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O turno acabou: como se explica o sucesso de "The Pitt"?

Este artigo tem mais de 1 ano

A série apareceu num contexto que não lhe era favorável: descrédito do subgénero, saturação do conceito e competitividade louca pela atenção do espectador. Sendo assim, como é que funcionou tão bem?

A série protagonizada por Noah Wyle (que também colaborou como guionista em dois dos episódios) sabe fazer um back to basics eficaz nos seus 15 episódios, que representam uma temporada muito longa na era do "oito episódios e já vais com sorte"
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▲A série protagonizada por Noah Wyle (que também colaborou como guionista em dois dos episódios) sabe fazer um back to basics eficaz nos seus 15 episódios, que representam uma temporada muito longa na era do "oito episódios e já vais com sorte"

▲A série protagonizada por Noah Wyle (que também colaborou como guionista em dois dos episódios) sabe fazer um back to basics eficaz nos seus 15 episódios, que representam uma temporada muito longa na era do "oito episódios e já vais com sorte"

Quem nunca se sentou no sofá, depois de um dia de reuniões que podiam ter sido e-mails e de tentativas goradas de meter os filhos a comer peixe cozido, e ficou esmagado pelas escolhas aparentemente inesgotáveis do streaming? Saltitando entre menus, exausto, carregando no comando a compasso, a querer apenas aterrar em algo para ver, descontrair e não pensar na entrega de IRS. Cresci com dois canais, lembro-me bem da aguardada passagem para quatro, regateei muito na adolescência para me deixarem finalmente ter TV cabo. Atualmente, tenho sete serviços de streaming diferentes, um claro exagero. E, às vezes, tudo o que queria era ligar a televisão e pronto, estacionar logo no que estivesse a dar, confiando, sem andar a garimpar por milhares de hipóteses.

The Pitt, cuja primeira temporada chega agora ao fim, é uma série com muitas das características narrativas e formais da televisão linear (modelo tradicional de transmissão televisiva, onde os canais exibem programas em horários fixos), mas feita por uma plataforma de streaming. Os 15 episódios estão disponíveis na Max, onde saíram com uma cadência semanal — e, tirando um ou outro detalhe, parece que estamos a ver algo do início deste século, ali talvez de 2005. E isto, acreditem, é um elogio. The Pitt não está parado no tempo; The Pitt é um carro clássico.

[o trailer de “The Pitt”:]

O drama relata em tempo real as 15 horas de um turno de urgências num hospital em Pittsburgh. O nome vem de uma alcunha, que a gerente do hospital detesta, que mistura o nome da cidade com o conceito da palavra “pit” (mesmo som, grafia parecida), que significa “poço”, num sentido demeritório. O protagonista é Michael “Robby” Robinavitch, um médico sénior que ainda está a lidar com as experiências traumáticas da pandemia de COVID-19. E a estrutura é bastante convencional: episódios de 60 minutos, cada uma a equivaler a uma hora de turno (quase ao estilo de 24); com tramas a acontecerem e a fecharem em todos os episódios, mesmo deixando ganchos para o episódio seguinte e tendo um plot agregador. Não tenta ser inovador, como The White Lotus ou Severance. Quer ser apenas televisão bem feita, sem tanto experimentalismo e sem tanta carga metafórica.

Se isto faz lembrar de algum modo a série Serviço de Urgência (também conhecida por ER ou por “a série que tornou George Clooney uma estrela”), não é por acaso. Serviço de Urgência esteve no ar de 1994 a 2009, e em 12 destes 15 anos teve como um dos atores charneira Noah Wyle, o mesmo que em The Pitt faz de Robby. Também o criador, R. Scott Gemmill, foi um dos guionistas de ER. De tal modo que, aquando do reencontro entre ambos, a ideia era fazerem uma nova temporada da mítica série hospitalar passada em Chicago, na qual Wyle iria repetir o seu papel de Dr. John Carter. Porém, não conseguiram obter os direitos junto do criador original da série, Michael Crichton, e, por isso, alteraram o conceito e o cenário para torná-la mais uma espécie de “sucessora espiritual”, segundo os próprios.

▲ Uma série não é um documentário e não tem essa dívida à veracidade, mas The Pitt sabe que, numa altura em que vemos televisão com um smartphone na mão, não se pode dar ao luxo de grandes exageros inverosímeis

Sempre existiram séries de médicos e, suspeito, sempre existirão, já que lidam com os grandes temas: a morte, a doença, a dúvida, a moralidade, o racional versus o emocional. Anatomia de Grey, por exemplo, já tem 20 temporadas e foi recentemente renovada para a 21.ª. Mas talvez a criação de Shonda Rhimes seja, apesar do seu avassalador sucesso, parte da razão pela qual se achava que o mundo já não tinha pachorra para mais uma série sobre batas e cateteres. As aventuras de Meredith Grey e comparsas tornaram-se numa espécie de telenovela, essencialmente em cima das relações amorosas pelos corredores e armários do hospital. Já não é peak TV (nome dado à época de excelência da televisão americana), é quanto muito um guilty pleasure. Isto faz com que The Pitt apareça num contexto que, em teoria, não lhe é favorável: há um descrédito do subgénero, uma saturação do conceito e uma competitividade louca para atenção do espectador. Então, como é que The Pitt funciona?

A série protagonizada por Noah Wyle (que também colaborou como guionista em dois dos episódios) sabe fazer um back to basics eficaz nos seus 15 episódios, que representam uma temporada muito longa na era do “oito episódios e já vais com sorte”. Em primeiro lugar, tem personagens empáticas, mesmo que sem um grau de complexidade muito exigente — apesar de médicos e enfermeiros serem os protagonistas, a série é sobre trabalhar em saúde e os vislumbres da vida pessoal servem para mostrar o impacto desta realidade profissional no seu quotidiano e modo de ser. Depois, uma noção de realização e de guião muito assente na tensão, dando ao espectador a sensação de que em todos os segundos se está a passar algo de relevante — o oposto do slow burning da última temporada de The White Lotus, por exemplo.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

E depois, é uma série que dá respostas ao espectador, uma raridade. Apesar de já ter sido renovada para uma segunda temporada (esperada para janeiro, não há cá três anos entre seasons, como é agora tão habitual), o último episódio desta temporada de arranque é conclusivo, não deixando nada em dúvida. Claro que há para onde crescer, até porque toda a história se passa num único dia. Mas The Pitt não entra na guerra de deixar os fãs a coçar a cabeça e a ir para a internet discutir teorias sobre afinal o que queria aquilo tudo dizer.

▲ "The Pitt" não tenta ser inovadora, como "The White Lotus" ou "Severance". Quer ser apenas televisão bem feita, sem tanto experimentalismo e sem tanta carga metafórica

Apesar de todas estas lógicas em contraciclo com as tendências atuais da indústria, The Pitt serve-se bem da liberdade extra dada pelo streaming em comparação com o linear — sobretudo no caso da Max, antiga HBO, conhecida por ser mais arriscada e adulta no seu modo de fazer séries (afinal, é a casa de Os Sopranos, que mudaram para sempre o paradigma). Ao contrário de ER, The Pitt tem palavrões e permite-se ser mais gráfica a mostrar sangue, tripas e outras miudezas.

Outro fator que pesa na qualidade do resultado final é o realismo. Uma série não é um documentário e não tem essa dívida à veracidade, mas The Pitt sabe que, numa altura em que vemos televisão com um smartphone na mão, não se pode dar ao luxo de grandes exageros inverosímeis. A Vulture (revista digital de cultura pop, parte do grupo New York Magazine) entrevistou um profissional de saúde que é fã da série: o Dr. Lukas Ramcharran, da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins. Alguém que, garantem, acaba por ser uma versão na vida real do Dr. Robby. À pergunta se a série é realista, Ramcharran diz “absolutamente”. “Muitos de nós na área, independentemente da especialidade, gostamos de brincar com o quão imprecisas são as coisas retratadas na televisão. E entendemos o porquê. O objetivo dessas cenas é servir da melhor forma a narrativa. Mas The Pitt é excelente.”

Assistir a The Pitt é, assim, uma experiência ansiosa. Os episódios marcados por um tiroteio num festival de música são os mais tensos. Porém, o 15.º e último episódio vai quase em contraciclo, a calma depois da tempestade, com a equipa a apanhar e a limpar os destroços emocionais do que acabou de passar. É só o fim de um turno, para no dia seguinte começar tudo outra vez. Para uma série tão aflitiva, é uma experiência de espectador estranhamente reconfortante. Olá, 2005, tinha saudades tuas e não sabia.

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