Na entrevista que tive oportunidade de lhe fazer em Cannes, a publicar em data mais coincidente à estreia portuguesa de Un simple accident, perguntei a Jafar Panahi se estava com medo de regressar ao Irão, ao que ele respondeu, contundente: “Como posso ter medo? Neste preciso instante, muitas mulheres no meu país, tal como as atrizes no meu filme, estão a sair à rua sem hijab [o lenço islâmico]. Elas arriscam muito mais do que eu. Muitas são presas nas ruas de Teerão e quando voltam à liberdade continuam a desobedecer. Não se rendem.”
Ora, da capital iraniana, chegam entretanto ótimas notícias, pelo menos pelo que foi possível apurar pelas redes sociais em publicações de pessoas e familiares próximos do cineasta (ao contrário do que se passa no Ocidente, as redes são um canal de resistência e um embaraço para as autoridades em solo persa, como aliás ficou bem patente no filme A Semente do Figo Sagrado, de Mohammad Rasoulof). Panahi aparece sorridente à chegada ao aeroporto internacional Imam Khomeini enquanto alguém grita “Mulher, Vida, Liberdade”, o slogan que ganhou eternidade após a morte de Mahsa Amini. Nas mesmas redes, Rasoulof saudou a vitória de Panahi em Cannes: “A luta contra a censura e a repressão continuará”. Amir Naderi escreveu que “há sangue novo nas veias do cinema iraniano independente.”
Cannes. Palma de Ouro para “Un simple accident”, de Jafar Panahi
Antes da chegada de Panahi à pátria, foi notícia o facto do regime iraniano não ter visto com bons olhos um post no X do Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, que saudou a vitória cannoise de Un simple accident nos seguintes termos: “Um gesto de resistência contra a opressão do regime iraniano.”
O Governo iraniano respondeu de imediato por Mohammad Tanhaei, chefe do departamento para a Europa Ocidental do Ministério dos Negócios Estrangeiros do país, que condenou “a postura irresponsável e provocadora” de Barrot, exigindo uma explicação oficial do político francês pelas “declarações insultuosas e as acusações infundadas.”
Parecia estar o caldo entornado, com o Festival de Cannes metido ao barulho. O diplomata iraniano sublinhou também “o abuso da parte do Governo francês da oportunidade de organizar um evento cinematográfico para promover objetivos políticos contra o Irão”.
Aquele país do Médio Oriente tem sido notícia nos últimos dias e dado sinais de ligeira abertura na sua estratégia política internacional. O Conselho de Segurança do país suspendeu por ora a lei de obrigatoriedade do uso do hijab, revogando medidas de deputados extremistas, num momento em que as negociações do nuclear entre EUA e Irão foram retomadas. Quanto a Panahi, está a salvo e em liberdade. Pelo menos para já.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]