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Há boas ideias transformadas em séries. E depois há uma obsessão chamada "Severance"

Deslumbrou com a realização, o guião, as interpretações e a direção de arte que transforma aquele mundo numa maquete descaracterizada da vida. E está de volta para uma primorosa segunda temporada.

Estava para ver Severance desde a estreia, em fevereiro de 2022. Mas acabei por ir adiando, muito porque não tinha Apple TV+ e devo confessar que não sou grande pirateira. Não estou a assinalar-me como moralmente superior, de todo. Até porque isto se deve mais à minha manifesta inabilidade informática e à pouquíssima paciência para sites que me estão sempre a perguntar se me quero encontrar com a Maria de 30 anos que esta a 800 metros de minha casa, do que a princípios e valores férreos. Quando percebi que estava para sair uma segunda temporada, pensei “Não é tarde, nem é cedo”… E sai uma expressão digna de uma personagem do Conta-me Como Foi para esta mesa! Não consigo fingir juventude, é um facto. Mas sou super convincente no capítulo da imaturidade.

E não é que quando tomei a decisão de me atirar à primeira temporada, surge a oportunidade de ver antecipadamente os primeiros seis episódios da segunda, que se estreia esta sexta-feira, dia 17 de janeiro? Se me senti uma menina especial e mandei mensagens aos meus amiguinhos a fazer pirraça? Fica no ar. O que não vai ficar no ar é a minha opinião sobre Severance: estou em modo obcecada com esta história, vi tudo em 3 dias e acho que demorei muito, e estou a lidar terrivelmente com o facto de só sair um episódio por semana, o que faz com que só possa retomar o vício no dia 28 de fevereiro e tudo isto é muito difícil. Se vou deixar que saiam os 4 episódios que me faltam ver, para lamber tudo de uma ponta à outra de rajada, porque não quero lidar com o hiato semanal? Sim, sou esse tipo de pessoa. Eu disse que não era moralmente superior na terceira linha deste texto e que era imatura na nona. Sempre transparente com o leitor, “for better and for worse”.

[o trailer da segunda temporada de “Severance”:]

“E se fosse possível dividir a tua vida pessoal da profissional com um bisturi? No trabalho não te lembravas de nada da tua vida pessoal e vice-versa?” A premissa de Severance é ótima, parece-me algo relativamente incontestável. Mas também não faltam exemplos de séries que partem de uma excelente ideia, mas rapidamente se despistam e espetam contra contra o muro, em excesso de velocidade. Não só não é o caso desta, como a narrativa se vai desenrolando e bifurcando em novos “E ses?”.

Na primeira cena do protagonista Mark Scout, interpretado por Adam Scott (o Ben de Parks and Rec), ele está a chorar copiosamente no carro, olha para o relógio, recompõe-se e dirige-se ao seu local de trabalho. Passa na receção, cumprimenta o segurança, retira a credencial do seu cacifo, entra no elevador e ao chegar ao seu andar, semicerra os olhos e a sua expressão muda. Ao percorrer o corredor, coloca a mão no bolso, encontra o lenço que tinha usado ainda há pouco para enxugar as lágrimas, reage com estranheza, deita-o no lixo e sorri. E nesta curta sequência, sem diálogo e exposição, está explicado o mecanismo de separação que é a base desta história. Touché!

“E se fosse possível dividir a tua vida pessoal da profissional com um bisturi? No trabalho não te lembravas de nada da tua vida pessoal e vice-versa?” — é esta a premissa de "Severance".

Mark trabalha na “Lumon Industries”, uma empresa fundada no século XIX, que foi sendo construída ao longo de gerações pela família Eagon, apesar de nunca percebermos exatamente qual é o ramo de negócio, ficará algures entre a industria farmacêutica, a tecnologia e sabe Deus o quê. Nalguns departamentos exige-se um tal grau de confidencialidade que para ter acesso a esses postos de trabalho é necessário passar por uma intervenção cirúrgica (a tal “severance”) que separa a memória do colaborador, dividindo-a em dois.

A partir do momento em que pica o ponto, Mark não tem qualquer memória das vivências fora do seu local de trabalho: onde mora, quem é a sua família, do que é que gosta, se está feliz ou absolutamente miserável. Quando desce o elevador no final do dia de trabalho, não faz ideia do que fez das nove à cinco, com quem esteve, se foi bem sucedido ou se a chefe lhe atirou com uma caneca à cabeça. A chefe Harmony Cobbel, principescamente interpretada por Patricia Arquette, consegue ser tão ou mais assustadora que a sua personagem em The Act, que conta a história verídica de uma mãe que envenena, arranca os dentes à filha e a obriga a andar numa cadeira de rodas de que não precisa. Só para terem uma noção.

Mark decidiu juntar-se à Lumon pouco depois da mulher ter morrido num acidente de automóvel, dado que passar 8 horas por dia sem aquele sofrimento sufocante do luto pareceu-lhe um bom negócio. Os seus colegas de departamento são Dylan, Irving e Petey, até que este último deixa de aparecer repentinamente e é substituído por Helly, que ao fim de duas horas se quer despedir com efeitos imediatos. O problema é que só os “outties” (o indivíduo na esfera pessoal) podem pedir o despedimento dos “innies” (o indivíduo na esfera profissional), o que transforma estes últimos em hamsteres numa roda sem voto na matéria.

▲ A nova temporada tem 10 episódios. Pelo menos até ao sexto, não fica absolutamente nada aquém da anterior

O trabalho propriamente dito consiste em “refinar números”. Isto é, ficarem sentados em frente a um computador arcaico a olhar para uma espécie de Sudoku com gráficos do tempo do MS-DOS, onde têm de encontrar números “assustadores” e arrumá-los em gavetas virtuais. Não perceberam? Não faz mal, porque Mark e os colegas também não e nem sequer sabem com que propósito passam o dia naquilo ou têm sequer abertura para questionar seja o que for. São acompanhados por um supervisor passivo-agressivo Mr. Milchik, que lhes vai dar os bons dias, que os premeia com merch da Lumon, mesas de fruta esculpida e “waffle parties”, e os tortura psicologicamente quando quebram o código de conduta. Código de conduta esse que foi lavrado por Kier Eagon e que é citado como se de um texto sagrado se tratasse, dando um cheirinho a Cientologia a tudo isto.

Tudo muda quando o “outtie” de Petey, o tal que saiu da Lumon, vai ter com o Mark. Petey diz ter revertido a separação de memórias, o que supostamente não era possível, que sabe o que a Lumon verdadeiramente faz e não é coisa boa. Acrescentar que Mark tem uma irmã, Devon, que está grávida, vive continuamente preocupada com o irmão que se está a afogar progressivamente num mar de tristeza e álcool desde que enviuvou, e é casada com Ricken, um wannabe guru do desenvolvimento pessoal, que está prestes a lançar um livro de auto-ajuda chamado The You You Are. Seria um ótimo título para Bruno Henriques e Sérgio Duarte analisarem no heroico podcast Livros da Piça (recomendo vivamente).

Não faltam exemplos de séries que partem de uma excelente ideia, mas rapidamente se despistam e espetam contra contra o muro, em excesso de velocidade. Não só não é o caso desta, como a narrativa se vai desenrolando e bifurcando em novos “E ses?”.

Na primeira temporada, emergimos neste mundo de mulheres e homens duplicados (aposto que o Saramago ia gostar desta série), com os conflitos de identidade dos “innies” e os seus índices de rejeição da vida que os “outties” lhes impuseram. No último episódio da temporada, (40 minutos que passei sentada na beira do sofá, tais eram os nervos), os mundos colidem e os papéis trocam-se por momentos e é assim que a temporada termina. O quão grata eu fiquei por não ter vista a série em 2022 e começar a segunda temporada no minuto a seguir? Não há palavras.

A nova season tem 10 episódios, dos quais vi seis. E até agora, não fica absolutamente nada aquém da anterior. Diria que está mais esquisita ainda, mais confusa — mas também o mundo, se compararmos 2022 com 2025. Filosofias de pacotilha à parte, a rebelião dos “innies” está ao rubro e as fronteiras entre as esferas pessoais e profissionais estão a esfumar-se cada vez mais para pânico do “board” da Lumon e da família Eagon. E as comparações entre a realidade e esta distopia continuam a ser inevitáveis.

Severance é a epítome da série que faz pensar. Além de me deslumbrar com a realização (quem diria, Sr. Ben Stiller?), o guião impecável no diálogo e na ausência dele, a direção de arte que transforma aquele mundo numa maquete descaracterizada da vida e atores que se multiplicam em dois de uma maneira notável, refleti muito durante estes 9+6 episódios. Percebo perfeitamente alguém que pense “o que eu não dava para me esquecer das merdas do trabalho no momento em que saio da porta?”. Nunca consegui fazer isso e tenho o meu marido, que já levou secas monumentais no horário pós-laboral, como testemunha. Mas acho mesmo que o retrato distópico (ou nem tanto assim) que é feito não é sobre a parte de baixo da pirâmide.

▲ Patricia Arquette regressa ao elenco e Gwendoline Christie interpreta uma das novas personagens desta segunda temporadaunda temporada

Sei que muitos vão discordar comigo (para não dizer chamar-me de tudo, menos pai), mas tenho de dizê-lo: aplicar este método de despersonalização do trabalhador é o sonho molhado de muito CEO da nossa praça. Aposto um descongelamento de carreira em como isto é verdade. Manuela Ferreira Leite disse aqui há uns  anos que era bom suspender a democracia por uns meses “para meter tudo na ordem e depois então venha a democracia”. Acho que há muito topo de hierarquia por aí que adoraria suspender o indivíduo que há no trabalhador, porque parecendo que não, um invólucro oco de outras prioridades havia de ser mais maleável e dava um colaborador muito mais alinhado com a cultura da empresa.

O Irving (um sempre excelente John Turturro) diz na primeira temporada qualquer coisa como “A história torna-nos alguém. Dá-nos um contexto. Uma forma. Sem isso, somos disformes”. Por isso, vou contar uma nesga da minha história. Noutra vida, trabalhei numa instituição destas, cheias de missão e visão que “tinham de fazer parte do nosso ADN”. Dez anos em que olhei para valores vinilados nas paredes e ouvi Recursos Humanos a arvorar a preocupação com o work/life balance. Ao mesmo tempo que tinha chefes que quando dizia até amanhã, 2 horas depois da minha hora de saída (16h30), perguntavam se ia tirar a tarde. E diretores que diziam em conference calls com as equipas que iam começar a enviar a pílula com o recibo de vencimento. Severance é uma série de ficção que vale muitíssimo a pena ver. Só é pena que não esteja assim tão distante de algumas realidades.

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