Traficada de Angola para Portugal aos nove anos, sob falsas promessas de educação, Ana Maria Jeremias passou mais de quatro décadas a trabalhar em casa de outras pessoas. Maria Abranches, fotógrafa portuguesa, freelancer, viu e quis fotografar a história desta mulher. Nasceu assim o projeto “MARIA”.
Foi com ele que Maria Abranches se tornou agora uma das três vencedoras da categoria “Histórias”, da Europa, do maior concurso de fotojornalismo do mundo, o World Press Photo.
Ao centrar-se na história de Ana Maria, a fotógrafa pretende incentivar a reflexão sobre o privilégio, bem como honrar a sua vida (e a de tantas mulheres como ela). Este projeto mostra a vida de Ana Maria Jeremias como prestadora de cuidados e trabalhadora doméstica em Portugal e reflete a experiência de inúmeras mulheres em toda a Europa.
“A minha relação com este tema é profundamente pessoal. Fui criada por uma mulher chamada Júlia, cuja história me lembra muito a da Ana Maria, a protagonista deste trabalho. Ela assumiu um papel de mãe para mim de muitas formas, proporcionando cuidados que iam muito além das suas obrigações profissionais, e isso é um trabalho que é invisível. Por isso, este projeto é sobre o trabalho invisível de uma mulher racializada, uma mulher angolana que eu espero que de certa forma, ajude a transformar o paradigma da sociedade portuguesa que ainda é fortemente marcado pelo seu passado colonial”, conta ao Observador Maria Abranches.
Além disso, a fotojornalista espera que este trabalho contribua para devolver à Ana Maria, a protagonista, e a tantas outras mulheres a voz e o reconhecimento que sempre lhe foram negados, assim como o seu direito à memória e à cidadania.
▲ Maria Abranches é fotojornalista freelancer
Ricardo Lopes
Ana Maria, a mulher retratada neste projeto, foi trazida para Portugal por uma família de portugueses que lhe mudaram o nome, mudaram até a data de nascimento, e impossibilitaram que tivesse contacto com a família durante mais de 30 anos. A fotojornalista acredita que a Ana Maria é o exemplo da vida de muitas outras mulheres e do trabalho invisível e da dedicação e do sacrifício constante.
“Tenho a esperança que a visibilidade de um trabalho sobre as cicatrizes deixadas pelo nosso colonialismo, o colonialismo português , possa ser um ponto de partida para o debate sobre a reparação histórica. Precisamos de reconhecer o papel histórico do nosso país, porque há uma relação direta entre esse passado, o nosso papel no tráfico transatlântico de seres humanos escravizados. E é essa relação com o racismo, porque as estruturas sociais mantêm isso há muito”, conclui Maria Abranches.
Em 2023, foi selecionada para a 5.ª Edição da Masterclass Narrativa, orientada pelo fotógrafo Mário Cruz, vencedor de dois Prémios World Press Photo, e foi ao longo dessa masterclass que desenvolveu o este seu projeto: “O Mário Cruz esteve presente em todos os processos deste trabalho: na preparação, na altura em que já estava a fotografar e no fim, quando estive a editar todo o trabalho”.
O trabalho agora reconhecido pelo maior concurso de fotojornalismo do mundo será publicado em livro e poderá ser adquirido no site da autora. A apresentação do livro acontecerá no dia 27 de abril, na Narrativa, em Lisboa.
Maria Abranches trabalha como fotógrafa documental independente com interesse em questões de direitos humanos. Cresceu em estreito contacto com as artes visuais e performativas – com um pai pintor e uma mãe ligada à música clássica – e recebeu a sua primeira máquina fotográfica aos 6 anos, uma polaroid.
Formou-se em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, em 2016. Fez o curso de fotografia do Ar.Co (2020-2022), que lhe abriu portas para um estágio no jornal Público e a levou a dedicar-se, exclusivamente, à fotografia.
Maria Abranches junta-se à lista de fotojornalistas portugueses que já venceram distinções no World Press Photo como Eduardo Gageiro, Pedro Barreira, Daniel Rodrigues e Mário Cruz. Como fotógrafa, colabora regularmente com o jornal Público, a agência Reuters e o jornal The Guardian.