Pelo segundo ano consecutivo, a presença de Israel no Festival Eurovisão da Canção está a ser alvo de polémica. Agora, o jornal El País reporta que a RTVE, a rádio e televisão pública espanhola, vai pedir à organização da Eurovisão uma auditoria para investigar o televoto espanhol, que atribuiu a classificação máxima (12 pontos) à representante de Israel na final do concurso que aconteceu este domingo em Basileia, na Suíça.

De acordo com fontes próximas da empresa pública, o canal decidiu fazer o pedido de auditoria esta segunda-feira, na sequência da diferença profunda entre as pontuações obtidas pelo júri e pelo público na final do certame, que foi particularmente evidente no caso de Israel.

A representante israelita, Yuval Raphael, recebeu apenas 60 pontos do júri internacional, mas arrasou na votação do público, através de televoto, com 297 pontos, posicionando Israel ao lado de países favoritos como a Estónia, a Suécia e a vencedora Áustria.

Aliás, a canção New Day Will Rise foi a opção favorita do público de 13 países, entre eles a Alemanha, França, o Reino Unido ou Espanha, que lhes atribuíram a pontuação máxima — os ditos 12 pontos. Esta circunstância reavivou o debate sobre o papel da geopolítica na Eurovisão, um certame que se define oficialmente como apolítico, mas que não hesitou em expulsar a Rússia do concurso em 2022 depois da invasão à Ucrânia.

Nos últimos dois anos, o voto popular apoiou o mesmo país, Israel, cujo governo admitiu ter intervindo ativamente na recolha destes votos. Em 2024, a canção israelita obteve 323 pontos de apoio popular, apenas atrás da Croácia. Em 2025, conseguiu menos pontos (297), mas tornou-se o país mais votado pelo público, que pode votar através da aplicação da Eurovisão (até um máximo de 20 votos por pessoa, com um custo de 0,99€ por voto), por telefone ou por SMS.

David Saranga, diretor interino da diplomacia pública do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, admitiu ao portal de notícias israelita Ynet, no ano passado, que a agência que dirige interveio “entre o público simpatizante [de Israel] para encorajar o voto”. Estas campanhas foram “frequentemente apoiadas pelos partidos de direita e de extrema-direita de cada país”, escreve o El País.

Segundo o mesmo jornal, citando fontes da estação pública espanhola, outros países também vão pedir auditorias semelhantes ao televoto.

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Espanha pode enfrentar multa

De resto, se muitos artistas e países se posicionaram contra a participação israelita, Espanha entrou em confronto direto com a União Europeia da Radiodifusão (UER), a entidade organizadora do Eurofestival, que umas horas antes do evento advertiu a RTVE para uma possível multa se voltasse a tecer comentários sobre os mortos resultantes da invasão de Gaza por Israel durante a transmissão da final.

Tudo porque na semifinal, a 15 de maio, Julia Varela e Tony Aguilar, que faziam o relato na televisão estatal de Espanha, mencionaram o número de mortes civis na Palestina e o desejo da delegação espanhola de abrir um debate sobre a participação de Israel.

“Esta não é uma crítica dirigida a nenhum país em particular, mas um chamamento a favor da paz e dos direitos humanos”, disse Varela em direto, ao que Aguilar respondeu: “Este ano a RTVE solicitou à Eurovisão um debate sobre a participação de Israel no festival. As vítimas dos ataques israelitas em Gaza ultrapassam as 50 mil, entre elas mais de 15 mil crianças, segundo as Nações Unidas”. A mensagem não foi bem recebida pela organização do evento.

“Os números de vítimas não têm espaço num programa de entretenimento apolítico cujo lema, unidos pela música, encara os nosso compromisso com a unidade”, responderam por escrito. “É fundamental que os comentários cumpram estas regras sem exceção (…) para preservar o caráter apolítico da Eurovisão e cumprir com a ética e os padrões estabelecidos com as regras. Esperamos a plena cooperação da RTVE para evitar que se repita. Qualquer incumprimento posterior poderá levar a multas punitivas segundo as regras”, conclui o texto da UER.

Apesar da advertência, a RTVE não se ficou e, pouco antes do início da emissão deste domingo, transmitiu uma mensagem apelando à “paz e justiça” para a Palestina. “Perante os direitos humanos, o silêncio não é uma opção. Paz e justiça para a Palestina”, mostraram num ecrã a negro, escrito em espanhol e inglês.