Depois de terminar Severance e imediatamente antes de começar a escrever este artigo, fui reler a minha anterior resenha sobre a série, que se debruçou sobre a primeira temporada e os seis primeiros episódios da segunda. E não o fiz por um qualquer exercício de vaidade. Foi mesmo para não vos estar a maçar repetindo as minhas baboseiras. Gosto de ter sempre baboseiras fresquinhas para os meus fregueses, que é por isso que eles voltam a esta banca. Por isso ou para ir à caixa dos comentários escrever “Trash”, em resposta a um artigo com 7332 caracteres sem espaços. Uma só palavra e tanto fica dito. Gabo-lhe o poder de síntese, que me dá alguma inveja. Não é coisa que se gaste neste estabelecimento, como podem ver pelo comprimento dos lençóis que aqui vou escrevendo. E não, não me pagam ao metro. Sou só eu que tenho muitas palavras dentro de mim. Deve ter sido alguma coisa que comi em criança.
O que já não me lembrava é que tinha escrito isto a 16 de janeiro: “Se vou deixar que saiam os 4 episódios que me faltam ver, para lamber tudo de uma ponta à outra de rajada, porque não quero lidar com o hiato semanal? Sim, sou esse tipo de pessoa.” E não é que acertei no meu próprio palpite e foi o que aconteceu aos 22 de março, sábado último. Não consegui fazê-lo no dia de estreia do último episódio, porque tive que trabalhar durante o dia (eu sei, o mundo é um lugar injusto). E à noite, fui ver e ouvir a voz de apito da comediante Michelle Wolf (para quem esteja interessado, ótimo show, ela é mesmo muito engraçada e não se verificam lesões auditivas pós-traumáticas).
Corta para sábado de manhã, pijama, pantufas, sofá e Apple TV+. Chegou finalmente o momento de pôr fim à ansiedade que me acompanhava desde 28 de fevereiro, data em que se estreou o sétimo episódio. Termina agora o verdadeiro slalom que fiz entre spoilers nestas semanas para obter o meu merecido binge. A travessia foi dura e cheio de obstáculos e se isto não é um exemplo de resiliência e superação, a vossa bússola moral precisa de ir ao… Onde quer que seja que se consertam bússolas mesmo? Eu é que não faço ideia, nem o GPS consigo seguir, quanto mais. Como dá para perceber, que já me perdi no raciocínio outra vez. Severance, vamos, Susana. Foca. É possível que isto sejam efeitos secundários da própria da série que me deu um nó ao miolo tal, que ainda ando à procura da ponta do atacador. Mas vou já partilhar todas as minhas impressões. Sem spoilers, claro. Por quem me tomam?
Reza no Génesis que ao sétimo dia, tendo Deus terminado a sua obra, descansou. E é por isso que domingo é o dia do Senhor. E eu a escrever isto nesta manhã dominical, depois admiro-me. Isto para dizer que ao contrário do Senhor que entrou em modo chill ao sétimo dia, ao sétimo episódio os criadores de Severance entraram em modo fritaria máxima. “Ah, mas não é assim desde o primeiro frame?”. É verdade, mas o óleo foi aquecendo e fervendo e borbulhando ao longo dos episódios, em particular nesta segunda temporada, até chegarmos aqui. E aqui, tive de me agarrar às minhas sinapses com unhas e dentes, para não me sentir aquele palito de batata que fica agarrado à rede da fritadeira, indo a gordurosos banhos mais vezes do que seria suposto e transformando-me naquele carvãozinho triste e ressequido, que ninguém come, falhando o seu propósito inicial. Que é exatamente o que me está acontecer constantemente, a perder-me em analogias estapafúrdias. As minhas desculpas à audiência, mas é que eu sinto muito estas coisas.
E senti muito este episódio 7 — Chikhai Bardo — que é sobre amor e a sua infinita capacidade de nos trazer uma felicidade capaz de nos expandir os pulmões e uma dor que nos tira a vontade de respirar de vez. Chikhai Bardo é sobre Gemma, a mulher do enlutado Mark, e podemos assistir aos vários ritmos respiratórios desta relação que tem um papel fulcral na narrativa. Mini spoiler: Gemma e Mark conheceram-se a doar sangue e se isto não é a coisa mais fofa e que mais grita “somos bons seres humanos” de sempre? Como se não fôssemos já empáticos o suficiente com as agruras a que eles são sujeitos nas mãos da “Lumon”, assistimos agora ao enamoramento e apaixonamo-nos por e com eles.
Gemma e Mark têm aquele amor que idealizamos quando somos de letras e entramos para a faculdade e começamos a ler os clássicos (autobiográfico much?). Aquele romance entre académicos, que têm estantes de livros e plantas que sobrevivem a mais do que uma lua. São eruditos e amam a natureza. E comem coisas leves em pratos vintage e bebem copos de vinho, mas não têm ressaca, nem ficam com mau ar no dia seguinte. Pessoas intelectualmente superiores, mas que nunca são rudes com os empregados. Têm bons sobretudos, dos que não ganham borboto, mas gostam de andar descalços em casa e sentir a madeira na planta do pé. E a vida é frugal e o vinil canta chansons no gira-discos e cheira a lavanda e a clássicos russos. E há montagens com filtros de efeito retro e o som do retroprojetor. E é tudo lindo, lindo e lindo.
E depois? Depois, fica tudo muito triste muito depressa e durante muito tempo. E mais não digo, a não ser que a Dichen Lachman que faz de Gemma enche o ecrã, faz-nos suspirar de forma adolescente e leva-nos para um lugar muito escuro com uma pinta e uma classe que não só não é para todos, como é para pouquíssimos. Chamo ainda atenção para o glow down de Mark, que no flashback está bastante fazível. Enquanto que o innie de Mark tem o sex appeal de um modelo de banco de imagens low cost.
Não vou entrar em pormenores no que diz respeito aos restantes episódios porque, por muito criativa que seja (e sou, perguntem ao meu marido e aos meus filhos, testemunhas oculares das mil e uma coisas inapropriadas que me saem da boca, apenas por diversão), não o consigo fazer sem denunciar a trama. Portanto, vou seguir com pezinhos de lã e fazer algumas considerações.
[Já saiu o segundo episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]
Começo com uma muito parva: o Dr. Mauer, que está um tanto ou quanto obcecado com a Gemma do Mark e é creepy pa’ caraças, que isto é mesmo assim, faz-me lembrar o ponta de lança da pseudociência do Trump, Robert F. Kennedy Junior. Digam aí nos comentários se tenho razão. Também posso estar a perder visão, efeito secundário do meu boletim de vacinas em dia. A Miss Cobbel vai visitar a sua cidade natal no oitavo episódio, iluminando aquilo que foi o momento “Big Bang” da personalidade “amorosa” da nossa vilã. E deixem-me dizer-vos que este seria o cenário ideal para construir um resort de suicídio, all included. Frio, cinzento, abandonado, ruinoso. Belissimamente realizado e filmado. Ben Stiller, mais uma vez: está tudo perdoado. Até vou esquecer a sequela do Uns Sogros do Pior, para que vejas.
O episódio 9 tem um momento glorioso do Mr. Milchick a ter um mental break down, sempre sem perder o swag. Achei muito satisfatório e acredito que muito trabalhador por conta de outrem se vai identificar. Mas o ponto alto deste penúltimo capítulo é um debate entre o Mark e o Mark. Confusos? E então? Isto é o Severance. O Adam Scott dá mais um show absoluto de representação e nós assistimos a este ténis de mesa sem saber por quem torcer e a mudar de opinião com a mesma velocidade com que o realizador muda de ângulo e eu amei cada frame.
E a season finale, meus amigos! O que é que é isto, meus chapas? Não sei se é disto que o meu povo gosta, mas eu cá acabei a sentir-me vencedora, como num jogo do Sporting, partilhando os louros sem ter mexido uma palha para conseguir esta goleada. Foi ripa na rapaqueca em toda a linha (e para quem acha que eu surtei, sem mais nem quê, pesquisem Jorge Perestrelo. De nada.). Vi o episódio à beirinha do sofá, qual derby da 2ª circular, esbracejei de nervos e desespero umas quantos vezes e quase gritei golo no final. Sem nunca deixar a história ficar para trás, temos aqui um espectáculo de luz e cor que me fez ir buscar o queixo ao chão uma mão cheia de vezes.
Respondeu a várias perguntas? Sim. Se deixa novas no ar? Com toda a certeza. A terceira temporada está anunciada e eu vou agarrar-me a esta raio de luz de esperança em momentos mais difíceis do meu dia a dia. Tipo, cada vez que oiço a frase “eu não concordo com ele, mas ao menos é diferente dos que lá estão”. Termino com um agradecimento a vocês. Por me darem mais uma oportunidade de aliviar o fardo da minha obsessão nas vossas costas. Porque se o selo do meu adorado Scorsese não cabe aqui, acredito que ele não se iria importunar com uma pequena adaptação. Severance é “Absolute TV”.