Ao contrário de muitos outros, era um Clássico onde as duas equipas discutiam coisas diferentes. FC Porto e Benfica encontravam-se no Dragão, a pouco mais de um mês do final do Campeonato, com objetivos, preocupações e sonhos separados por um mar de distância — mas não era por isso que dragões ou encarnados abordavam o jogo de forma distinta. Este domingo, tal como sempre, era para ganhar.

De um lado, no FC Porto, a ideia passava por não perder ainda mais terreno para os principais rivais e fugir ao risco de ser ultrapassado para o Sp. Braga e cair para o quarto lugar. Martín Anselmi ouviu André Villas-Boas dizer, durante a semana, que este era o “jogo da época”, mas não foi na mesma onda fatalista na conferência de imprensa de antevisão.

Ficha de jogo

↓ Mostrar ↑ Esconder

FC Porto-Benfica, 1-4

28.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

FC Porto: Diogo Costa, Nehuén Pérez, Stephen Eustáquio (Martim Fernandes, 64′), Marcano, João Mário (Zé Pedro, 77′), Alan Varela, Fábio Vieira, Francisco Moura (William Gomes, 84′), Pepê (Gonçalo Borges, 64′), Rodrigo Mora (Danny Namaso, 77′), Samu

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Otávio, André Franco, Tomás Pérez

Treinador: Martín Anselmi

Benfica: Trubin, Tomás Araújo (Samuel Dahl, 62′), António Silva, Otamendi, Álvaro Carreras, Florentino, Fredrik Aursnes, Kökçü, Di María (Schjelderup, 73′), Aktürkoğlu (Leandro Barreiro, 90+1′), Pavlidis (Belotti, 73′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Amdouni, Arthur Cabral, Bruma, Adrian Bajrami

Treinador: Bruno Lage

Golos: Pavlidis (1′, 42′ e 69′), Samu (81′), Otamendi (90+4′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Nehuén Pérez (16′), a Álvaro Carreras (23′), a Gonçalo Borges (82′), a Martim Fernandes (90+3′)

“O jogo mais importante é sempre o jogo da época. E este é especial. Somos uns privilegiados por representarmos o FC Porto, por amanhã podermos defender estas cores num jogo desta importância. No final de contas, o Benfica não pode perder a liderança no Dragão. E nós sabemos a importância disso e que temos de ir em busca dos três pontos”, atirou o treinador argentino, colocando a pressão do lado do adversário.

Do outro lado, no Benfica, a ideia passava por não permitir que o Sporting ficasse isolado na liderança do Campeonato e manter a possibilidade de depender apenas de si mesmo para ser campeão nacional. Bruno Lage, na antecâmara do Clássico, não escondia a importância do jogo, mas também não lhe atribuía características decisivas.

“É um jogo muito importante para nós, mas não é decisivo. É um jogo muito importante e vamos com a ambição de jogar bem, de ter um futebol ofensivo e vencer o jogo. Isso tem de ser determinante. Sinto que preparámos muito bem o jogo, principalmente em função daquilo que o FC Porto tem feito nos últimos jogos. Prevejo que seja quentinho, como todos os outros. Mas o mais importante é a mentalidade vencedora e a nossa ambição de vencer o jogo”, explicou o técnico encarnado.

Neste contexto, este domingo, Martín Anselmi não surpreendia e lançava o onze inicial habitual, com Stephen Eustáquio adaptado ao trio de centrais, Fábio Vieira e Alan Varela no meio-campo e Rodrigo Mora e Pepê no apoio a Samu. Já Bruno Lage tinha Tomás Araújo de regresso à direita da defesa, recuperava a titularidade de Florentino e Di María e deixava Bruma e Schjelderup no banco, mantendo a aposta em Aktürkoğlu.

O jogo começou praticamente com um golo: aos 41 segundos, Aktürkoğlu cruzou a partir da esquerda e Pavlidis apareceu sem oposição na grande área a desviar de primeira para bater Diogo Costa (1′). O lance começou por ser anulado por aparente fora de jogo do avançado grego, mas o VAR acabou por confirmar que a posição era legal e colocou o Benfica a ganhar no Dragão sem que o FC Porto tivesse sequer tocado na bola.

Os dragões reagiram bem ao balde de água fria e assumiram desde logo o controlo do meio-campo, vencendo muitos duelos e asfixiando por completo as tentativas de construção dos encarnados. Rodrigo Mora desperdiçou uma boa oportunidade para empatar na sequência de um erro colossal de António Silva (6′), mas a verdade é que a equipa de Martín Anselmi não tinha a capacidade para materializar o facto de estar inserido no meio-campo contrário, faltando verticalidade e intenção.

O primeiro remate do FC Porto apareceu já perto da meia-hora, com Marcano a cabecear ao lado (24′) e já depois de Tomás Araújo ter acertado no poste numa recarga a uma defesa de Diogo Costa (18′), ainda que estivesse em fora de jogo. Samu pontapeou a atmosfera quando só tinha Trubin pela frente (26′), ninguém apareceu para emendar uma defesa do ucraniano após cruzamento perigoso de Francisco Moura (30′) e o Benfica, embora com menos bola, estava muito confortável ao oferecer a iniciativa e ia aproveitando as transições rápidas para criar o pânico junto da baliza contrária.

Aktürkoğlu acertou no poste depois de driblar Eustáquio (31′), Pavlidis também atirou ao ferro na sequência de um passe do turco (39′) e a verdade é que, de forma quase inevitável, o segundo golo dos encarnados acabou mesmo por aparecer: na insistência depois de um canto na esquerda, a bola foi parar a Pavlidis e o avançado grego sentou um adversário antes de atirar para bisar e aumentar a vantagem (42′). Ao intervalo, o Benfica estava a vencer o FC Porto no Dragão.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e o primeiro lance de perigo da segunda parte pertenceu a Di María, que esteve perto do golo olímpico mas viu Diogo Costa defender com dificuldade (48′). O jogo regressou algo diferente, com o Benfica a assumir o controlo das dinâmicas e o FC Porto sem capacidade de contrariar essa lógica, limitando-se a defender as investidas dos encarnados.

Di María voltou a ficar perto de marcar com um remate à malha lateral (53′), verificando-se também uma subida de rendimento do argentino depois de ter passado algo ao lado do jogo na primeira parte, e Aktürkoğlu viu Diogo Costa roubar-lhe o golo com uma boa defesa (59′). Bruno Lage mexeu pela primeira vez à passagem da hora de jogo, de forma forçada e devido a nova lesão de Tomás Araújo, e colocou Samuel Dahl, com Martín Anselmi a responder com as entradas de Martim Fernandes e Gonçalo Borges, sendo que o lateral foi adaptado ao trio de centrais.

O xeque-mate, porém, apareceu a cerca de 20 minutos do fim. Di María soltou a magia, tirou um cruzamento extraordinário na direita e Pavlidis, de cabeça, só teve de encostar para carimbar o hat-trick — tornando-se o primeiro jogador de sempre a marcar três vezes pelo Benfica em casa do FC Porto (69′). Os encarnados capitalizavam uma segunda parte muito autoritária, onde não concediam quase nada aos dragões, com a equipa de Martín Anselmi a mostrar-se demasiado limitada para conseguir sequer discutir o resultado.

Bruno Lage tirou Di María e Pavlidis nesta altura, lançando Schjelderup e Belotti, e Martín Anselmi colocou Danny Namaso e Zé Pedro ainda antes de Samu, numa recarga depois de defesa de Trubin a remate de Fábio Vieira, reduzir a desvantagem (81′). Já bem dentro dos descontos, porém, Otamendi ainda foi a tempo de carimbar a goleada (90+4′) e repetir o resultado da primeira volta na Luz.

No fim, o Benfica voltou a golear o FC Porto, agora no Dragão, e colocou-se na liderança isolada do Campeonato de forma provisória, ficando à espera do resultado do Sporting contra o Sp.Braga na segunda-feira. Pavlidis, o avançado grego que foi patinho feio durante grande parte da temporada, mostrou que não é um Ícaro que voou demasiado perto do sol — é um Hércules que se tornou herói.