Nunca tinha somado duas vitórias consecutivas, também nunca tinha estado mais do que um encontro sem vencer. Tem vida complicada na Liga dos Campeões, passou a liderar com alguma vantagem o Campeonato. Rui Borges continua a referir várias vezes que não tem tempo sequer para treinar (neste caso, fazer aquilo que são denominados como treinos aquisitivos) mas também é verdade que não existe tempo sequer para fazer a digestão de um resultado, com tudo aquilo que um jogo envolve. No entanto, e depois da derrota com o B. Dortmund que se seguiu ao empate no clássico frente ao FC Porto, tudo foi diferente. Diferente por mais uma quebra a pique da primeira para a segunda parte em termos físicos, diferente porque a vida na Europa ficou praticamente sentenciada, diferente por haver uma necessidade ainda maior de encontrar uma resposta na receção ao Arouca. Quase no prolongamento, também a conferência do técnico foi “diferente”.

Sporting cede na receção ao Arouca depois de Hjulmand ter sido expulso e permite nova aproximação do Benfica (que fica a dois pontos)

“A vida de treinador é isto mesmo, um desafio constante. Por isso é que se calhar os treinadores portugueses são tão conceituados, por serem capazes de agarrar os desafios e ter constantes adaptações para o que encontram. Tem sido muito desafiante porquê? Porque entro num clube que, naquele momento, não estava com tanta harmonia, tinha muitas lesões, tinha acabado de sair um treinador que marcou um momento do clube. Eu sou o Rui Borges, disse-o no primeiro dia em que cheguei aqui. O Ruben [Amorim] foi fantástico, admiro-o imenso, mas agora é o Rui Borges. É um grande desafio, estou num grande clube, algo com que sempre sonhei. Se é o maior desafio da minha vida? É. Mas é para isso que trabalhamos e lutamos todos os dias, para sermos muito felizes, que vamos ser com toda a certeza”, referiu, entre uma análise mais exaustiva sobre os motivos que podem explicar o défice físico dos leões e o excesso de lesões.

“A parte física é clara. Para responder com dados, a nível da UEFA somos a equipa com maior média de jogos em termos mensais. Uma média de 6,4, o resto está nos cinco e qualquer coisa. É a equipa se calhar com mais jogo a nível da Europa. Dita bem o que temos tido ao longo do tempo. Desde que estou aqui, há um mês e meio, treinos aquisitivos, com intensidade, fiz dois. É difícil. E não vou falar do que vem para trás, jamais o farei e arranjarei o que quer que seja para me desculpar. A equipa está cansada porque temos tido lesões, têm jogado os mesmos jogadores vários jogos seguidos, o Morten [Hjulmand] parou ao fim de 15 jogos seguidos. Não são máquinas… O cansaço existe e não podemos fugir a isso. Depois, em no jogo com o B. Dortmund, o Sporting campeão tinha sete titulares de fora. É normal que a equipa se ressinta.  Acreditamos que vamos ficar melhores, que vamos conseguir recuperar e responder da melhor forma na reta final”, salientou.

Em paralelo, e numa das conferências com respostas mais longas e “justificadas”, Rui Borges falou também da melhor versão de Sporting com Ruben Amorim realçando por mais do que uma vez que os leões estão na liderança do Campeonato. “Há quebras, todas as equipas passam por isso e nós também. Mesmo dentro desses picos, temos de ser competentes – e temos sido. Há tantos fatores, tantas coisas por onde podemos pegar… Tomara eu ter mais jogadores, todos com grande disponibilidade. Para a Champions precisamos de todos a 200% e nós nem a 100% estamos. O Sporting não vai ser como o de antigamente porque o Rui Borges é o Rui Borges, o Ruben era o Ruben, o João [Pereira] era o João. E o Sporting de Rui Borges, até ver, tem sido forte, está em primeiro. Compete-me ver que eles estão agarrados à ideia. Super equipa? Quero que sejamos uma grande equipa. Para já somos a melhor, vamos à frente. Depois há diferentes maneiras de pensar, de olhar para o jogo. A mim compete-me chegar ao fim e ser campeão”, destacou.

Para isso, a receção ao Arouca surgia como um ponto chave para travar a série de encontros seguidos sem vitórias. Contudo, e durante 90 minutos, o Sporting fez desfilar tudo o que podia correr mal e que correu ainda pior. Houve um autogolo para os apanhados, mais duas lesões nos 15 minutos iniciais, uma grande penalidade em cima do intervalo, uma expulsão, uma oportunidade flagrante desperdiçada por Viktor Gyökeres nos descontos isolado na pequena área. Essa acabou por ser uma das imagens que retratou um jogo de loucos onde o Arouca nunca abdicou de tentar ganhar e os leões fizeram de tudo para mais do que apenas não perder. No final, sobrou novo empate e a distância para o segundo classificado Benfica reduzida para apenas dois pontos. Perante tantos tiros nos pés, era impossível haver cabeça para mais do que isso.

Ficha de jogo

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Sporting-Arouca, 2-2

22.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Miguel Nogueira (AF Lisboa)

Sporting: Rui Silva; Fresneda (Biel, 84′), St. Juste (Zeno Debast, 11′), Gonçalo Inácio, Maxi Araújo; Hjulmand, João Simões (Alexandre Brito, 84′), Daniel Bragança (Conrad Harder, 14′); Francisco Trincão, Geovany Quenda e Gyökeres

Suplentes não utilizados: Franco Israel, Ricardo Esgaio, Eduardo Quaresma, Manuel Mendonça e Afonso Moreira

Treinador: Rui Borges

Arouca: Mantl; Tiago Esgaio, Jose Fontán, Chico Lamba, Weverson; David Simão (Pedro Santos, 79′), Fukui; Trezza (Jason, 60′), Sylla (Mansilla, 81′), Pablo Gozálbez (Loum, 60′) e Henrique Araújo (Nandín, 46′)

Suplentes não utilizados: João Valido, Matias Rocha, Puche e Alex Pinto

Treinador: Vasco Seabra

Golos: St. Juste (8′, p.b.), Conrad Harder (17′), Henrique Araújo (45+4′) e Francisco Trincão (74′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Henrique Araújo (17′), Hjulmand (45+3′ e 62′), Geovany Quenda (69′), David Simão (78′) e Mantl (90+2′); cartão vermelho por acumulação a Hjulmand (62′)

A autêntica lei de Murphy que tem assolado o Sporting nos últimos três meses depois do verdadeiro toque de Midas que a equipa parecia ter na era Ruben Amorim em 2024/25 demorou menos de 15 minutos a aparecer e com capítulos variados. 1) St. Juste colocou mal a perna num lance nos minutos iniciais, Zeno Debast já se começava a preparar para entrar em campo, o neerlandês tentava fazer um último esforço para ficar ainda em campo; 2) num atraso despropositado em balão do meio-campo, o central deixou Rui Silva em apuros e o guarda-redes, tentando de forma meio atabalhoada controlar a bola, acabou por introduzir a mesma na sua própria baliza num golo que entrará nos mais caricatos da Liga (8′); 3) St. Juste, num misto de problema físico e nervosismo pelo que acontecera, foi substituído por Debast (11′); 4) no meio-campo ofensivo, à entrada do último terço, Daniel Bragança colocou mal a perna e teve de sair amparado (14′).

Conrad Harder entrava em campo sem que os adeptos leoninos conseguissem sequer desligar de tudo o que estava a acontecer, quase como se fantasmas do passado tivessem voltado com outra roupa mas o mesmo impacto. Foi aí que o dinamarquês mostrou que é mais do que um mero substituto de Gyökeres: depois de uma recuperação de bola após zona de pressão adiantada, o sueco assistiu Harder que fez o empate com um remate cruzado (17′). A tendência da partida mudara de vez, com o Sporting a tentar aproveitar esse pequeno ascendente emocional para passar para a frente e estabilizar de vez o encontro para o seu lado. Gyökeres teve um remate perigoso para defesa de Mantl (28′), depois mais um livre direto travo pelo guarda-redes do Arouca (36′), de seguida Hjulmand teve um desvio de cabeça ao lado após mais um canto (38′).

A partida seguia com o Sporting por cima para intervalo mas haveria um novo twist à espreita nos minutos finais da primeira parte: o Arouca voltou a entrar com bola controlada na área, Henrique Araújo acertou na trave de cabeça após uma assistência de Tiago Esgaio (40′), Sylla teve um remate com muito perigo desviado por Rui Silva para canto (41′) e, quando se estava ainda a discutir uma possível grande penalidade por mão de João Simões na área, o VAR detetou um agarrão mais ostensivo de Hjulmand a Henrique Araújo na área e Miguel Nogueira assinalou mesmo penálti, com o antigo avançado do Benfica a não perdoar e a colocar os visitantes novamente na frente já em período de descontos com tudo incrédulo em Alvalade (45+5′).

Apesar de tudo, o descanso fez bem ao Sporting. Muitas vezes o coração começava a tomar conta da cabeça, com algumas decisões precipitadas no último terço que inviabilizaram mais oportunidades entre um tiro de Geovany Quenda que seguia para a baliza mas foi cortado para canto (51′) e uma pressão que impedia que o Arouca saísse sequer do seu meio-campo. Só 15 minutos depois os visitantes conseguiram sair em transição, com Nandín a assistir Trezza para um remate forte que Rui Silva desviou para canto (59′). Estava dado o mote para nova inversão nas características do encontro, adensada com a expulsão de Hjulmand com duplo amarelo depois de agarrar um adversário em mais uma decisão muito contestada em Alvalade (62′).

Os leões estavam à beira do precipício. Por um lado, deixavam de contar com um dos dois médios centrais, obrigando a que Trincão jogasse mais por dentro para tentar compensar a desvantagem numérica e fazendo com que Fresneda fosse lateral e ala ao mesmo tempo a não ser quando Harder caía na direita. Por outro, estava cada vez mais exposto atrás, com Rui Silva a evitar aquele que poderia ser o golo decisivo de Jason (65′) e Fukui (69′). Esse risco era assumido e não tirou discernimento para uma grande jogada coletiva que fez o 2-2, com Harder a aparecer na esquerda para cruzar atrasado para o 2-2 de Trincão na área (74′). Voltava a ficar tudo em aberto, com o Arouca a ficar de novo perto da vantagem num remate a rasar o poste de Pedro Santos em mais uma transição (89′), Harder a desviar de calcanhar a centímetros do alvo (90′), Gyökeres a falhar um desvio de cabeça na pequena área isolado na melhor oportunidade do jogo (90+2′) e Jason a “devolver” o gesto isolado na área para mais uma grande intervenção de Rui Silva (90+4′).