No início dos anos 80, Portugal conhecia o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH). Estávamos em 1983 e pouco (ou nada) se sabia sobre esta infeção. Hoje, o cenário mudou: já não é um nome estranho, conhecem-se as vias de transmissão, mas ainda se associa o vírus a certos estilos de vida.
Quarenta anos depois do primeiro caso de VIH no país, ainda existe estigma para com as pessoas que vivem com este vírus, mesmo entre os profissionais de saúde. Esta é uma das conclusões do relatório Stigma Index 2.0: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH. Por isso, é fundamental combater a desinformação, desconstruir mitos, aumentar a literacia. Estes são alguns dos objetivos da ViiV Healthcare, empresa 100% dedicada ao combate, cura e erradicação da infeção por VIH. A empresa procura soluções inovadoras para o tratamento das pessoas infetadas e aposta na formação contínua dos profissionais de saúde para que saibam lidar, da melhor forma, com as pessoas que vivem com VIH.
VIH e SIDA: o que os distingue?
Ainda existe alguma confusão relativamente ao que distingue VIH e SIDA. Na verdade, esta última é um quadro clínico resultante da infeção por VIH, podendo haver casos em que a pessoa está infetada com este vírus, mas não tem SIDA. Confuso? Vamos por partes:
- VIH: É o Vírus da Imunodeficiência Humana que pode ser transmitido através do sangue, de fluídos sexuais ou do leite materno, causando danos no sistema imunitário — o que torna a pessoa infetada mais vulnerável a doenças. Existem dois tipos de VIH: o do tipo 1 (VIH-1), o mais prevalente no mundo e o do tipo 2 (VIH-2).
- SIDA: Trata-se da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, sendo a fase mais avançada da infeção por VIH. Ocorre um conjunto de sinais e de sintomas que manifestam como doença ou condição definidora de SIDA e que aparecem devido à deficiência do sistema imunitário, que, no decorrer da doença, deixa de conseguir dar resposta.
41 889
Número aproximado de pessoas com infeção por VIH em Portugal.
VIH em Portugal
Estima-se que, em Portugal, vivam cerca de 41 889 pessoas com infeção por VIH. De acordo com o relatório anual Infeção por VIH em Portugal – 2024, foram diagnosticados, em 2023, 876 casos de VIH no país. A boa notícia é que o número de novas infeções tem vindo a baixar: de 2014 para 2023, registou-se uma redução de 36% no número de novos casos; o mesmo aconteceu com os diagnósticos de SIDA, com uma redução de 66% de novos casos. Também o número de mortes por SIDA tem vindo a diminuir, tanto em Portugal, como no resto do mundo. Esta proeza deve-se à elevada eficácia e maior tolerabilidade da atual medicação. Contudo, ainda existe desigualdade no acesso ao tratamento, assim como a serviços de prevenção. E apesar destes decréscimos, ainda é necessário trabalhar para acabar com a transmissão do VIH.
Quarenta anos depois de surgir em Portugal o primeiro diagnóstico de VIH, ainda há quem continue a achar que esta é uma patologia específica de certos estilos de vida, associando-a a homens que têm sexo com homens ou a utilizadores de drogas injetadas (UDI). Porém, o que o relatório Infeção por VIH em Portugal – 2024 indica que a transmissão heterossexual é a mais frequente (54% dos casos), ainda que os casos em homens que têm sexo com homens correspondam à maioria dos novos diagnósticos em homens (61,6%). Os casos em UDI corresponderam apenas a 2,8% do total. Este diagnóstico é frequentemente associado à população mais jovem. Contudo, a mediana das idades ao diagnóstico foi de 36 anos, com 22% dos novos casos a ocorrerem em indivíduos com idade superior ou igual a 50 anos. É também importante salientar que Portugal foi referido como o país de provável infeção em 70,9% do total de casos com informação disponível,
Em Portugal, o diagnóstico tardio de infeção por VIH ainda continua a ser um problema, sobretudo quando falamos de indivíduos mais velhos e homens heterossexuais. O diagnóstico tardio de infeção por VIH ocorre frequentemente devido tanto ao auto-estigma quanto estigma externo, especialmente por profissionais de saúde. Para podermos mudar o curso desta epidemia e ajudar aqueles que sofrem com este flagelo, é necessário informar e mudar comportamentos e ideias pré-concebidas.
38%
dos inquiridos para o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH revelaram experienciar alguma forma de discriminação social por serem portadores de VIH.
Viver com o estigma
O estigma ainda persegue quem vive com VIH. Para o medir, foi elaborado o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH. Trata-se de um projeto internacional que foi pela primeira vez aplicado em Portugal em 2013, e que recentemente foi replicado (2021/2022) pelo CAD – Centro Antidiscriminação VIH (projeto conjunto da Ser+ e do GAT), com financiamento da Direção-Geral da Saúde e parceria da Escola Nacional de Saúde Pública, da Universidade Nova de Lisboa. Tendo como amostra 1095 pessoas que vivem com VIH, este índice permitiu medir o estigma e a discriminação experienciados por esta população em Portugal, em diversos contextos da sua vida. E ainda que tenha havido uma diminuição comparativamente aos dados de 2013, estas pessoas ainda continuam a ser estigmatizadas e a ver alguns dos seus direitos violados: 38% dos inquiridos revelou experienciar alguma forma de discriminação social, com maior prevalência entre mulheres e pessoas vulneráveis. Esta discriminação também se observou por parte de profissionais de saúde, com 22% dos inquiridos a revelarem terem sentido discriminação por parte deste grupo profissional. Porém, é nos serviços de saúde não relacionados com o VIH em que mais se sente esta discriminação por parte de profissionais da saúde. Tal pode ser justificado pela falta de formação específica e de menos conhecimentos em relação a esta infeção.
22%
dos inquiridos para o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH revelaram ter sentido discriminação por parte de profissionais de saúde por serem portadores de VIH.
Mas esta discriminação também passa pelo próprio indivíduo. É o chamado estigma internalizado (ou auto-estigma) que é uma realidade para estas pessoas: 90,5% dos inquiridos para o Índice identificaram, pelo menos, uma manifestação de estigma internalizado, e 30% admitiu comportamentos autodiscriminatórios. É também por sentirem o estigma e terem receio de represálias que alguns portadores de VIH ocultam este diagnóstico da sua rede de amigos e família.
90,5%
dos inquiridos para o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH identificaram, pelo menos, uma manifestação de estigma internalizado, e 30% admitiu comportamentos autodiscriminatórios.
11,8%
dos inquiridos para o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH revelaram que ninguém da sua rede social tinha conhecimento do seu estatuto serológico para VIH.
Violação dos direitos da pessoa com VIH
De acordo com o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH, 54% dos inquiridos realizaram o teste de VIH de forma voluntária, mas 30% foram testados sem o seu conhecimento. A falta de consentimento na realização dos testes ou na partilha de informação sobre a seropositividade é uma realidade preocupante. Embora 88,2% dos inquiridos tenham indicado que revelaram o seu estado serológico a alguém — principalmente ao/a parceiro/a (67,7% dos que têm parceiro/a), outros membros da família (62,0%), amigos (53,2%) e filhos (42,4% dos que têm filhos)” —, 11,8% afirmou que ninguém da sua rede social sabia do seu estado serológico para VIH. No entanto,mesmo entre aqueles que não pretendiam partilhar esta informação, 16,2% viram a sua condição a ser revelada sem o seu consentimento a familiares, amigos ou até mesmo a filhos. Em alguns casos, esta partilha não consentida foi feita por profissionais de saúde. Um dos inquiridos relatou: “No hospital, um funcionário disse que tenho VIH a um amigo meu, sem o meu consentimento.” Cerca de 15% dos inquiridos revelou ter sofrido este tipo de violação, o que representa uma grave violação dos direitos destes doentes.
16,2%
dos inquiridos para o Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH viram a informação sobre o seu estatuto serológico ser partilhada sem o seu consentimento.
Combater o estigma
Os resultados do Stigma Index: Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH indicam uma evolução favorável no que diz respeito ao estigma e discriminação sofridos pelas pessoas com VIH em vários contextos da sua vida. No entanto, esta questão ainda persiste em Portugal e deve ser abordada, especialmente nos serviços de saúde, por forma a que a tendência se mantenha decrescente nos próximos anos.
Para qualquer dúvida ou questão deve consultar o seu médico/profissional de saúde.
NP-PT-HVU-JRNA-250001 | 04/2025