Foi uma das primeiras histórias que Bruno Lage contou depois de regressar ao Benfica. Logo após a vitória em Belgrado, contra o Estrela Vermelha, revelou que prometeu aos filhos que um dia iria voltar a ganhar um jogo na Liga dos Campeões. O local da promessa, como o treinador explicou, não foi um qualquer: o Estádio Olímpico Lluís Companys, na Catalunha, enquanto assistia a um encontro europeu do Barcelona com João Félix no relvado.
Esta terça-feira, mais de um ano depois da promessa, Bruno Lage voltava ao Estádio Olímpico Lluís Companys. E estava precisamente obrigado a ganhar ao Barcelona para dar a volta à eliminatória, depois da derrota na Luz na primeira mão, e seguir para os quartos de final da Liga dos Campeões. Com todo o contexto nos ombros, o treinador encontrou a motivação óbvia para os jogadores: antes do treino já na Catalunha, pegou no telemóvel e mostrou aos jogadores uma fotografia de Jaime e Manuel, os filhos, para os recordar de que tinham a responsabilidade de cumprir a promessa que ele próprio tinha feito.
Ficha de jogo
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Barcelona-Benfica, 3-1 (4-1 no conjunto das duas mãos)
Oitavos de final da Liga dos Campeões
Estádio Olímpico Lluís Companys, em Barcelona (Espanha)
Árbitro: François Letexier (França)
Barcelona: Szczesny, Koundé, Ronald Araújo, Iñigo Martínez (Eric García, 88′), Alejandro Balde, Dani Olmo (Gavi, 70′), Frenkie de Jong (Fermín López, 81′), Pedri, Lamine Yamal (Marc Casadó, 81′), Lewandowski (Ferran Torres, 70′), Raphinha
Suplentes não utilizados: Iñaki Peña, Diego Kochen, Ansu Fati, Pablo Torre, Pau Victor, Héctor Fort, Gerard Martín
Treinador: Hansi Flick
Benfica: Trubin, Tomás Araújo (João Rego, 84′), Otamendi, António Silva, Samuel Dahl, Florentino (Leandro Barreiro, 70′), Kökçü (Belotti, 70′), Fredrik Aursnes, Schjelderup (Renato Sanches, 56′), Aktürkoğlu (Amdouni, 56′), Pavlidis
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Arthur Cabral, Prestianni, Nuno Félix, Gonçalo Oliveira, Leandro Santos, Adrian Bajrami
Treinador: Bruno Lage
Golos: Raphinha (11′ e 43′), Otamendi (13′), Lamine Yamal (27′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a António Silva (48′)
“Temos de entender que o Barcelona é uma grande equipa. Cheia de jogadores de enorme qualidade, em particular os três da frente, apesar de ter sido o guarda-redes a destacar-se no último jogo. Um treinador que está a fazer um trabalho incrível, já tem experiência de vencer a Liga dos Campeões. O Barcelona ainda não perdeu na Europa este ano e teremos esse desafio. Quando jogámos contra o Barcelona criámos imensas oportunidades e ficámos com a sensação de que poderíamos ter tido resultados diferentes. Mas é trazer tudo o que de bom fizemos nesses jogos e colocar amanhã, na hora da verdade, em prática. Perceber como podemos dar continuidade aos dois jogos que já fizemos com eles”, explicou Bruno Lage na antevisão da partida.
Ora, assim e ainda sem o lesionado Di María, o treinador encarnado lançava Samuel Dahl na esquerda da defesa, já que Álvaro Carreras estava castigado. Florentino juntava-se a Aursnes e Kökçü no meio-campo, enquanto que Schjelderup e Aktürkoğlu surgiam no apoio a Pavlidis. Do outro lado, Hansi Flick não mexia no onze inicial que apresentou na Luz na semana passada, trocando apenas Pau Cubarsí por Ronald Araújo no eixo defensivo, já que o jovem central foi expulso na primeira mão.
António e a síndrome de um erro central (a crónica do Benfica-Barcelona)
Numa primeira parte muito enérgica, onde foram raros os momentos parados ou desinteressantes, o Barcelona não demorou até perceber por onde podia causar estragos: Lamine Yamal, descaído na direita e com Samuel Dahl pela frente, tanto ultrapassava o lateral como se escondia em zonas interiores para provocar o caos. Foi dele o primeiro remate do jogo, com Trubin a encaixar (6′), e foi também dele o passe para Lewandowski, que atirou para nova defesa do guarda-redes (10′).
Logo depois, porém, o golo apareceu mesmo. Yamal voltou a desequilibrar pela direita, deixou Florentino caído no chão e cruzou para o lado contrário, onde Raphinha apareceu completamente sozinho a desviar para a baliza (11′). A reação do Benfica, contudo, foi imediata: na primeira ocasião de perigo de que beneficiou, na sequência de um canto cobrado na esquerda, Otamendi apareceu ao segundo poste a cabecear para empatar (13′).
Mas a lógica do jogo não mudou. O Barcelona tinha mais bola, estava quase sempre inserido no meio-campo contrário e não permitia que o Benfica explorasse a profundidade, com os encarnados a falharem muitos passes e a perderem quase todos os duelos. Já perto da meia-hora, de forma expectável, apareceu o segundo golo dos catalães: Yamal deixou Tomás Araújo para trás e tirou um remate cruzado perfeito que não deu hipótese a Trubin (27′), tornando-se o jogador mais novo de sempre a marcar e assistir na principal competição europeia.
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Até ao fim da primeira parte, depois de o jogo partir e criar ainda mais espaços para a equipa de Hansi Flick ativar a transição rápida, os catalães ainda chegaram ao terceiro golo e por intermédio de Raphinha, que bisou com um remate forte na área após arrancada de Alejandro Balde no meio (42′). Ao intervalo, o Benfica estava a perder com o Barcelona e tinha pé e meio fora da Liga dos Campeões.
Nenhum dos treinadores mexeu ao intervalo e o Benfica teve um golo anulado logo nos instantes iniciais, com Aursnes a acertar na baliza mas Pavlidis a ser apanhado em fora de jogo (49′). Ainda assim, a toada do encontro mantinha-se, com o Barcelona a ter mais bola, muito tempo para pensar no que queria fazer e enorme facilidade para chegar ao último terço contrário.
Bruno Lage mexeu ainda antes da hora de jogo, trocando Aktürkoğlu e Schjelderup por Renato Sanches e Amdouni, com Aursnes a subir no terreno. A dupla substituição não teve grande impacto na equipa ou no encontro, com os catalães a manterem o ascendente — ainda que sem verdadeiras oportunidades, denotando-se uma compreensível ausência de pressa ou verticalidade.
De Jong teve a melhor ocasião da segunda parte até então, ao desviar ao lado na cara de Trubin depois de um cruzamento de Koundé (65′), e Pavlidis respondeu na outra área com um remate que Szczesny encaixou (66′). Bruno Lage voltou a mexer nesta fase, lançando Belotti e Leandro Barreiro, e Hansi Flick colocou Gavi e Ferran Torres para refrescar a zona de construção da equipa antes de apostar em Fermín López e Marc Casadó nos últimos minutos.
Já nada mudou até ao fim. O Benfica voltou a perder com o Barcelona e está fora da Liga dos Campeões, com os catalães a marcarem encontro com Borussia Dortmund ou Lille nos quartos de final da competição. Depois de ter voltado a ganhar um jogo na principal competição europeia, como tinha prometido aos dois filhos, Bruno Lage falhou o objetivo de ganhar no sítio onde tinha feito a promessa — e grande parte da culpa é de Lamine Yamal, um miúdo que tem idade para ser seu filho.