na Netflix, mais pessoas podem ver e apontar o dedo a esta representação profundamente retrógrada de uma mulher trans”, afirmou a Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD), organização norte-americana que promove os direitos da comunidade.
Além de Gascón, também Selena Gomez não escapou às críticas. A atriz e cantora norte-americana interpreta no filme a personagem de Jessi, ex-mulher de Manitas, identidade que Emilia Pérez abandona após fazer a transição de género. Críticos e espectadores, sobretudo no México, apontaram o dedo à escolha da atriz, que não fala espanhol, para interpretar uma personagem fluente na língua, com a própria atriz a assumir a dificuldade em interpretar os extensos diálogos num idioma que não é o seu.
Gomez teve, contudo, quem a apoiasse: nada menos que Karla Sofia Gascón, que veio a público defender a colega de elenco. “Selena Gomez, que adoro, fez o melhor trabalho da sua vida”, elogiou a atriz, dias antes do estalar de uma polémica que ameaça deitar tudo a perder.