Uma criança que leia com mais velocidade e com menos erros tem mais hipóteses de ter um melhor desempenho académico porque “compreende e apreende a informação” com mais facilidade. Mas para se investir nesta capacidade, primeiro “é preciso um diagnóstico rigoroso”. O alerta é feito pelo Ministério da Educação numa nota informativa enviada às escolas e que o Observador teve acesso. A tutela definiu assim que a fluência de leitura dos alunos do 2.º ano será testada entre os dias 9 e 20 de junho.

Numa data a decidir por cada escola, será levado a cabo um curto exercício de leitura. O diagnóstico será feito com base em duas tarefas. Numa primeira parte, cada aluno será individualmente chamado pelo professor titular e deverá ler um texto-padrão. “Contando com os preparativos e o momento de leitura, a tarefa individual não deve ultrapassar os 5 minutos, tendo sido concebida para ser simples e rápida na sua aplicação”, lê-se na nota.

Depois, numa segunda parte, é levada a cabo uma atividade de leitura na biblioteca da escola à frente dos restantes colegas de turma e que será acompanhada pelo professor bibliotecário.

Um em quatro alunos até ao secundário tem menos de 20 livros em casa

Este diagnóstico tem base numa parceria entre o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa) e a RBE (Rede de Bibliotecas Escolares), sendo que, como forma de preparação, o instituto vai partilhar um guião com algumas orientações e será ainda feito um seminário online para apresentação da medida.

Depois do diagnóstico, vai ser publicado um relatório nacional antes do início do próximo ano letivo, “a partir do qual serão concebidos referenciais de leitura”. Mas, sublinha-se na nota informativa, este não será “um momento de avaliação, quer interna quer externa, ou seja, os alunos não serão classificados ou terão uma nota’”.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Como (e porquê) se mede a fluência?

Na tarefa individual serão medidos dois indicadores: a velocidade (contando o número de palavras lidas por minuto) e a precisão de leitura (contando-se o número de erros cometidos).

De acordo com a nota a que o Observador teve acesso, este diagnóstico tem dois objetivos. Por um lado vai permitir aos professores terem uma perspetiva de comparação sobre a fluência de cada aluno, podendo assim “ajustar as intervenções pedagógicas à medida das necessidades dos seus alunos”.

Por outro, o facto de haver um diagnóstico a nível nacional será importante para a “melhoria do sistema educativo, contribuído para reflexões de foro curricular e pedagógico”.

As dificuldades de leitura “tendem a persistir ao longo da escolaridade”, por isso “uma avaliação e uma intervenção precoce, especialmente no 1.º ciclo do Ensino Básico, são fundamentais”, diz o Ministério da Educação às escolas. É necessário que os alunos desenvolvam “bases sólidas para a aprendizagem” e garantir que “nenhum fica para trás”.

O que correu mal nas provas de leitura? A evolução dos argumentos do Governo sobre suposta dificuldade das provas digitais

Isto porque, “uma criança com baixa fluência leitora sente, em média, maior dificuldade na compreensão de textos, o que constitui um obstáculo à sua aprendizagem da língua e de todas as áreas disciplinares”, consta no documento enviado.

Apesar de algumas escolas já avaliarem, por iniciativa própria, a fluência de leitura dos seus estudantes, esta “não é, ainda, uma prática universal”, além de que não existe um registo “centralizado dessa informação”, é ainda apontado na nota do Ministério, que admite mesmo que o conhecimento sobre a velocidade e precisão de leitura dos alunos do 1.º ciclo “é inexistente”, uma realidade que o Governo quer mudar.