Basta que me digam “literatura feminina” para ficar com os cabelos em pé. Não apenas a feminilidade não é uma característica literária como, pelo seu propósito de unir o texto à autora, categorizando metade da humanidade num nicho, desrespeita, em simultâneo, a universalidade e a individualidade de quem escreve. Nesse sentido, assumir uma categorização autoral – e não textual – acaba por criar, ainda que simbolicamente, um desnível: a literatura escrita por homens passa a ser vista como a literatura per se, e as mulheres ficam destinadas ao campeonato das pequeninas, onde competem umas com as outras, num diálogo feito por coincidência cromossómica e mais nada.
Com o avançar da consciência social e política sobre os papéis sociais – no caso, os de género: a ideia de que, a um sexo, está associada uma expectativa comportamental, e que é essa expectativa que, juntamente com o seu cumprimento, promove desequilíbrios na esfera pública e na privada –, temos assistido a alguns movimentos que parecem sublinhar a diferença ao invés de a combater. No caso da literatura, em que o que importa é o texto grafado com as mãos, não se compreende como é que a entidade autoral ganha espaço. Claro que quem diz “literatura feminina” pode dizer “literatura gay”: são formulações que vão beber ao mesmo e que, ao invés de desestigmatizarem, sublinham o estigma e, sobretudo, nada acrescentam à análise literária.
Além disso, muitas vezes só servem para menorizar os autores, pondo-os a competir num nicho, impedindo-lhes o acesso aos palcos universais. Um bom exemplo disto, este no campo gay, é o romance Deixa-te de mentiras, de Philippe Besson, eleito o Melhor Romance Gay pela revista The Advocate. É um insulto. Um romance que é um portento de uma ponta à outra – depurado, elegante, impactante como uma série de chapadas – leva com um epíteto que o condena à facção, ao tema, competindo, no prémio, com outros romances que incluem personagens do mesmo sexo apaixonadas umas pelas outras. Da mesma forma, a tentativa de universalização de metade da população numa condição biológica, propondo que a literatura que vem das mãos de mulheres tem particularidades específicas, ainda que se argumente pela sua diversidade, empurra-a para um acantonamento.
▲ Ao invés de se repensar o espaço de privilégio que é dado aos homens – que é bem real, mas só porque a literatura faz parte da vida –, cria-se uma identidade à parte, que, mais do que classificar, mar
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Em Portugal, veio a público, há uns dois anos, o “Clube das Mulheres Escritoras”. No site, pode ler-se: “Somos um grupo de autoras portuguesas de ficção literária com os mais diversos backgrounds, ocupações, idades, estilos de vida e experiências pessoais. Temos em comum a paixão pela escrita e a convicção de que, juntas, podemos levar mais longe a literatura escrita por mulheres.” Não se percebe bem como e, já agora, também não se percebe bem para quê – a argumentação faz da ideia da autoria (feminina, ora pois) um… clube. Ora, um clube, a priori, é uma conglomeração de gente com os mesmos interesses ou os mesmos fins ou o mesmo alinhamento, uma marca a representar e a ser defendida, e isto é tudo o que a literatura não pode ser.
Ao invés de se repensar o espaço de privilégio que é dado aos homens – que é bem real, mas só porque a literatura faz parte da vida –, cria-se uma identidade à parte, que, mais do que classificar, marginaliza, e vende-se a identidade autoral como uma marca, não se atentando ao produto cultural. Além disso, o próprio epíteto já cria uma divisão que não serve à literatura: primeiro, são mulheres; depois, são escritoras. Ou seja, no campo da produção literária, os membros são pares, em primeiro grau, de mulheres, e talvez só em segundo, se tanto, de escritores. E mesmo que a descrição do Clube o apresente como heterogéneo, a verdade é que o rótulo já basta para homogeneizar quem lá está – e, sobretudo, para que se associe uma escrita individual – essa que dá trabalho e exige engenho e arte – a uma identidade colectiva, o que faz com que um romance não conte como um romance, não seja equiparado a outros romances, não exista no mesmo plano. Romance ou poesia ou o que seja.
Ao mesmo tempo, sublinhar sistematicamente a ideia de “literatura feminina” ou de “literatura de mulheres” ou de “literatura escrita por mulheres” nivela por baixo: é inevitável que importe mais, na própria formulação, a identidade do que a forma e o conteúdo, o que implica o apagamento da complexidade e da multiplicidade de vozes.
O mesmo acontece em várias livrarias, que dedicam estantes à produção literária de mulheres. Isto, por si só, traz vários problemas: esta literatura passa a ser consumida como um nicho, e não como parte integrante da produção literária; o leitor passa a ter uma expectativa rasa em relação às obras; mesclam-se todos os géneros só por virem da mesma ideia de autoria; a leitura crítica passa a ser uma fantasia vista ao longe – afinal, importa a identidade. Sobretudo, a própria expressão, ao ser usada no sentido mercantil ou no sentido da mera adjectivação, cria uma dicotomia limitadora que impõe um selo a quem faz a sua – só sua – arte. Enveredar por esse caminho implica um campo reduzido de comparação e balizamento, ao mesmo tempo que permite que sejam comparados livros incomparáveis em detrimento da comparação de livros comparáveis, só porque a autoria tem semelhanças – sendo estas, ainda por cima, totalmente irrelevantes para a produção artística.
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Além disso, há que notar que, mesmo criando este epíteto, ninguém envereda pelo epíteto paralelo, ou seja, ninguém chama “literatura masculina” à produção literária feita por homens nem chama “voz masculina” a um homem que escreve. Mas, às mulheres, continua a associar-se a etiqueta de terem de ser quem são – e não de serem apresentadas pelo que fazem, iniciando-se um debate que já não pode ser sobre literatura, e traduzindo-se as escritoras em mulheres que por acaso escrevem, agora espartilhadas na sua própria condição.
A literatura faz-se com as mãos, não com o endométrio. Neste como noutros exemplos, qualquer epíteto que venha a seguir a “literatura”, excepção feita aos casos em que são nomeadas questões linguísticas, técnicas ou estéticas – como lusófona ou realista –, só servirá para a menorizar, para lhe dar o desonroso lugar de nicho. Ora, aceitá-lo reduz a importância da singularidade de cada par de mãos, e sobretudo tenta transformar a arte literária, essa coisa ampla que não tem fim à vista, num armário de gavetas, cada uma destinada a uma bugiganga qualquer. Ao mesmo tempo, faz de quem escreve um símbolo – e um símbolo é sempre um panfleto, e um panfleto nunca é arte.
A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.