Quem desce a rua de Santa Marta, a dois passos do Marquês de Pombal, em Lisboa, pouco ou nada se apercebe de que ali se esconde um antigo convento do século XVII. Extinto em 1890, é, desde o verão do ano passado, casa do Locke de Santa Joana, o primeiro hotel Locke na capital. É aí, no restaurante homónimo que toma conta da igreja do convento, que o chef Nuno Mendes dedica um terço da sua rotina gastronómica — que se desdobra entre Lisboa, Porto e Londres. Com o Santa Joana aberto desde outubro, o restaurante ganha agora uma nova vertente: aos domingos há brunch, como manda a tradição britânica, que se popularizou nos EUA.
“Para mim, o brunch é um dia só”, explica o consagrado chef estabelecido em Londres, ao justificar o porquê de não apostarem nos dois dias do fim de semana: “Acho que sábado, para mim, ainda é almoço e estou habituado a um lazy brunch ao domingo”. A partir de dia 6 de abril, este lazy brunch pensado como um ponto de encontro entre família e amigos arranca todos os domingos às 11h00. Já de barriga cheia, e até às 16h00, o ambiente divertido e descontraído — que invoca os dias quentes de verão — ficará ao cargo de diferentes DJs, no terraço escondido do restaurante.
▲ O chef Nuno Mendes que desde o ano passado faz parte do restaurante Santa Joana, no Locke de Santa Joana
Henrique Isidoro
Mas, porque é de comida que se fala nesta mesa farta, há que explicar a viagem de sabores que as influências culinárias de Nuno Mendes trouxeram até aqui. Panquecas e tostas de abacate à parte, no Santa Joana o brunch faz-se com uma seleção de pratos que, afirma o chef, não são menu de degustação. Inspirado no conceito de dim sum, o menu faz chegar à mesa “diferentes texturas, sabores, umas coisas frias, umas coisas quentes”, enumera, sem nunca colocar uma regra quanto à ordem que devem ser saboreados. “Acho que não é justo eu estar a dar muitas direções [aos clientes]. Isso vai completamente contra o formato. Tem que ser uma coisa relaxada. É o que chegar, vai-se comendo”, explica.
Se primeiro se explora individualmente as grandes mesas recheadas com as seleções de viennoiserie, preparadas pela mão da chef pasteleira Maria Ramos, com pastelaria, panquecas, waffles e pães com doces, geleias e manteiga; de charcutaria, com carnes fumadas, queijo locais e comportas; e de saladas, da clássica verde à César, o momento de partilha chega em seguida com o raw bar do Santa Joana. Servido à mesa, apresenta ostras ao natural ou com o molho sriracha verde, tártaro de peixe selvagem com ervas aromáticas, barriga de atum curada com caldo do refogado e azeite e tártaro de vaca maturada com mostarda e cornichons.
▲ O menu de brunch do Santa Joana está divido entre zona de buffet e pratos quentes servidos à mesa
Henrique Isidoro
Estes pratos vão buscar um pouco daquilo que o chef serve de terça-feira a sábado ao jantar. “Algumas preparações e produtos correspondem com o que servimos ao jantar. Mas a ideia é que seja também um bocadinho diferente. Aliás, que não seja tudo igual para que se seja capaz de manter a experiência do jantar”, explica o chef, acrescentando que, apesar de o formato ainda precisar de ser polido, gosta que num brunch haja aquele momento de buffet — “para as coisas mais simples e básicas” — acompanhado pela seleção de pratos empratados que vão chegando à mesa. Face à quantidade de momentos, Nuno Mendes aposta na presença de folhas e flores nas suas receitas para que “não pesem muito”.
Raw bar passado, chega o Santa Joana Feast, ainda a tempo das sobremesas. De conforto, há ovos cocotte com tomate, espinafres e molho holandês, frango frito com leitelho, molho ranch e arroz de marisco e bivalves, que vem aconchegar o final do brunch, seguindo a ordem dos menus do kaiseki, no Japão, “em que se acaba a parte principal com o prato de arroz”. “Acho que [um arroz do mar] é das comidas reconfortantes e aconchegantes que eu gosto de comer no fim de semana. Acho que faz parte da mesa ao fim de semana. E é aquelas coisas que é preciso ter um bocadinho mais de tempo para o comer, não é? Às vezes, durante a semana, não há tempo”, explica, acrescentando que mesmo que os pratos do menu vão mudando consoante a estação, o arroz vai sempre ficar.
Para uma dieta vegetariana, o chef preparou ainda uma carta que, tal como a de proteína animal, convida à partilha. Depois de uma aventura no buffet, há a versão anterior do frango mas em formato couve-flor frita com leitelho e molho ranch; em vez de marisco, o arroz é de cogumelos e cebola; no lugar da vaca vem o tártaro de beterraba com mostarda e cornichons; e pela vez da barriga de atum surge o aipo curado com caldo do refogado e azeite novo.
▲ Toda a seleção de viennoiserie e doçaria está a cargo da chef pasteleira Maria Ramos
Henrique Isidoro
A acompanhar, e em aquecimento para o momento descontraído com boa música no terraço do Santa Joana, há ainda uma carta de cocktails de assinatura, também com opções não-alcoólicas (7 euros). Aqui não falta o típico Bellini, em versões diferentes, com manga ou com tangerina (9 euros cada); ou uma adaptação do Bloody Mary, um Santa Joana Mary (9 euros), com vodka, tomate, sriracha verde, limão e aipo. Quanto à mesa de sobremesas — de volta ao formato buffet — a mão da chef pasteleira Maria Ramos volta a ser sentida, com sugestões de doces conventuais. Face ao antigo convento onde nos encontramos, a tradição portuguesa mantém-se com as farófias com creme cítrico e canela, a sericaia com compota de ameixa e o arroz doce. Esta aposta passa também pelo jantar onde, afirma Nuno Mendes têm “começado cada vez mais a puxar pelos doces conventuais”. Para quem o tradicional não adoça a boca, há ainda opções mais democráticas, como a mousse de chocolate, o brownie de chocolate e caramelo salgado, as cookies, gelados caseiros e uma seleção de fruta da época.
Locke de Santa Joana. Pizzas, artefactos romanos e dormir num antigo convento
“Enquanto pai, adorava trazer os meus filhos a um espaço assim, onde se pode comer bem. Temos o brunch, podem comer do buffet coisas mais simples ou se quiserem também podem provar pratos mais arrojados. Mas também temos opções para não entrarem nesse registo, se for preciso. E depois podemos vir cá para fora, estar à vontade, há espaço”, comenta o chef, destacando a vontade de serem um brunch descontraído e family friendly — e pet friendly também. O menu de brunch tem o valor de 50 euros por pessoa, com café, chá e sumos de fruta incluídos, e para as crianças dos quatro aos 12 anos fica a 20 euros. Até aos quatro é gratuito.