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Em direto neste jornal, está agora Rui Nogueira, foi presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Rui Nogueira, bom dia, obrigada por estar conosco. As preocupações e as queixas do SNS não são de agora, como sabemos. O que, na sua análise, está a ser feito para resolver os problemas e o que foi conseguido já até agora?

Olá, bom dia, muito obrigado. Essa é uma pergunta terrível, porque aquilo que se tem feito é mesmo coisa nenhuma, ou se quiséssemos até pensar que estávamos a fazer alguma coisa, é mesmo para agravar os problemas. Hoje eu já não tenho nenhuma dúvida que aquilo que se está a fazer, as políticas dos últimos anos, note-se, já não é só deste governo, mas de vários governos. Aquilo que se tem feito é mesmo denegrir o Serviço Nacional de Saúde. Aquilo que se tem feito é tentar acabar com aquilo que nós conhecemos como Serviço Nacional de Saúde. Não é acabar com o Serviço Nacional de Saúde, porque o Serviço Nacional de Saúde vai continuar. Quando se fala em sistema de saúde, é um pouquinho de uma forma encapotada estarmos a denegrir o Serviço Nacional de Saúde. Nós não temos um sistema de saúde enquanto sistema, de uma forma organizada. O sistema é o conjunto das atividades do Serviço Nacional de Saúde, que representava, há uns anos, 80% da produção. Hoje já representará menos, não sei. Mas o conjunto de todas as atividades, de todos os intervenientes, sim, representa um sistema. Mas não é um sistema com organização propriamente dita de sistema. E, portanto, aquilo que nós temos é um Serviço Nacional de Saúde. Temos um Serviço Nacional de Saúde de 45 anos. Sim, a caminho de 46. Naturalmente, a precisar de ser remodelado, atualizado, acertado.

Mas isso não está a acontecer agora, Rui Nogueira. Houve várias alterações na estrutura, na organização do SNS, nomeadamente até com uma direção executiva.

Pois é, mas tudo isso tem vindo a recuar ou, se quisermos, a fazer-se de uma forma, não queria usar nenhum termo muito agressivo, mas de uma forma muito desorganizada. Repare-se, nós tínhamos uma organização com cinco regiões plano e depois tínhamos o conjunto de hospitais e de centros de saúde. Depois evoluímos para uma organização com agrupamento de centros de saúde. Em termos de economia de escala, em termos de organização, precisávamos de centros de saúde um pouquinho maiores para se poder ter mais organização, mas mantendo a proximidade. E tivemos um conjunto de 78 agrupamentos de centros de saúde, ou seja, conjuntos de centros de saúde, para melhor gerir, mas mantendo a proximidade. Depois, evoluímos, quando foi da Troika, para menos agrupamentos. Aumentamos o problema. Depois, agora, mais recentemente, acabamos com esses agrupamentos de centros de saúde, e agora até acabamos com os centros de saúde. Já lhe vou dar também uma outra ilustração disto que estou a dizer. Acabamos com os centros de saúde e foram criadas unidades locais de saúde, ou seja, os centros de saúde que então tínhamos ficaram agregados aos hospitais.

Sim. Não funciona, Rui Nogueira?

Não funciona.

Por quê?

Depois, criamos uma direção nacional, uma direção executiva, para deslocar o sentido político de toda a organização do Serviço Nacional de Saúde para uma direção técnica, como é necessário, de facto. Acabamos também com essa direção nacional executiva, quer dizer, essa direção executiva hoje nem se compreende bem o que está a fazer, porque tudo aquilo que se vê, que se ouve, que resulta, ou é das ULS, ou é de uma forma autónoma, como são, de facto, ou é do próprio ministério central, enfim, sem passar pela direção executiva. Portanto, a direção executiva foi apagada. E, portanto, não há uma cultura do Serviço Nacional de Saúde. Aquilo que me estava a perguntar, por que não resulta ou deixou de resultar, e as ULS deixaram de resultar. Nós tínhamos uma cultura organizacional, que demorou anos a criar e que se baseava num outro problema que nós temos agora, que se baseava-se num conjunto de carreiras profissionais. Enfim, eu só posso falar pela carreira médica.

Sim.

Mas se baseava muito numa cultura das carreiras médicas, assim conhecidas desde há dezenas de anos. Essa cultura foi se dilapidando, fomos desorganizando e perdendo recursos. Os médicos mais velhos querem sair do Serviço Nacional de Saúde e os mais novos não querem entrar. E, portanto, estamos a chegar a uma situação, já chegamos a uma situação, de facto, dramática, onde o Serviço Nacional de Saúde é mal organizado, trabalha com más condições, remunera mal, e portanto, os colegas mais jovens, nomeadamente, não querem, com toda a legitimidade.

Não procuram, e os mais velhos estão cansados e também fogem disso. Rui Nogueira, muito obrigada pela análise que aqui nos dá