Comecemos por aqui: Mark Eitzel merece entrar na categoria dos melhores autores de canções da sua geração. O facto de não ser lembrado quando se quer fazer uma escolha é sinal de que este mundo não é para artistas que não se promovem. À conta de um talento excecional para a autossabotagem, tão vasto quanto o talento para a composição e interpretação, Eitzel, um rapaz de São Francisco (como habitante; cresceu noutros lados do mundo), passa mais despercebido do que um ghostwriter de um fantasma. A hipérbole tem a justificação – porque o homem que foi a voz e a lírica dos American Music Club e traz um significativo historial nas digressões a solo, merece todos os exageros, todos os gestos de insensatez. Num mundo justo, Mark Eitzel teria a mesma celebração que favorece um Michael Stipe. E, se pensarmos bem, os dois, com mais ou menos a mesma idade, têm muito mais semelhanças do que apartamentos.
Há um privilégio eitzeliano: os que o amam, amam mesmo. Em Portugal, por exemplo, beneficia da atenção dos melhores ouvidos. E de alguns decisores culturais. Ao convite para se apresentar em palco acompanhado de um Octeto de Cordas, partindo do diretor de programação do Auditório de Espinho (onde toca esta sexta-feira), juntou-se o bom acolhimento da ideia dos programadores da lisbonense Culturgest e do Theatro Circo (que visita no sábado), em Braga. E a vida sorriu.
▲ Saído do concerto, sobressai a convicção. Eitzel, com mais ou menos orquestra, é sempre indie
FOTOS: Vera Marmelo
Na quarta-feira foi a vez de Lisboa, em noite de semana. O autor de Songs of Love, 60 Watt Silver Lining e Hey Mr Ferryman, na sua vestimenta de anti-herói, sempre disponível para fazer piadas, algumas negras, sobre si próprio, capitaneou, irmanado pelas suas guitarras, um momento de feliz combinação. Havia no ar, e no modo como se desenrolou o concerto, uma certa sensação de estreia de um trabalho com uma certa dose de risco. Sabe-se que quase não houve ensaios presenciais e era decisivo que uma série de novíssimos músicos de base clássica suportasse bem o imaginário musical do artista – e que o artista soubesse rimar com as texturas instrumentais, algures entre violinos, piano e trompete, projetadas. Essa dança, que, neste conceito, não beneficiará de tempo para amadurecer, correu bem, tendo o músico norte-americano assumido todas as imperfeições ocorridas. O público foi cúmplice, admirou o esforço e beneficiou do desenho, por vezes imperfeito, do conjunto.
[Já saiu o terceiro episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
As canções trazidas pelo bardo, esculpidas a melancolia, e interpretadas por uma voz ora cálida ora arrebatada, sempre pela verdade da vivência e da biografia, contemplaram o melhor catálogo dos American Music Club — como em Patriot’s Heart, logo a começar, para dar o tom sarcástico-político, e nas sempre amorosas Firefly, I’ve been a Mess, All My Love e Western Sky, as canções fabricadas a solo, algumas de há alguns anos, como as sempre comoventes I Love You but You’re Dead e An Answer, e outras novíssimas — como Enomi e Let’s Fall From the Sky .
▲ Num mundo justo, Mark Eitzel teria a mesma celebração que favorece um Michael Stipe
FOTOS: Vera Marmelo
Alguns dos interlúdios de stand-up tragedy incluíram cáusticas referências a Trump e a JD Vance, segundo a ácida ironia do maestro, grandes fãs das suas canções, declarações ao marido, histórias e episódios — um deles com a referência Bruce Springsteen.
Saído do concerto, sobressai a convicção. Eitzel, com mais ou menos orquestra, é sempre indie. E isso é bom. Ou seja: o rascunho está sempre lá, o pequeno tropeço existe, a pausa para assumir o erro faz parte. Isso, para citar Cazuza, faz parte do seu show. Sem essa componente, não haveria este figurão que, por mais que se apresente em lugares sofisticados, com arranjos mais complexos, nunca sai do estrado de um bar clandestino, escuro e povoado por um público sentimental e perdedor — sim, que sabe que viver é perder. Assim foi também em mais um regresso a Lisboa e assim será, com certeza e para a (triste) felicidade de todos, em Espinho e em Braga.