1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-613468610
i

Corbis via Getty Images

Corbis via Getty Images

Qual literatura feminina?

Com a excepção de questões linguísticas, técnicas ou estéticas, qualquer epíteto que venha a seguir a "literatura" só a menoriza. Ana Bárbara Pedrosa escreve como e porquê neste caso particular.

Basta que me digam “literatura feminina” para ficar com os cabelos em pé. Não apenas a feminilidade não é uma característica literária como, pelo seu propósito de unir o texto à autora, categorizando metade da humanidade num nicho, desrespeita, em simultâneo, a universalidade e a individualidade de quem escreve. Nesse sentido, assumir uma categorização autoral – e não textual – acaba por criar, ainda que simbolicamente, um desnível: a literatura escrita por homens passa a ser vista como a literatura per se, e as mulheres ficam destinadas ao campeonato das pequeninas, onde competem umas com as outras, num diálogo feito por coincidência cromossómica e mais nada.

Com o avançar da consciência social e política sobre os papéis sociais – no caso, os de género: a ideia de que, a um sexo, está associada uma expectativa comportamental, e que é essa expectativa que, juntamente com o seu cumprimento, promove desequilíbrios na esfera pública e na privada –, temos assistido a alguns movimentos que parecem sublinhar a diferença ao invés de a combater. No caso da literatura, em que o que importa é o texto grafado com as mãos, não se compreende como é que a entidade autoral ganha espaço. Claro que quem diz “literatura feminina” pode dizer “literatura gay”: são formulações que vão beber ao mesmo e que, ao invés de desestigmatizarem, sublinham o estigma e, sobretudo, nada acrescentam à análise literária.

Além disso, muitas vezes só servem para menorizar os autores, pondo-os a competir num nicho, impedindo-lhes o acesso aos palcos universais. Um bom exemplo disto, este no campo gay, é o romance Deixa-te de mentiras, de Philippe Besson, eleito o Melhor Romance Gay pela revista The Advocate. É um insulto. Um romance que é um portento de uma ponta à outra – depurado, elegante, impactante como uma série de chapadas – leva com um epíteto que o condena à facção, ao tema, competindo, no prémio, com outros romances que incluem personagens do mesmo sexo apaixonadas umas pelas outras. Da mesma forma, a tentativa de universalização de metade da população numa condição biológica, propondo que a literatura que vem das mãos de mulheres tem particularidades específicas, ainda que se argumente pela sua diversidade, empurra-a para um acantonamento.

▲ Ao invés de se repensar o espaço de privilégio que é dado aos homens – que é bem real, mas só porque a literatura faz parte da vida –, cria-se uma identidade à parte, que, mais do que classificar, mar

Getty Images

Em Portugal, veio a público, há uns dois anos, o “Clube das Mulheres Escritoras”. No site, pode ler-se: “Somos um grupo de autoras portuguesas de ficção literária com os mais diversos backgrounds, ocupações, idades, estilos de vida e experiências pessoais. Temos em comum a paixão pela escrita e a convicção de que, juntas, podemos levar mais longe a literatura escrita por mulheres.” Não se percebe bem como e, já agora, também não se percebe bem para quê – a argumentação faz da ideia da autoria (feminina, ora pois) um… clube. Ora, um clube, a priori, é uma conglomeração de gente com os mesmos interesses ou os mesmos fins ou o mesmo alinhamento, uma marca a representar e a ser defendida, e isto é tudo o que a literatura não pode ser.

Ao invés de se repensar o espaço de privilégio que é dado aos homens – que é bem real, mas só porque a literatura faz parte da vida –, cria-se uma identidade à parte, que, mais do que classificar, marginaliza, e vende-se a identidade autoral como uma marca, não se atentando ao produto cultural. Além disso, o próprio epíteto já cria uma divisão que não serve à literatura: primeiro, são mulheres; depois, são escritoras. Ou seja, no campo da produção literária, os membros são pares, em primeiro grau, de mulheres, e talvez só em segundo, se tanto, de escritores. E mesmo que a descrição do Clube o apresente como heterogéneo, a verdade é que o rótulo já basta para homogeneizar quem lá está – e, sobretudo, para que se associe uma escrita individual – essa que dá trabalho e exige engenho e arte – a uma identidade colectiva, o que faz com que um romance não conte como um romance, não seja equiparado a outros romances, não exista no mesmo plano. Romance ou poesia ou o que seja.

Mesmo criando este epíteto, ninguém envereda pelo epíteto paralelo, ou seja, ninguém chama “literatura masculina” à produção literária feita por homens nem chama “voz masculina” a um homem que escreve. Mas, às mulheres, continua a associar-se a etiqueta de terem de ser quem são.

Ao mesmo tempo, sublinhar sistematicamente a ideia de “literatura feminina” ou de “literatura de mulheres” ou de “literatura escrita por mulheres” nivela por baixo: é inevitável que importe mais, na própria formulação, a identidade do que a forma e o conteúdo, o que implica o apagamento da complexidade e da multiplicidade de vozes.

O mesmo acontece em várias livrarias, que dedicam estantes à produção literária de mulheres. Isto, por si só, traz vários problemas: esta literatura passa a ser consumida como um nicho, e não como parte integrante da produção literária; o leitor passa a ter uma expectativa rasa em relação às obras; mesclam-se todos os géneros só por virem da mesma ideia de autoria; a leitura crítica passa a ser uma fantasia vista ao longe – afinal, importa a identidade. Sobretudo, a própria expressão, ao ser usada no sentido mercantil ou no sentido da mera adjectivação, cria uma dicotomia limitadora que impõe um selo a quem faz a sua – só sua – arte. Enveredar por esse caminho implica um campo reduzido de comparação e balizamento, ao mesmo tempo que permite que sejam comparados livros incomparáveis em detrimento da comparação de livros comparáveis, só porque a autoria tem semelhanças – sendo estas, ainda por cima, totalmente irrelevantes para a produção artística.

Getty Images

Além disso, há que notar que, mesmo criando este epíteto, ninguém envereda pelo epíteto paralelo, ou seja, ninguém chama “literatura masculina” à produção literária feita por homens nem chama “voz masculina” a um homem que escreve. Mas, às mulheres, continua a associar-se a etiqueta de terem de ser quem são – e não de serem apresentadas pelo que fazem, iniciando-se um debate que já não pode ser sobre literatura, e traduzindo-se as escritoras em mulheres que por acaso escrevem, agora espartilhadas na sua própria condição.

A literatura faz-se com as mãos, não com o endométrio. Neste como noutros exemplos, qualquer epíteto que venha a seguir a “literatura”, excepção feita aos casos em que são nomeadas questões linguísticas, técnicas ou estéticas – como lusófona ou realista –, só servirá para a menorizar, para lhe dar o desonroso lugar de nicho. Ora, aceitá-lo reduz a importância da singularidade de cada par de mãos, e sobretudo tenta transformar a arte literária, essa coisa ampla que não tem fim à vista, num armário de gavetas, cada uma destinada a uma bugiganga qualquer. Ao mesmo tempo, faz de quem escreve um símbolo – e um símbolo é sempre um panfleto, e um panfleto nunca é arte.

A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.