Mais de 50 pessoas faziam fila na manhã desta segunda-feira à porta do Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins, no concelho de Sintra, para tentarem agendar uma consulta com um médico de família. Vários utentes carregavam mantas e bancos, para aguentar o frio e as horas de espera.
É um cenário habitual, porque é no primeiro dia útil de cada mês que os médicos abrem agenda para marcação de consultas. No Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins estão inscritos 42.000 utentes, mas mais de 37.000 não têm sequer médico de família atribuído.
Esta unidade de saúde abre às 8h00 e a Rádio Observador constatou no local que dezenas de utentes chegaram antes disso, ainda de madrugada, para conseguirem uma senha.
É o caso de Natália Cristo, chegou pelas 6h30 ao Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins, já a fila ia longa. “Sempre que posso venho mais cedo, pelas 5h00, é a melhor maneira de garantir que conseguimos uma senha para depois marcar uma consulta”, lamenta. Esta utente conta que já aconteceu ter exames feitos para mostrar a um médico de família, mas que, como ficou mais de um ano à espera, teve de repetir tudo.
Já Osvaldo Costa tenta quase mensalmente agendar uma consulta. “Há mais de 40 anos que não tenho um médico de família. É muito complicado conseguir a prescrição de exames e medicamentos”. Tem 72 anos e esteve em pé na fila cerca de três horas.
Grávidas e pessoas com crianças têm de esperar como os outros
À porta do Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins também há muitos imigrantes. É o caso de Dora Diaz, venezuelana que mora em Portugal há quase 30 anos. É a terceira vez que vem ainda de noite para a fila e já aconteceu, mesmo depois de várias horas em pé, não conseguir uma senha. “As pessoas que chegam mais cedo, ficam à frente e pedem mais do que uma senha. Depois quem está atrás não consegue garantir consulta”, critica. Conta que já chegou a demorar dois anos para conseguir atendimento.
Dora Diaz veio acompanhar a filha, María. Está grávida mas, mesmo assim, não teve prioridade. A Rádio Observador constatou no local que teve de esperar na fila, à semelhança das restantes dezenas de pessoas que aguardavam a sua vez. A imigrante venezuelana lamenta que a filha não tenha acompanhamento de um médico de família durante a gravidez.
Quem também não teve prioridade foi Cátia Gonçalves. Com a filha de dois anos ao colo, explica que desde dezembro está sem médico de família. “Liguei, enviei e-mails e não obtive qualquer resposta. Não há outro remédio sem ser vir para aqui”, desabafa.
O Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins, o maior do país, foi inaugurado a 25 de abril de 2021, pelo então primeiro-ministro, António Costa. Custou cerca de quatro milhões de euros. Apesar do investimento, mais de 37.000 dos 42.000 utentes inscritos continuam sem médico de família.
“Políticas dos vários governos estão a denegrir o SNS”, alerta Rui Nogueira
De acordo com o Portal da Transparência do Serviço Nacional de Saúde, há cerca de 790 mil utentes sem médico de família, só na Área Metropolitana de Lisboa.
Confrontado com estes dados, Rui Nogueira, médico de família e ex-Presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, considera que as medidas dos últimos Governos estão a “denegrir o Serviço Nacional de Saúde”.
Rui Nogueira diz que o SNS precisa de ser remodelado, algo que diz não estar a acontecer. O Presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar alerta ainda para o facto de, nos últimos anos, o SNS ter perdido a “cultura de valorização de médicos”.
Ouça aqui as declarações de Rui Nogueira na Rádio Observador: