Pouco ou nada sabemos sobre as mulheres que escreveram na Suméria, nas margens do Nilo, entre as tribos aramaicas, semitas ou paleocristãs, as que registaram vendas de gado, comércios vários marcados nas milenares argilas por linhas cuneiformes, hieroglíficas, alfabéticas. Mas isto sabemos: as heroínas de Homero escreviam nas telas que teciam; Helena bordava os acontecimentos da guerra de Troia; Penélope tecia e destecia um manto para enganar os pretendentes e a passagem do tempo; Filomela, mesmo muda, denunciou o seu violador bordando num pano a história do crime. Se pensarmos que a palavra “texto” deriva da palavra “tecido”, vemos como esse gesto de contar, de narrar, está ligado ao gesto de tecer, logo está ligado à mulher.
A sua exclusão das letras impressas não é sinónimo da sua inexistência na História, nem nas histórias. O que é extraordinário, de facto, é que tantos milénios depois a literatura feminina continue a ser algo que inquieta, desagrada a lógica falocêntrica, instabiliza um pretenso universalismo e biologismo sobre o qual se edifica uma cultura onde a mulher é “o outro”, onde o mundo se pensa dividido de forma simplista entre masculino e feminino, onde a arte — e mais especificamente a literatura — é vista como “um campeonato” entre géneros de onde só podem sair vencedores e vencidos, os grandes e os pequenos. Ora, neste momento, o grande problema da literatura não é, certamente, a forma como as mulheres se apresentam, em classificações, clubes, livrarias. O problema é que qualquer gesto de uma mulher que não seja obedecer à lógica do poder masculino seja utilizado como argumento para diminuir valor artístico, cultural e político das suas narrativas.
Em causa está o texto “O que é a literatura feminina”, publicado neste jornal pela critica Ana Bárbara Pedrosa (ABP), onde se argumenta que, ao insistir-se em nomear a escrita de mulheres, como se ela não estivesse integrada nessa coisa mais vasta que é a Literatura em geral, conduzimo-nos inevitavelmente a uma guetização, quando não mesmo promove uma “desqualificação das mulheres”, condenando-as a um diálogo incestuoso ou de “de coincidência cromossómica”, criando assim uma subcultura “homogeneizada”. Das várias problemáticas que este artigo contém gostaríamos de destacar a ideia universalista e essencialista no qual baseia os seus argumentos. ABP considera que a literatura é uma manto liso e diáfano, sem rasgões, fendas, rugas e que bastaria às mulheres praticarem uma dita “escrita individual, que dá trabalho e exige engenho e arte” para que o rio corresse tranquilamente para o mar. Uma posição que, de resto, emerge das teorias do feminismo liberal, no qual se acredita que, se a mulher tiver direitos iguais, ela vai, necessariamente, estar em pé de igualdade com os homens. Uma teoria idêntica à da meritocracia nas escolas, onde se crê que todos partem da meta em igualdade de circunstancias, rasurando todas as complexidades dessas mesmas circunstâncias.
Ora, este argumento essencialista de ABP peca por ignorar que essa suposta “universalidade” é um construto social, cultural, filosófico, feito à medida do masculino, onde só as suas histórias são consideradas dignas de ser contadas, onde impera uma determinada visão do mundo, uma forma linear de escrever, um tipo de experiência humana que, por mais virtuoso que seja o escritor, será sempre a experiência de quem tem mais poder, mais recursos económicos, que não tem um endomérito, um corpo silenciado, excluído, quando não mesmo racializado, escravizado. De facto, as mulheres não escrevem com os seus órgãos reprodutivos, mas tê-los impôs — e impõe — às mulheres papéis familiares, sociais, políticos, financeiros, sexuais que milenarmente lhes cancelaram a possibilidade de serem alfabetizadas, de terem tempos para nutrir as suas histórias, os seus poemas — de terem até, como bem lembrou Virginia Woolf, “um quarto só seu”, já para não falar dos condicionamentos da maternidade, dos casamentos, da assunção de um papel secundário no palco familiar e social.
Aqui seria importante chamar a atenção para os diários de Sónia Behrs, mulher de Lev Tolstoi, nos quais ela retrata de forma vivida a sua impossibilidade de escrever encurralada entre onze gravidezes, oito filhos, a gestão da propriedade e a passagem a limpo dos livros do marido.
Apoiada no falso dilema de que, “se não aceitam a visão universalista da cultura e se agrupam”, as mulheres “estão a auto-marginalizar-se”, ABP faz um pouco como aqueles homens que argumentam “ou ficas comigo ou não será de mais ninguém” e depois matam para garantir que o poder permanece onde sempre esteve. Sabemos que uma classificação é sempre uma arbitrariedade, uma marca do poder e, que ao se criarem denominações como “literatura feminina”, “literatura de mulheres”, ao criarem clubes como o Clube das Mulheres Escritoras e ao haver livrarias como a Greta, em Lisboa, que só vendem livros de mulheres, se está a afirmar uma identidade com o que isso pode ter de problemático. Porém, o que está a ser apagado é o seguinte: a ausência de uma classificação, a retirada de um nome — “Literatura Feminina” — e a diluição na generalista “Literatura”, não dissolve o facto de que as mulheres continuam a não ter o mesmo acesso ao campo literário que os homens, não apaga o facto de que as vozes das mulheres, especialmente vindas de classes sociais com menos acesso ao poder, mulheres racializadas, homossexuais, têm sido ignoradas. Não apaga o facto de que o campo artístico e literário está feito à medida do homem e isso explica a eliminação milenar das mulheres da produção literária.
O Clube de Mulheres Escritoras (CME), fundado em 2023, por várias autoras portuguesas, explicou ao Observador, que o nome que adotaram, nomeadamente o termo “clube”, é, justamente, “uma ironia” que visa um meio literário dominado por homens, não só no cânone, como nos currículos e nos manuais escolares. Bastaria folhear mesmo os manuais infantis destinados à educação primária para ver que a maioria dos textos pertencem a homens. Mas o CME acrescenta que “apoia e celebra” todas as mulheres que escrevem, “mesmo as que não fazem parte do Clube”. Rejeitam a designação de Literatura Feminina “porque, para nós, a Literatura não tem género”. “Rejeitamos também outros rótulos que insistem em colar-nos e a pretensão de decidir o que a literatura pode ou não pode ser. Este movimento cresceu depressa, tal como a urgência em sair do nosso próprio umbigo e falar publicamente sobre estas questões.”
Através de uma newsletter bimensal com entrevistas, sugestões de leitura, agenda de eventos literários e textos inéditos, dispõem ainda de um site que “é também um diretório de autoras portuguesas e que em breve vai elencar todas as que nos permitiram chegar até aqui; uma revista literária anual de aniversário; inúmeros eventos com os leitores em feiras e festivais literários, incluindo uma conferência em parceria com a Fundação José Saramago”, explicam.
Como nota a filósofa afro-americana Kimberlé Crenshaw, “o universalismo é tão só uma crítica que quer desconhecer e manter desconhecidas as estruturas históricas de exclusão e pobreza e subestima o poder criativo e experiencial que advém das circunstâncias dessas vidas. Subestima ainda o poder analítico da identidade como denúncia e resistência”. Apaga a força destas histórias que só as mulheres podem contar, porque são indissociáveis do seu corpo, seja o endomérito, o sangue menstrual, a gravidez, o parto, a amamentação, a experiência sexual, o cuidar os vivos e dos mortos, dos doentes, o dever de calar e sorrir imposto às raparigas, a proibição de gritar, de expressar raiva e fúria, o dissenso, o mal, porque são o estado anterior à histeria, à loucura. Ao passo que para os homens e os heróis que eles inventaram, a raiva, a fúria não apenas são comportamentos celebrados, como representam o instante anterior à luta justa. Ora neste momento da história, onde tantos direitos estão a ser refreados, ao mesmo tempo que tantas lutas das mulheres estão finalmente a ser travadas, a existência de uma Literatura Feminina é a garantia de que as suas vozes não serão apagadas e que chegarão ao espaço público cultural — ou seja, às editoras, aos leitores, aos media e, enfim, que possam chegar à História.
A escritora e cineasta francesa Virginie Despentes lembra-nos que “escrever como mulher é um gesto político, um rótulo necessário para dar a conhecer experiências e vozes historicamente apagadas”, sendo aqui a identidade mais que uma limitação uma força de subversão. Também a ensaísta italiana Silvia Federici defende a necessidade de criar estas categorias, como “literatura feminina”, pois “apagar esta marca seria usar a suposta neutralidade para reforçar o universal masculino”. Mesmo Michael Foucault, que nos ensinou a desconfiar das classificações, defendia que “não nomear é igualmente uma marca de arbitrariedade e vontade de poder”, pela forma como procura controlar a circulação dos discursos dentro dos diferentes campos sociais. É, portanto, uma ingenuidade supor que pode haver uma literatura que escape aos efeitos da linguagem (a primeira e mais importante forma de disseminação e manifestação do poder).
Escrever é transformar o grito em traço, o corpo em letra. E a letra, se puder, em desobediência”. [Maria Velho da Costa, Casas Pardas]
Negar a existência de uma arte, seja ela romanesca, ensaística, poética, testemunhal, que se debate para emergir num mar de categorias de pensamento fixas e secularmente cristalizadas, é ainda, pretender rasurar a lógica das instituições, os mecanismos de exclusão de uns e legitimação de outros.
Fomos ouvir Lorena Travassos, fundadora da livraria Greta, nos Anjos, em Lisboa, um espaço que tem um objetivo muito claro: vender apenas literatura de mulheres e pessoas não binárias, sobre esta ideia de que a classificação, a compartimentação da literatura produzida por mulheres leva à guetização das autoras: “A expressão ‘literatura feminina’ não é utilizada na Greta. Trata-se de um termo carregado de conotações problemáticas, historicamente usado pelo patriarcado para circunscrever a produção literária de mulheres ao universo do íntimo, do doméstico e do sentimental — em oposição à suposta universalidade atribuída à literatura masculina. Usar essa designação é, muitas vezes, perpetuar estigmas e reforçar uma hierarquia que desvaloriza a escrita feita por mulheres. Agrupar autoras mulheres numa mesma estante não é, por si só, mais redutor do que organizá-las por géneros literários, estilos, períodos históricos ou nacionalidades. A diferença é que, ao adotar a identidade feminina como critério, estamos a evidenciar algo que o cânone literário, durante séculos, tentou apagar: a existência concreta de corpos, vivências e experiências que escrevem. A verdade é que a categorização só parece ‘limitadora’ quando deixa de promover algum benefício próprio. A presença de estantes com autoras mulheres é um pequeno gesto de reparação, de memória e de curadoria ativa que não ameaça a leitura crítica — ameaça apenas o status quo”.
Nem adorno, nem panfleto mas combustível, rutura, desafio
“As palavras foram tiradas de nós. Recolhê-las é recolher a nós mesmas.”
[Crista Wolf, Cassandra]
bell hooks (grafada assim por decisão da autora) defendia o termo “literaturas de mulheres” e Foucault considerava que a identidade só podia constituir-se como um valor se fosse suficientemente subversiva que produzisse “novas formas de saber”. Na senda deste filósofo poderíamos chamar à liça Pierre Bourdieu, Geoffrey de Lasganerie, Judith Butler, Julia Kristeva, que alertaram para os perigos da “neutralidade” como mais uma forma de alimentar regimes de privilégio, neste caso, o privilégio de nascer homem, branco, heterossexual e ocidental e de classe média. “A identidade não é um adorno secundário”, diz-nos de Lasganerie, “mas constitui parte da potência crítica e criativa de um discurso, de uma obra”. Ora é precisamente a potência criativa desses endoméritos, dessas cristas ilíacas entre cinturas finas e ancas redondas que ABP escamoteia.
“Há uma escrita que é do corpo — o que fala sem se deixar traduzir por completo. Talvez seja a mulher quem mais a ouve.”
[ J. Derrida, A Orelha de Heidegger]
Bastaria pensarmos em figuras como Emily Dickinson ou Virginia Woolf para percebermos que o grande combustível da literatura a partir do século XIX, mas sobretudo XX, foi a literatura feita por mulheres, não só no conteúdo mas também na forma, na forma como hibridizaram os géneros, como trouxeram novas formas de manifestação literária, estilística, poética, gramatical da sua sensibilidade, vivência, erotismo, sexualidade, psique. Marguerite Duras, com a sua escrita fragmentária, cheia de silêncios, contida, dobrada, o fluxo da consciência de Woolf, a captura de instantes anteriores ao pensamento de Lispector, as vozes mitológicas de Christa Wolf, a gramática do medo de Monica Wittig, a linguagem do trauma de Herta Müller, a fusão do mito e da história da poeta Anne Carson, a identidade feminina como forma de desaparecimento de Cristina Rivera Garza.
Já para não falar de Agustina Bessa-Luís ou Maria Velho da Costa (a mais verdadeiramente inovadora das 3 Marias), com as suas personagens maiores do que a vida, ou mesmo Adília Lopes, no seu diálogo com os grandes escritores, como Balzac, Flaubert ou Diderot, forjando a voz de uma menina para melhor os desafiar e provocar. As histórias da pobreza de Carolina Jesus, de bell hooks, ou Maya Angelou onde a palavra dita, excrita e escrita é, simultaneamente, símbolo de pressão destrutiva e resiliência,
“As palavras vieram como água salgada. Primeiro um sussurro, depois uma avalanche. E eu, sem saber ao certo de quem era a voz.
Havia um duplo em mim — ou um eco. E esse eco repetia coisas que eu nunca tinha dito, mas que pareciam profundamente minhas.
— Já não sabes quem és — disse a Mulher que Falava com Voz Emprestada. — Porque já não tens um nome teu.
A linguagem tinha-me abandonado. Ou pior: tinha-me ultrapassado. Eu era apenas o corpo onde palavras alheias vinham pousar.
E foi aí que percebi: a verdadeira perda não era de identidade. Era de pronome.
Deixei de ser ‘eu’.”
[Cristina Rivera Garza, A Crista Ilíaca]
É um facto de que a literatura feita por mulheres tem sido um laboratório, um campo de transgressões e, que naturalmente, se constitui, e deve constituir-se como símbolo e mesmo como panfleto. O panfleto não é sinónimo de propaganda populista, mas também ele foi repositório de arte, transgressão, luta, como o demonstraram os Dadaistas, os Surrealistas, os Modernistas. ABP afirma que a categorização de escrita feminina provoca um acantonamento e “faz de quem escreve um símbolo”, logo “um panfleto”, o que é estranho, se pensamos que as letras são símbolos, que o ser humano “é um animal simbólico” (Ernst Cassirer) e, nesse sentido, o ato de escrever — ou seja manipular símbolos, criar metáforas, transformar experiências corpóreas em palavras progressivamente mais sofisticadas — é um ato fundacional da humanidade. Não há cultura sem símbolos, lembrar-nos-ia Levi Strauss, não há inconsciente sem símbolos, lembrar-nos-ia Freud. Argumentar que a escrita feminina é um símbolo, pretendendo assim fazer associá-la ao panfleto, não faz qualquer sentido. Pois, mesmo Lacan, para quem os símbolos eram estruturas cristalizadas, sabia que o nosso consciente podia trabalhá-los e transformá-los, nomeadamente, através da psicanálise.
É certo que, como nos alertou Theodore Adorno, a arte corre sempre o risco de ser manipulada pelas ideologias, porém, também ele defendia que a arte é sempre política, carrega contradições, conflitos socais e individuais que são o combustível para a criação de algo totalmente novo. Defender que a existência de uma literatura feminina é uma forma de “nivelar por baixo” ou insinuar que ela esconde “falta de talento” e leva a “um apagamento da multiplicidade das vozes” é um “falso dilema”, estratégia argumentativa muito utilizada, precisamente, no discurso publicitário, para artificializar a complexidade das questões, fazendo de todos nós meros consumidores presos entre a escolha do produto A ou do produto B.
Assim, ABP anula, na sua análise todas as mulheres escritoras e os grandiosos caminhos que elas nos abriram à experiência desde logo porque duvidaram daquilo que lhes foi imposto como verdade. Longe de estarem presas entre os caminhos A e B, as mulheres com as suas histórias, com as suas formas e estratégias de se manifestarem e de se imporem no espaço público cultural e político, mostraram que há muitos caminhos para abrir, que eles se cruzam, interseccionam, divergem, e que se para isso é preciso uma classificação ou mesmo uma taxonomia então que ela se faça. Porque também Cuvier, Lineu, Darwin, Wallace as fizeram e, ainda que ultrapassadas, elas constituíram-se como um passo fundamental para a evolução da Ciência.
Voltemos às palavras de Lorena Travassos: “Mais do que uma questão estética ou identitária, trata-se de um gesto ético e político de resistência e reconstrução de imaginários. Defender esse espaço de visibilidade não é cavar trincheiras — é construir pontes. O que cava trincheiras é a permanência de um cânone estreito, que se escuda na suposta universalidade do olhar dominante e ignora as desigualdades estruturais que moldam a nossa sociedade. Uma educação verdadeiramente humanista só pode emergir do reconhecimento dessa diversidade: das diferentes vozes, histórias e formas de estar no mundo. Portanto, ao invés de dividir, a afirmação da literatura produzida por mulheres amplia o horizonte do que consideramos conhecimento, sensibilidade e experiência humana. Torna-nos mais capazes de escutar, compreender e, talvez, transformar. E isso, hoje, é mais urgente do que nunca”.