O serviço ferroviário prestado pela operadora do comboio na Ponte 25 de Abril “não é adequado ou suficiente, pois não impede taxas de ocupação pouco aceitáveis em alguns horários e percursos/estações mais procurados”. A apreciação é feita pela Autoridade de Mobilidade e Transportes (AMT), o regulador dos transportes, num esclarecimento remetido ao Observador em resposta a questões colocadas, onde também é defendido que a solução “mais fiável” seria a introdução de mais composições no eixo Norte-Sul.
Nos esclarecimentos, entretanto disponíveis no site, a AMT considera que no eixo com maior procura — entre o Fogueteiro (Seixal) e Roma Areeiro (Lisboa) — o serviço disponibilizado “não resiste, com qualidade e comodidade, a incidentes e imprevistos”. Esta resposta surge já depois de analisados os dados transmitidos pela Fertagus ao regulador após o reajustamento da oferta a 20 de janeiro, que procurou minimizar os constrangimentos resultantes da redução da oferta durante as horas de ponta de manhã entre o Fogueteiro e Lisboa.
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“Pelos dados prestados, conclui-se que, em determinados horários, a Fertagus se encontra a explorar o serviço ferroviário em níveis de ocupação muito elevados e que, ocorrendo incidentes pessoais ou relativos à circulação, a qualidade do transporte reduz-se substancialmente – nomeadamente quanto à previsibilidade, ao tempo percorrido e à comodidade, em todo o serviço, mas sobretudo em estações onde a pressão da procura é superior”.
A redução da oferta resultou de um aumento da frequência de ligações entre Lisboa e Setúbal. Os comboios passavam de meia em meia hora durante as horas de ponta (e a cada hora no restante horário). E agora passam de 20 em 20 minutos durante todos os dias úteis e ao fim-de-semana. Esta alteração entrou em vigor a 15 de dezembro e foi uma consequência da renegociação do contrato com o Governo que estendeu o prazo de concessão da Fertagus em 6,6 anos.
Apesar do forte aumento da oferta entre Coina e Setúbal para Lisboa, o número de comboios em operação — 18 — manteve-se, pelo que uma parte deste reforço foi feito à custa redução da oferta nos percursos com mais procura durante a hora de ponta da manha — menos 7% ou 4.440 lugares, de acordo com um documento interno — o que provocou grandes congestionamentos nas plataformas e dentro dos comboios, com dezenas de pessoas a não conseguirem entrar. Não só porque os comboios duplos passaram a ser simples, mas também porque chegavam mais cheios.
Fertagus reconhece corte na oferta em distâncias menores, mas destaca melhorias para número alargado de passageiros
Desde janeiro que a Fertagus tem tomado medidas para mitigar o problema, nomeadamente repondo parcialmente a oferta cortada durante a hora de ponta da manhã nas estações com maior procura. Numa resposta dada ao Observador, fonte oficial da operadora ferroviária diz que “no período da manhã, das 7:00 às 10:00 estão a ser oferecidos menos 3.630 lugares, mas em contrapartida estão a ser realizados mais 6050 lugares entre as 5:30 e as 7:00 na travessia do Tejo”.
A empresa diz ainda que “este reajuste de oferta, embora tenha uma ligeira variação de oferta no período específico das 7:00 às 10:00, com impacto nos utilizadores de menores distâncias e a necessidade de adaptação aos novos horários e oferta disponibilizada, traz globalmente melhorias significativas para um número muito alargado de passageiros, que vêm a oferta disponível aumentar fortemente”.
Mas para a AMT não é suficiente. O regulador liderado por Ana Paula Vitorino defende que a solução “mais estável e fiável” para resolver o problema “passaria pela introdução de material circulante adicional na linha para assegurar a melhor adequação da oferta face às necessidades da procura”. Só que este cenário não está neste momento em cima da mesa. Encomendar mais comboios demoraria anos — para além do custo — e a única operadora que poderia ceder material circulante à Fertagus — a CP — já informou a empresa privada e o Governo de que não tem meios para o fazer.
Governo pediu ajuda para reforçar comboios da Fertagus, mas CP respondeu que não tinha meios
Não sendo um cenário”exequível”, a AMT alerta que “não sendo ainda possível – com os dados disponíveis – antecipar quando e em que termos o crescimento da procura se possa manter ou estabilizar, com impacto não apenas na Fertagus, mas também no restante sistema, é possível que a qualidade e capacidade do serviço de transporte da Fertagus possa continuar com problemas“.
Nas respostas enviadas ao Observador, a AMT faz ainda recomendações à Fertagus, que devem ser articuladas com o gestor do contrato e Concedente, nomeadamente que:
- Avalie e pondere os custos e benefícios de diversos cenários de otimização e modelação da oferta na sua relação com a procura, eventualmente através da elaboração de plano previsional e de contingências, sobretudo nos troços mais procurados;
- Reforce a articulação com a TML – Transportes Metropolitanos de Lisboa para, numa lógica de intermodalidade de gestão e articulação de todos os operadores metropolitanos, incluindo a Carris Metropolitana, procurar suprir as falhas de oferta nas estações onde se tem verificado uma maior procura ou redistribuir fluxos de procura;
- Apresente um plano de comunicação com os passageiros, que vise informar das perturbações no serviço e alternativas viáveis às deslocações diárias, bem como outras ações que complementem a informação física e digital quanto à oferta, tendo em conta que nem todas as pessoas terão acesso a internet em telemóvel ou, em situações de aglomeração de passageiros, não sejam imediatamente percetíveis as opções por horários menos congestionados ou as opções disponíveis em outros modos de transporte;
- Para uma monitorização mais sistemática de indicadores de desempenho do contrato, envie aqueles dados para o gestor de contrato e Concedente, bem como para a AMT.
No essencial vão no sentido das medidas que estão a ser adotadas pela Fertagus, “em contacto estreito com a AMT”. Entre estas está a prestação de informação “ao público com a capacidade de transporte nos vários horários para uma melhor adequação dos passageiros, nos períodos de forte concentração nas horas de ponta”.
A empresa promete ainda trabalhar com os operadores de transporte da margem sul no sentido da promoção de uma maior articulação das ofertas existentes na margem sul, já que o desempenho destes prestadores, nomeadamente nas ligações a Lisboa, a respetiva regularidade e fiabilidade dos seus serviços são fundamentais para o desempenho e capacidade de transporte da Fertagus.
E diz que estão a ser desenvolvidos todos os esforços para mitigar ocorrências que possam criar perturbações na realização dos horários previstos, nomeadamente em contactos regulares com a IP para melhorar o desempenho global do serviço.