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"Quando fiz 20 anos disse 'já chega de aniversários'". Mas chegado aos 80, o duque de Bragança abriu uma exceção para festejar

Este artigo tem mais de 1 ano

Não gosta de fazer anos nem que lhe cantem os parabéns, mas esta esta sexta-feira, 16 de maio, rodeou-se de família e de 300 amigos de todo o mundo. Veja as imagens no Museu dos Coches, em Belém.

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É fim de tarde de um dia quente de maio, mas num horário em que já se sente a brisa levemente fresca a soprar. No vai e vem da sexta-feira, numa zona de muito movimento em Belém, começam a chegar os convidados — família, amigos, membros da sociedade portuguesa, mas sobretudo muitos membros de casas não reinantes de toda a Europa e não só. Os duques de Castro com as duas filhas, as princesas Maria Carolina e Maria Chiara Bourbon e Duas Sicílias, o príncipe Gundakar do Liechtenstein, ou o príncipe Louis, filho do Grão-duque do Luxemburgo, são alguns dos nomes que aos poucos geram curiosidade entre os residentes e turistas que por ali passam — enquanto isso, há quem se entregue ao treino funcional, alheio às movimentações e à identidade do grupo cada vez mais numeroso que assiste ao espetáculo de cavalos lusitanos, e que marca presença para cumprimentar Duarte Pio de Bragança pelos seus 80 anos, completados na passada quinta-feira, 15 de maio.

A apresentação decorre na área exterior do Museu Nacional dos Coches, projeto inaugurado em 2015 com a arquitetura moderna do brasileiro Paulo Mendes da Rocha e do português Ricardo Bak Gordon, que ao cair desta tarde irá acolher o cocktail para cerca de 300 convidados. Nos tempos áureos da monarquia, a família real costumava assistir a jogos equestres do outro lado da rua, num edifício de estilo neoclássico atribuída ao italiano Giacomo Azzolini. Construído em 1787 por iniciativa do infante João, que mais tarde, em 1817, tornar-se-ia Rei João VI, o Picadeiro Real de Belém foi em 1905 transformado no Museu dos Coches Reais, fundado pela última rainha de Portugal, Amélia de Orléans e Bragança — madrinha do atual duque de Bragança. Hoje os dois edifícios abrigam juntos uma coleção única no mundo, com 70 viaturas expostas, de gala e de passeio, dos séculos XIV a XIX — sendo a maioria delas provenientes da casa real portuguesa. Um acervo que os visitantes que chegam de fora passam em revista mal sobem ao andar superior, para uma viagem no tempo que é também uma ilustre babilónia.

▲ O espetáculo de cavalos lusitanos chamou a atenção das pessoas que passavam por Belém

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

“Tá ali uma mesa dando sopinha”, diz uma voz em português do Brasil. No primeiro andar do Museu dos Coches circulam bandejas e um mundo inteiro de idiomas: português com e sem sotaque, francês, alemão ou inglês. As idades também parecem de amplo espectro — à porta reúnem-se alguns das gerações mais jovens, enquanto a experiência vai repousando aqui e ali nos sofás dispostos pelos salões. Com frequência, interagem sem preconceitos etários, posam para as fotografias, e alinham nas populares selfies. Entre duques e arquiduques, marqueses e condes, impera a normalidade dos fatos escuros, com exceção de alguns mais ousados — há calças verdes, encarnadas ou um conjunto de fato azul claro. As senhoras dividem-se entre vestidos leves de cores sóbrias e padrões, e tanto se avistam confortáveis ténis e furlanes, como sandálias e stilettos. Está reunido o grupo que aterrou em Lisboa para celebrar os 80 anos de Duarte Pio de Bragança, ou novamente os 30 anos de casados, como prefere o duque, avesso a celebrações de aniversários.

“É a primeira vez que estamos a fazer uma coisa mais alargada”

“Quando eu fiz os meus 20 anos, disse: ‘agora já chega’. Gosto dos meus 20 anos, não vou fazer mais aniversários”, confessa o duque de Bragança ao Observador. “O meu marido não gosta nem nunca gostou de fazer aniversário, e por isso nós optámos por fazer sempre coisas só nós”, conta Isabel de Herédia. O filho mais velho, Afonso de Bragança confirma a tendência de contenção sempre que o pai faz anos: “é uma coisa muito pequenina, um bolo com as velas e cantar os parabéns. Mas depende um pouco do dia, há ocasiões em que não gosta muito e pede simplesmente para comermos o bolo em família.”

Mas, então, como convencer alguém que não gosta de festas de aniversário a celebrar os 80 anos? “É a primeira vez que estamos a fazer uma coisa mais alargada, e no princípio o meu marido não estava com muita vontade, mas agora já está a gostar”, assume Isabel de Herédia, sobre o cocktail que recebeu familiares e amigos de vários países. “No convite, só fazia referência aos 30 anos do casamento, que se chamam as Bodas da Pérola”, justifica, de forma simples, o duque de Bragança. “Eu acho que não faz sentido dividir a vida com o número de anos que se viveu. Por exemplo, eu não tenho mérito nenhum no meu nascimento. Por que é que eu vou festejar o meu nascimento? Tenho mérito no meu casamento, tem corrido bem, escolhi muito bem. Por outro lado, o nosso estado tem a ver com as artérias, com o cérebro, enfim, com a saúde. E, portanto, pode-se ter mérito em preservar a saúde. E, sobretudo, as pessoas depois classificam conforme a idade. ‘Ah, já tem mais de 60 anos, é um velho’, dizem os jovens. Ou então, é novo demais, já tem 20 anos”, explica o pretendente ao trono português.

Mesmo não considerando importante celebrar o aniversário, certo é que os membros da família assinalam, de uma forma ou de outra, a data importante. Este ano, Afonso de Bragança revela que o presente teve um significado especial. “Tomei a iniciativa e os meus irmãos depois contribuíram para comprar um pequeno quadro de um artista italiano da paisagem de África. Foi uma ocasião que me surgiu com um pequeno leilão. E achei muito bonito e que podia ser um presente simpático para os pais.” Entretanto, em anos anteriores os irmãos já deram presentes mais corriqueiros. “Eu e os meus irmãos de vez em quando juntávamos para comprar alguma coisa. Quando éramos mais pequenos eram as clássicas canecas, uns porta-chaves. Hoje é mais ajudar um pouco em casa e de vez em quando um cinto, uma carteira. Eu e o meu irmão também já oferecemos um casaco.”

▲ A receção aos convidados internacionais decorreu no Museu dos Coches

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Do berço no exílio aos candeeiros da infância que recuperou no apagão

Dias depois da rendição da Alemanha aos aliados num dos momentos que marcou o último ano da Segunda Guerra Mundial, a 15 de maio de 1945, nasceu Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança. A família real portuguesa vivia exilada desde 1910 e, portanto, o bebé que esta semana celebra 80 anos nasceu na Suíça, ainda assim em território português. “A minha mãe foi instalada na Embaixada de Portugal, em Berna. Portanto, nasci em território português, porque a Embaixada é território nacional”, explica o duque de Bragança. O nome foi uma homenagem ao pai, Duarte Nuno, mas também ao padrinho, o Papa Pio XII.

Em 1950 a família de Bragança foi autorizada a regressar ao País. Duarte Pio veio pela primeira vez a Portugal aos 6 anos de idade para passar algum tempo com a tia, Filipa de Bragança, na localidade de Serpins, em Lousã. Anos depois pôde enfim regressar com a família, e viveu entre o Porto e Coimbra. Entre 1957 e 1959 estudou no Colégio Nuno Álvares, em Santo Tirso, em 1960 ingressou no Colégio Militar, e depois seguiu os estudos no Instituto Superior de Agronomia e no Instituto para o Desenvolvimento na Universidade de Genebra. Também cumpriu serviço militar em Angola entre 1968 e 1971, tendo sido piloto aviador da força aérea.

Sobre a infância, recorda que viveu por muito tempo numa cidade sem eletricidade. “Tínhamos um candeeiro a petróleo e um frigorífico que funcionava a petróleo, que ainda existem hoje, são muito bons. E ainda hoje tenho saudade de uma casa com cheiro de candeeiro de petróleo”, recorda o chefe da casa real portuguesa.

Aliás, a família real teve a oportunidade de reviver um pouco destes tempos no dia do apagão que deixou Portugal e Espanha sem luz por cerca de 10 horas. “Felizmente, eu tinha lá uma dúzia de candeeiros desses e pusemos em toda a casa. Acenderam, tinha o petróleo lá dentro e tudo”, conta ao Observador. “Basicamente fizemos vários jogos”, revela ainda sobre este dia fora do comum. “Os meus filhos têm uma série de amigos que estão a estudar aqui e que, de vez em quando, vêm para a nossa casa. E quando foi esse problema, vieram todos para a nossa casa. Então, começaram alguns a dizer, isto agora é perigoso, pode haver roubos. Tínhamos umas armas de caça e montámos um serviço de segurança. Só assim para divertimento, no fundo.”

Educação militar e princípios católicos

“Fui educado para ser português”, assumiu, em 1991 numa entrevista à RTP, em que disse que o pai o preparou para o caso da família voltar a ser exilada, mas que no geral cresceu sem a pressão de “ser rei”. O duque diz, entretanto, que tem “estado de espírito e disponibilidade”. “É muito mais fácil ser rei do que ser Presidente da República. Sobretudo hoje, em que há instituições democráticas à volta das monarquias, o rei está desligado da governação e não tem que decidir, só tem que salvar a democracia no caso de golpe”.

Como chefe da casa real portuguesa, dedicou-se dentro e fora do país a atividades humanitárias e de promoção da monarquia. Em entrevistas anteriores, Duarte Pio assumiu que não tem um salário, mas a família obtém rendimentos de diferentes fontes, entre as quais prédios no Chiado herdados da Rainha D. Amélia, que era sua madrinha, e propriedades em Petrópolis herdadas da mãe, a princesa brasileira Maria Francisca de Orléans e Bragança. Além disso, o duque de Bragança colabora com fundações relacionadas com a coroa que lhe garantem os custos com despesas de viagens e outros encargos relacionados com as missões que desenvolve.

“O meu pai viveu numa altura com algumas complicações, com base na história. Também esteve a combater no Ultramar, em representação de Portugal. Sempre foi educado com muitos morais católicos e criado com uma educação militar, no colégio militar”, recorda Afonso, o primeiro na linha de sucessão. O filho mais velho do duque de Bragança destaca a sua “inteligência, sabedoria e paciência para nos ensinar” e fala sobre o carinho que vê no pai. “Emana um amor enorme pela família. Acho que só me lembro do meu pai verdadeiramente chateado quando a minha mãe está a passar mal”, conta o príncipe da Beira. “Imagino que ser pai não é fácil. E eu acredito que ele tenha feito o melhor que pôde. Tenho uma admiração enorme por ele.”

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