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O caminho mais Harder para o Sporting resgatar uma segunda vida perdida (a crónica da final da Taça de Portugal)

Este artigo tem mais de 1 ano

Quando os adeptos do Benfica festejavam a conquista que nunca chegou, um lance mudou tudo. Agora, desfecho à Sporting é um desafio ao impossível – e Amorim não levou a estrelinha do clube (1-3, a.p.).

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Conrad Harder entrou na segunda parte, fez a reviravolta no início do prolongamento e assistiu Francisco Trincão para o 3-1 final

AFP via Getty Images

Conrad Harder entrou na segunda parte, fez a reviravolta no início do prolongamento e assistiu Francisco Trincão para o 3-1 final

AFP via Getty Images

As equipas eram as mesmas, os contextos eram diametralmente opostos. Depois de um Campeonato apenas decidido na última jornada e que culminou com a festa verde e branca do Marquês por um segundo título consecutivo como não acontecia há mais de sete décadas, a final da Taça de Portugal surgia como culminar de uma época que parecia escrita qualquer que fosse o desfecho no Jamor. Exemplo prático: ao contrário do que aconteceu antes da derradeira ronda da Liga, não havia uma especial preocupação por acreditações tendo em vista receções na Câmara sabendo que o vencedor estaria sempre a representar Lisboa. Porquê? Uns estiveram nos Paços do Concelho na semana passada para exibirem o principal troféu, outros teriam dificuldade em “assinalar” a conquista da prova rainha depois de falharem o principal título.

Sporting vence Benfica com reviravolta no prolongamento e conquista dobradinha 23 anos depois

Um pormenor resumia o filme. O Benfica tentava quebrar um jejum de oito anos sem vencer a final da Taça de Portugal, naquele que era o segundo maior período na história sem triunfos apenas superado pela janela entre 2004 e 2014. No entanto, a temporada de 2024/25 já estava marcada por mais um projeto falhado face ao objetivo de chegar ao Campeonato e por um período de reflexão em busca de perceber o que não correu bem nos últimos seis anos que tiveram apenas um título dos encarnados. Já o Sporting, que entre todas as dificuldades conseguiu agarrar-se ao sonho de um bicampeonato 71 anos depois, procurava a dobradinha que fugia desde os tempos de Jardel e companhia em 2002 num ambiente ainda festivo e sem qualquer tipo de pressão extra apesar da possibilidade de fazer mais história na época que assinalou o fim da era Amorim em Alvalade. Ambos teriam algo a perder mas a maior diferença era o que representava ganhar.

No Benfica imperava a lógica de olhar para os números com a perspetiva que se quisesse. Uma vitória na Taça de Portugal, que se juntaria ao triunfo na final da Taça da Liga, significaria que os encarnados tinham ganho duas das três provas nacionais em que participaram. Era um facto. No entanto, o próprio Bruno Lage assumia que, sendo uma decisão “muito importante”, nunca salvaria a temporada. Ou seja, e depois de um possível set point ou match point perdidos no dérbi na Luz para o Campeonato, o principal foco do universo encarnado começou a virar-se para as eleições de outubro, para as movimentações que se adensam com o passar dos dias (e que terão resultados práticos nas próximas duas/três semanas) e para a possibilidade de Rui Costa poder ou não recandidatar-se à liderança do clube numa fase de menor fulgor por parte do futebol.

No Sporting, tudo era diferente. Mais do que a conquista do bicampeonato (com “promessas” de ir ao tri no Marquês, desta feita com o drop the mic a pertencer a Pedro Gonçalves), mais do que as várias festas que foram das ruas a barcos alugados na folga pelos jogadores, o triunfo frente ao V. Guimarães e tudo o que daí resultou teve o condão de mostrar a empatia que existe entre equipas e adeptos, não só no futebol mas em todas as modalidades. Ao todo eram três as finais perdidas pelos leões nas últimas decisões, entre a Taça de Portugal de 2024, a Supertaça de 2024 e a Taça da Liga de 2025, mas nem mesmo esse histórico recente negativo parecia impactar no percurso verde e branco qualquer que fosse o desfecho de mais uma final – a não ser que algo de catastrófico acontecesse, como existira nos tempos de Marcel Keizer na Supertaça.

Lá fora, todos esses cenários eram esquecidos. Por mais que gere discórdia a questão da realização da final da Taça de Portugal no Jamor, ainda para mais juntando quase 30 anos depois Benfica e Sporting na decisão, o ambiente que se vive antes do apito inicial é único. A par de situações mais pequenas, tudo decorreu de uma forma salutar, sem incidências de maior e a respeitar o conceito de festa que qualquer ocasião deste género deve ser. Isso também passa depois para o sentimento que se vive no relvado, do aquecimento à entrada, passando pelos minutos iniciais de adaptação a um ambiente que também nas quatro linhas não é normal pelas próprias características do Estádio do Jamor. Era assim que o dérbi estava lançado, com o onze previsível no Sporting contando com a ausência por lesão de Diomande (entrou St. Juste) e duas surpresas no Benfica entre as presenças de Di María e Aursnes no banco e as apostas em Dahl e Bruma de início.

Lage tentou surpreender, Lage conseguiu surpreender. Ao longo de 90 minutos, o Benfica foi sempre melhor, podia por mais do que uma ocasião acabar com o encontro, já estava até a festejar uma vitória gorada por um lance com vários erros individuais à mistura que terminou com uma grande penalidade sofrida e convertida por Gyökeres que levou tudo para o prolongamento. Aí, Harder mostrou que este leão tem sete vidas, com um golo e uma assistência que deram a dobradinha ao Sporting 23 anos depois frente a uma formação encarnada que, quanto mais mexia, pior ia ficando em campo. No final, Rui Borges saiu a sorrir. Se um dia o Sporting foi aquela equipa com tendência para morrer na praia, agora desafio com sucesso o impossível.

Ficha de jogo

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Benfica-Sporting, 1-3 (após prolongamento)

Final da Taça de Portugal

Estádio Nacional, no Jamor

Árbitro: Luís Godinho (AF Évora)

Benfica: Samuel Soares; Tomás Araújo (Aursnes, 77′), António Silva, Otamendi, Álvaro Carreras; Florentino Luís, Kökçü (Renato Sanches, 70′); Bruma (Leandro Barreiro, 90+1′), Aktürkoglu (Schjelderup, 70′), Dahl (Di María, 103′) e Pavlidis (Belotti, 77′)

Suplentes não utilizados: Trubin, Arthur Cabral e Adrian Bajrami

Treinador: Bruno Lage

Sporting: Rui Silva; Eduardo Quaresma (Iván Fresneda, 84′), St. Juste (Matheus Reis, 84′), Gonçalo Inácio; Geny Catamo (Geovany Quenda, 75′), Debast (Morita, 58′), Hjulmand, Maxi Araújo (David Moreira, 115′); Francisco Trincão, Pedro Gonçalves (Harder, 75′) e Gyökeres

Suplentes não utilizados: Franco Israel, Biel e Eduardo Felicíssimo

Treinador: Rui Borges

Golos: Kökçü (47′), Gyökeres (90+10′), Harder (99′) e Francisco Trincão (120+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Dahl (19′), Carreras (54′), António Silva (56′), Kökçü (65 ‘), Harder (78′), Hjulmand (90+2′), Geovany Quenda (101′) e Samuel Soares (114’)

Os primeiros minutos do encontro trouxeram uma constatação e uma surpresa. A constatação era fácil de perceber: a conquista do Campeonato deu uma enorme serenidade ao Sporting, sobretudo no capítulo da construção a partir de trás com mais critério, sem bolas a queimar, a variar entre a largura de jogo que os alas conseguem dar e a profundidade que as características de Gyökeres dão o jogo. Já o Benfica, ao contrário do que tem sido normal, optou por uma saída a três mas com Tomás Araújo a ser o lateral que ficava e Carreras a completar uma linha que para esta final contava com Otamendi na direita e António Silva na esquerda (uma estratégia que foi depois mudando com o passar dos minutos, perante o poder de fogo da esquerda). O que fazia diferença? A agressividade e intensidade no jogo sem bola e os desequilíbrios individuais que as manobras coletivas conseguiam criar, algo que primeiro favoreceu os leões e mais tarde as águias.

Geny Catamo, num lance em que ficou com todo o flanco para jogar 1×1 com Álvaro Carreras, deixou o sinal inicial de perigo numa jogada cortada por António Silva quando Gyökeres se preparava para encostar na pequena área. Pouco depois, Kökçü, numa meia distância de pé esquerdo aproveitando a descompensação momentânea do corredor central verde e branco, obrigou Rui Silva a uma intervenção difícil mas segura (5′). O Benfica começava a crescer no jogo e podia ter aproveitado uma oportunidade flagrante para inaugurar o marcador numa grande penalidade assinalada por corte com o braço de Gonçalo Inácio a remate de Bruma que foi depois revertido por um fora de jogo de Kökçü no início da jogada (11′). Os encarnados cresciam no encontro frente a um Sporting que estava demasiado descontraído, a tentar controlar momentos de jogo que lhe começavam a fugir das mãos sem que a equipa conseguisse perceber o que acontecia.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Benfica-Sporting em vídeo]

O domínio do Benfica assentava e sentia-se a vários níveis. Em posse, a formação encarnada conseguia ser bem mais vertical do que um Sporting muitas vezes a cair na tentação de jogar longo em Gyökeres para ir ganhando metros; sem bola, as zonas de pressão mais altas traziam resultados práticos para a criação de situações de golo, como aconteceu numa recuperação de Florentino Luís a cair em cima de Debast que teve depois um remate de Pavlidis desviado por Rui Silva para o poste com uma grande defesa (20′). As chances nesse melhor período não ficariam por aí, com Bruma a aproveitar uma saída rápida que deixou o ataque do Benfica em 3×3 para um remate desviado por Inácio que saiu pouco por cima da trave (28′) e um desvio de cabeça de Pavlidis ao primeiro poste na sequência do canto que não falhou por muito o alvo (29′).

Bruno Lage tinha conseguido surpreender Rui Borges, Rui Borges continuava a não conseguir reagir a essa surpresa de Bruno Lage. Fosse pela forma como Carreras fechava por dentro a defender com Dahl a descer na esquerda, fosse pela forma de saída que ia encontrando sempre soluções para chegar ao último terço, fosse pelas diagonais de Bruma e Aktürkoglu que deixavam o corredor aberto para subidas que pudessem criar desequilíbrios, o Benfica estava melhor e só mesmo nos minutos que antecederam o intervalo houve um pouco mais de Sporting por ação de Gyökeres, primeiro a passar por António Silva e a cruzar para o desvio de cabeça fraco de Pedro Gonçalves (44′) e depois a ganhar espaço na área para o remate cruzado que permitiu a Samuel Soares fazer a primeira defesa do encontro já em período de descontos (45+1′).

A primeira parte terminou de forma mais “mortiça”, o segundo tempo começou a todo o gás: Debast teve um primeiro remate em arco que saiu muito por cima, logo de seguida numa jogada que teve início perante a total apatia dos jogadores do Sporting perante os pedidos de falta sobre Geny Catamo que ficou no chão e acabou com um míssil de Kökçü sem hipóteses para Rui Silva (47′). Rebentava a festa no Jamor, com muitos adeptos ainda a celebrar o 1-0 quando Bruma, no seguimento de uma jogada coletiva que encontrou o ala português nas costas da defesa verde e branca, a marcar o 2-0 que seria depois invalidado por uma falta de Álvaro Carreras no início da jogada a meio-campo (re)vista pelo VAR (50′). A vantagem era benfiquista mas ainda pela margem mínima, com a promessa de que o encontro não mais voltaria a ser o mesmo.

A “confusão” instalada entre lances de golo, revisões de VAR e anúncios da decisão acabou por abrandar o ritmo forte com que o Benfica entrou no segundo tempo, seguindo-se um período já com Morita em campo em que o Sporting foi esboçando uma reação ainda que apenas com um remate e sem perigo de Gyökeres (60′). A parte física também começa a dar sinais, com Kökçü e Aktürkoglu a serem substituídos por Renato Sanches e Schjelderup (67′). Há falta de mais jogo em campo, eram os bancos que tentavam “entrar” no jogo, com Rui Borges a lançar Geovany Quenda e Harder nos lugares de Geny Catamo e Pedro Gonçalves e Bruno Lage a responder com Aurnes e Belotti nas posições de Tomás Aráujo e Pavlidis. O tempo jogava a favor do Benfica mas a maior exposição do Sporting trazia outra presença na frente… e mais espaços atrás.

Um bom exemplo disso foi a forma como Schjelderup conseguiu criar mais uma oportunidade flagrante para os encarnados, roubando a bola a Eduardo Quaresma numa zona proibida e assistindo Belotti na área mais descaído na esquerda para nova grande defesa de Rui Silva a manter ainda a final em aberto (81′). Francisco Trincão ainda teve uma das melhores oportunidades do Sporting mas o remate saiu fraco (87′), Leandro Barreiro obrigou Rui Silva a nova intervenção já nos descontos (90+2′) mas o momento do encontro estava ainda por chegar: quando alguns adeptos leoninos na central começavam a abandonar o estádio, uma jogada iniciada por Trincão que Florentino não travou a meio-campo colocou Gyökeres descaído sobre a direita a passar António Silva e a ser travado por Renato Sanches na área para um penálti que podia mudar tudo.

No meio da confusão, sereno como se não fosse nada, o sueco agarrou na bola, colocou-a na marca e atirou sem hipóteses para Samuel Soares, levando tudo para prolongamento aos 90+10′. Com alguns jogadores já em quebra física, a final podia cair para qualquer um dos lados. Não era bem jogada pelas limitações supracitadas, tinha elementos mais frescos que tentavam fazer a diferença. O principal? Conrad Harder. No primeiro ataque do Sporting não quis dar a bola a Gyökeres, arriscou a jogada individual e atirou quase em ângulo para defesa de Samuel Soares. Na segunda oportunidade, visou a baliza no corredor central com mais perigo mas o guardião encarnado voltou a ganhar o duelo. Na terceira, foi de vez: segunda bola após canto, cruzamento de Trincão da esquerda e cabeceamento picado para o golo da reviravolta (99′).

Só mesmo em desvantagem Bruno Lage lançou Ángel Di María em campo. O efeito não foi imediato mas o Benfica, sobretudo na segunda parte do prolongamento, começou a ter mais presença no último terço como há muito procurava, jogando mais pelos corredores laterais para criar situações de superioridade e tendo as habituais diagonais do argentino como uma que terminou com um remate que saiu perto da trave (114′) antes de um livre direto que ficou nas mãos de Rui Silva (117′). A história da final da Taça de Portugal estava contada mas teria ainda mais um capítulo, com Harder a assistir Trincão que, na área, fez uma finta fabulosa antes de atirar sem hipóteses para o 3-1 que carimbou em definitivo a reviravolta no encontro (120+1′).

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