Brilhou no Ajax durante quatro anos, chegou ao Manchester United como the next big thing que iria afastar todos os problemas de um clube grande de nome que ficara apenas com o estatuto do passado, durou pouco mais de dois anos em Old Trafford, teve de seguida outra passagem ainda mais breve pelos alemães do Bayer Leverkusen que deixou tudo menos saudade. De setembro de 2025 para cá, pouco ou nada se foi ouvindo em relação a Erik ten Hag. Por opção própria, por força da viragem na carreira – é desde fevereiro de 2026 o diretor desportivo do Twente. Entre todo esse trajeto, o neerlandês ficou conhecido por outro aspeto: foi a cara que “encostou” Cristiano Ronaldo na última passagem pela Europa. E o próprio reconhece isso.

Agora, depois de um longo silêncio desde que deixou os red devils (na Alemanha fez sempre questão de fugir ao tema, no regresso aos Países Baixos aproveitou a posição mais discreta na estrutura do Twente para não falar), Ten Hag abordou de forma direta e sem tabus aquilo que aconteceu com o avançado, que acabou por abandonar Old Trafford depois de uma entrevista “explosiva” a Piers Morgan antes do Mundial do Qatar-2022, em novembro. Hoje, dois anos depois do choque, não tem dúvidas: voltaria a fazer o mesmo.

“Ele dececionou a equipa e dececionou-me a mim, porque tínhamos planos juntos. Fui a Portugal para conversar com ele sobre os meus objetivos. Obviamente, ele é um dos melhores jogadores da história e eu respeitava-o enormemente. Mas ele não se dedicava, com e sem bola. Já não corria… O motivo é que não estava preparado”, assumiu o treinador neerlandês de 56 anos em entrevista ao The Athletic.

“Confrontei-o. Disse-lhe várias vezes: ‘Toda a gente quer trabalhar para ti, para estares na posição certa, mas se não apareces na área, não marcas’. Ele não era capaz. É uma ideia errada culpar-me dizendo que esperava que fizesse a pressão. Ele não conseguia. Não corria nem com a bola nem sem a bola porque não se preparou adequadamente. Ele dizia aos jogadores: ‘Guardem as pernas no treino’. Entendo isso quando estás em plena forma, mas primeiro tens de treinar para atingir o nível certo. Todas as equipas de topo devem acarinhar o jogador de topo, mas o jogador tem de trabalhar para a equipa”, acusou ainda Erik ten Hag.

“Aproveitei cada minuto no Manchester United, tenho memórias maravilhosas. Sinto-me ligado, sou adepto. Tem uma claque incrível, sempre me trataram com respeito. Quero muito que o United ganhe, quero que volte a ter sucesso, quero que volte a ser o que era antes. A liderança precisa de competência, precisa da estratégia certa. Qual é a real identidade do clube? Quais são os métodos de trabalho? É preciso ter as estruturas certas e pessoas de qualidade. E depois, tempo. Michael Carrick? Demiti-lo não é a solução, nem pensar. Os adeptos vão exigir isso se os resultados não melhorarem – é algo que vem de dentro, da emoção. É preciso tomar decisões racionais. Ele demonstrou boas capacidades como treinador no Middlesbrough e na época passada. Por isso, deixem-no seguir o seu processo. Acho que tem uma boa equipa técnica”, salientou na primeira parte da entrevista divulgada pelo jornal, que passou dois dias com o técnico em Enschede.

“Não iria continuar com apenas mais um ano de contrato. Então disse: ‘Preciso de mais um ano e temos de fazer isto juntos’. Prometeram-me lealdade, apoio, comunicação, que estaríamos alinhados. Falámos sobre os problemas mas as promessas não foram cumpridas”, prosseguiu, dando como exemplo a venda de Scott McTominay ao Nápoles depois de ter ficado definido que iria permanecer no plantel. “Apresentei um argumento, uma razão: não temos capacidade para marcar golos. O Scott traz essa capacidade e uma mentalidade fantástica. Ele tem o United no sangue. Quando tocaram no assunto, disse que não. No final, venderam-no. Fiquei muito envergonhado e desapontado”, apontou como exemplo da quebra com o clube.

Em paralelo, Ten Hag explicou ainda os sinais que percebeu estarem a surgir em relação a uma possível saída, curiosamente num encontro frente ao Fenerbahçe de José Mourinho. “Consigo ler as situações. Notei, quando algumas pessoas não estavam em Istambul, que de repente algo estava a acontecer. Mesmo assim, depois daquele verão, em que se recebem pedidos de desculpa pelo comportamento deles, e que iríamos reconstruir a equipa, é surpreendente… O nosso objetivo era a Liga Europa. Acho que quando se escolhe um treinador e ele prova em duas épocas que consegue ganhar troféus e chegar às finais, não é uma boa gestão trocá-lo… Ego? Não tenho ego, trata-se apenas de confiança”, recordou sobre a antecâmara da saída.

Ten Hag abordou também a chegada de Jim Ratcliffe ao clube como proprietário com poderes executivos, numa ligação que já tinha começado em 2021 quando o inglês entrevistou o técnico sobre uma possível vaga nos franceses do Nice. “Depois da primeira reunião em Carrington, começou a falar sobre a estrutura do clube, sobre como o treinador deveria ser o treinador principal. Eu disse: ‘Ok, vamos falar, mas o meu contrato é diferente’. Sempre quis cooperar com um clube. É preciso encontrar uma estratégia, uma filosofia, um modelo de jogo, um perfil de equipa, perfis individuais. Era a isso que estava habituado, mas com eles não havia comunicação”, comentou, antes de uma parte da entrevista com exemplos individuais.

“Não senti apoio em algumas decisões tomadas. Assim, continuam a perpetuar a cultura tóxica, alimentam-na, dão poder aos jogadores. O Rashford é um jogador incrível se estiver com a mentalidade correta. Sempre confiei nele, coloquei-o a jogar. Mas quando demonstras esses padrões, por vezes é preciso fazer correções”, contou, antes de chegar ao momento em que abordou Cristiano Ronaldo, outro dos casos nomeados. O The Athletic refere que contactou representantes do jogador para comentar as palavras de Erik ten Hag sobre o português durante o período do Manchester United mas que não obteve qualquer tipo de resposta.

“Ten Hag? Não tenho respeito por ele porque ele não demonstra respeito por mim. Se não me respeitas, nunca te terei respeito. Senti-me traído, senti que algumas pessoas não me queriam aqui, não apenas este ano, mas também no ano passado”, tinha referido o capitão da Seleção em novembro de 2022, na entrevista a Piers Morgan antes do Mundial que levou a que o Manchester United rescindisse contrato com Ronaldo.