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Uma qualidade de serviço elogiada face a outras linhas ferroviárias suburbanas transformou-se num serviço com os passageiros transportados “como sardinhas em lata”. A expressão foi usada pelo presidente da Câmara do Seixal, Paulo Silva, para ilustrar o excesso de ocupação dos comboios da Fertagus na hora de ponta da manhã nas ligações da margem sul a Lisboa.

A renegociação e extensão do contrato de concessão com a Fertagus foi anunciada no final do ano passado como uma melhoria do serviço do comboio na ponte. Isso mesmo foi afirmado em comunicado pelo Ministério das Infraestruturas, no qual se destacava a melhoria da qualidade de vida das populações do concelho de Setúbal com o aumento de frequência do serviço e a redução do tempo de espera entre comboios para 20 minutos nas horas de ponta.

Só que o aumento da qualidade de vida dos passageiros que vivem entre Coina e Setúbal, o troço que viu reforçada a oferta, parece estar a ter consequências para os restantes clientes da Fertagus, em particular os que apanham o comboio em Corroios (Seixal) e Pragal (Almada), estações onde têm sido verificadas as maiores enchentes e consequentes dificuldades em entrar nas composições.

Viajar na Fertagus está a ficar incomportável com comboios cheios e multidões nas plataformas, afirmam utentes

Um dos fatores que está a pressionar a capacidade é um aumento súbito de 30% no número de passageiros que entram entre Penalva e Setúbal. Mas também faltam comboios para suportar o aumento da oferta. A Fertagus indicou essa necessidade ao Governo em 2023, sem resultado. O atual Governo está a tentar arranjar material alternativo que só existe na CP.

O Observador colocou várias questões à operadora que explora o serviço do comboio na ponte para perceber porque correu mal o arranque da nova oferta e o que está a ser feito para resolver o problema.

O que mudou na oferta da Fertagus?

A oferta no troço Setúbal-Coina, que serve ainda as estações de Penalva, Pinhal Novo, Venda do Alcaide e Palmela, foi “largamente aumentada” a partir de 15 de dezembro. Nos dias úteis e fins de semana os comboios passaram a ter uma frequência de 20 minutos quando até então passavam de hora à hora ou a cada meia hora nas horas de ponta da manhã e do final da tarde. Esta mudança representa “um aumento de 73% dos lugares oferecidos nos dias úteis e de 172% aos fins de semana”.

Já o troço entre Coina e Lisboa passou a beneficiar da passagem de comboios de 20 em 20 minutos ao fim de semana, que antes se fazia de meia em meia hora.

Quando começaram os problemas? E quais as queixas?

Os horários entraram em vigor em dezembro, mas o problema só começou a ganhar mais visibilidade a partir da segunda semana de janeiro, com o fim das férias escolares e alguns dias de muita chuva, que ampliaram ainda mais a procura por parte dos passageiros.

São sobretudo os passageiros das últimas estações servidas na margem sul — Corroios e Pragal — que entram nos comboios quando estes já vêm cheios. Queixam-se de não conseguir lugar, de dificuldades para entrar no comboio ou de viajar em unidades apinhadas onde há relatos de pessoas que se sentem mal.

Vai apanhar o comboio? Tome o pequeno-almoço

Este problema verifica-se sobretudo na hora de ponta da manhã, ou seja, entre as 07h00 e as 09h00, já que os regressos a casa são mais distribuídos ao longo da tarde e noite, e com menos concentração do que as saídas. E afeta mais quem faz os trajetos mais curtos, já que o incentivo para esperar por outro comboio, esperando dez minutos, é menor porque a viagem em si dura praticamente o mesmo. Já a viagem de Setúbal a Lisboa tem cerca de uma hora.

Que mudanças fez a empresa para responder a esta situação?

A Fertagus ajustou os horários a 20 de janeiro para conseguir uma “melhor adequação da oferta à procura”. O serviço nas horas de ponta da manhã passou a ser assegurado de forma a que não haja dois comboios simples (com menos capacidade) consecutivos no troço Coina-Lisboa. Quem não consegue entrar num comboio pode contar pela chegada, seguinte, de um comboio duplo, que como tem mais carruagens tem mais capacidade. Os “clientes poderão sempre optar por comboios duplos 10 minutos antes ou depois do horário de um comboio simples”. Ainda assim, na hora de ponta da manhã, existem períodos em que são garantidos cinco comboios duplos seguidos (das 7h39 às 8h19 no Pragal).

A Fertagus passou divulgar a taxa de ocupação dos comboios para permitir aos clientes escolherem os que vão menos cheios

Outra novidade é a disponibilização no site e nas estações de um quadro com informação atualizada sobre os níveis de ocupação nos horários de maior procura, de forma a “permitir uma melhor adaptação dos clientes aos comboios com maior disponibilidade”.

“Embora tenhamos uma elevada concentração de clientes, na medida em que 47% dos clientes que se deslocam para Lisboa se concentram em duas horas do período de ponta da manhã (cerca de 19 mil passageiros), com a atual oferta, em nenhum período de junção de dois horários (10 minutos) são ultrapassadas taxas de ocupação de 81%, sendo que a taxa de ocupação do período das 7h00 às 10h00 é de 65%.”

O problema é apenas do novo horário?

A Fertagus identifica outras causas que podem agravar o quadro. “Sempre que se verifica uma situação anómala na circulação, que origine atrasos, geram-se de imediato situações de dificuldade de transporte nos horários afetados por esses atrasos. Situações que têm coincidido em determinados dias, após a introdução desta nova oferta”.

Dá como exemplos os problemas de catenária, incidentes com passageiros, avarias de material circulante, atrasos de comboios da CP (que têm prioridade para passar no mesmo canal ferroviário) , entre outros, que “originam comummente interrupções de circulação, supressões e atrasos, criando muitas das dificuldades que têm sido recentemente noticiadas”.

Qual foi o efeito desta nova oferta na procura? Era esperada pela empresa?

Segundo as respostas dadas pela Fertagus ao Observador, o número de passageiros embarcados a partir Setúbal registou um salto de 30% nas primeiras semanas do ano, quando comparado com janeiro do ano passado. Há também mais procura nas estações intermédias, como Penalva e Pinhal Novo. A Fertagus diz que foram realizados estudos de procura para esta alteração, mas reconhece que o nível já atingido está “ligeiramente acima do estimado face à forte adesão ao novo horário a partir de Setúbal”.

De acordo com informação recolhida pelo Observador, foi sobretudo a rapidez com que a procura cresceu que surpreendeu a empresa. A Fertagus esperava também alguma adaptação dos passageiros à nova oferta de comboios simples e duplos (com mais lugares) com a preferência por estes últimos, ainda que isso implicasse mais tempo de espera.

Porque decidiu a Fertagus aumentar a oferta?

Este reforço de oferta resultou da negociação da extensão do contrato de concessão à Fertagus, empresa do grupo Barraqueiro, por seis anos. E partiu da constatação de que se verificava um aumento crescente da procura vinda de Setúbal, que nos últimos quatro anos praticamente duplicou, com um crescimento de 100% entre 2019 e 2024 para 108 mil passageiros por ano.

A empresa atribui este boom da procura à introdução, em 2019, do PART (programa de apoio à redução tarifária dos transportes) que reduziu para menos de metade ou mesmo um terço o custo do passe para os passageiros da Fertagus, que passaram a pagar 40 euros mensalmente (com acesso a outros transportes). O facto do passe Navegante a 40 euros ter sido estendido a Setúbal, cidade que fica a 50 km de Lisboa, levou muita gente a procurar esta cidade para viver, trabalhando em Lisboa.

De acordo com a empresa, a redistribuição da oferta feita a partir de dezembro do ano passado “permite acomodar esta evolução de procura” no eixo entre Coina e Setúbal.

A Fertagus tem comboios suficientes para a oferta?

A Fertagus opera com 18 comboios, o mesmo número de unidades que tinha quando iniciou a exploração do serviço no final do século passado. A empresa transporta atualmente mais de 100 mil passageiros por ano, um movimento que é comparável ao da linha de Cascais. Para responder a essa procura, coloca diariamente ao serviço 17 comboios, enquanto um fica na manutenção. O aumento da utilização dos comboios implicou uma adaptação do período para essa manutenção, que ficou mais restrito. Por outro lado, como opera sem qualquer comboio de reserva — para garantir a maior oferta possível nos períodos de ponta — quando há avarias é mais difícil resolver o problema.

Porque não foi o aumento da oferta acompanhado pelo reforço do número de comboios?

A Fertagus diz ao Observador que sinalizou ao anterior Governo, em 2023, que a introdução de mais oferta nas horas de ponta implicaria a utilização de mais comboios. Esta sinalização foi feita durante a negociação para estender o concessão, que foi já finalizada pelo atual Executivo. Mas não teve resultado, para já. O Estado é o proprietário dos comboios usados na exploração da Fertagus, ao ter assumido o contrato de financiamento numa renegociação do passado. Na atual fase da concessão, com mais seis anos, o Estado teria de suportar o custo da compra de novo material, que demoraria anos a ficar disponível.

E há alternativas?

O mesmo modelo de comboios usados na operação da ponte, com dois pisos, é usado pela CP na operação suburbana da linha da Azambuja. E pode, em tese, ser usado na exploração da Fertagus se houver disponibilidade deste material e se houver um acordo para esse efeito. Este material circulante, fabricado por um consórcio liderado pela Alstom, foi encomendado pela operadora pública na década de 1990 já a pensar na exploração ferroviária da ponte que viria a ser entregue a privados. Foram encomendados 30 comboios, dos quais 18 vieram a ser cedidos à Fertagus e os restantes 12 estão ao serviço da CP.

O que está o Governo a fazer?

Numa resposta à agência Lusa, a secretária de Estado da Mobilidade, Cristina Pinto Dias, diz que está a ser apurada “a disponibilidade de material circulante operacional ou em manutenção com o objetivo de perceber se é possível fazer uma melhor gestão do mesmo e garantir melhor qualidade aos utilizadores”.

Como medidas imediatas, Cristina Pinto Dias referiu que na próxima segunda-feira a IP — Infraestruturas de Portugal vai levantar as restrições ao limite de velocidade no troço Coina-Pinhal Novo, uma “medida que permitirá ganhar dois minutos nas viagens”, afetando “diretamente os comboios que circulam de norte para sul”.