A Federação Portuguesa de Judo (FPJ) está suspensa internacionalmente devido a uma dívida de mais de 800 mil euros. Na passada sexta-feira, a Federação Internacional de Judo (FIJ) aplicou ao organismo nacional uma suspensão válida por um ano ou até que o valor em falta seja totalmente saldado, sendo que os atletas portugueses poderão continuar a competir de forma neutra.
De acordo com o jornal Expresso, que teve acesso à decisão da Comissão Disciplinar da FIJ, as dívidas incluem 300 mil euros da organização dos Mundiais de juniores de 2023, em Coimbra, e 250 mil euros por cada edição do Grand Prix de Odivelas de 2022 a 2024, acrescentando-se ainda juros. O contrato que os dois organismos mantinham ainda incluía a organização do Grand Prix deste ano, mas o presidente da FPJ anunciou ainda em outubro que a situação financeira não permitia seguir em frente com o evento, que seria um “suicídio”.
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Na decisão, a Federação Internacional de Judo indica que a Federação Portuguesa de Judo “falhou nos pagamentos nos prazos acordados”, apesar de ter sido alertada com “múltiplas notificações, lembretes e faturas” por email e carta desde 2022. A 12 de fevereiro, a FIJ enviou uma última notificação e deu 14 dias à FPJ para que pudesse saldar as dívidas — algo que não aconteceu e que levou à cessação de todos os contratos vigentes e à suspensão de um ano.
Também de acordo com o jornal Expresso, a FPJ recebeu uma comunicação oficial por parte do representante legal da FIJ já em março, mas os pagamentos também não foram feitos nessa altura. O organismo português ainda teve direito a uma declaração de defesa permitida pela organização internacional, onde Sérgio Pina, atual presidente, responsabilizou a direção anterior pela situação financeira da federação.
“A Federação Portuguesa de Judo tem estado em situação crítica depois de o antigo presidente ter sido expulso da posição. Depois desta situação, os membros da FPJ perceberam que os seus sete anos como presidente foram uma completa catástrofe financeira”, podia ler-se na carta enviada por Sérgio Pina, que acrescentava que só quando venceu as eleições é que soube que a “dívida era astronómica”, um facto que só o antecessor, Jorge Fernandes, conhecia. Adicionalmente, o atual presidente lembrou ainda as buscas feitas pela Polícia Judiciária na sede da federação, em março, por suspeita de prática de crimes de tráfico de influência, abuso de poder e peculato.
De recordar que Sérgio Pina era vice-presidente de Jorge Fernandes, que liderou o organismo durante sete anos e acabou destituído em 2022 devido a um processo disciplinar do IPDJ por alegado favorecimento do filho, então funcionário da FPJ — sendo que, nos meses anteriores, já tinha protagonizado uma guerra aberta com vários judocas, incluindo Telma Monteiro. Sérgio Pina começou por ser eleito em abril de 2023 para cumprir o remanescente do mandato abandonado por Jorge Fernandes, sendo reeleito em outubro de 2024 numas eleições em que o antecessor também foi a votos.
O Expresso adianta ainda que, antes da suspensão, a Federação Portuguesa de Judo chegou a realizar uma transferência de 50 mil euros com “um sinal de início de pagamento” também de “boa fé” em todo o processo, para além de ter garantido que estava a tentar reunir apoios junto do Governo para saldar as dívidas. As reuniões com o executivo de Luís Montenegro terão mesmo acontecido, mas a “incerteza financeira” manteve-se devido à queda do Governo e ao consequente agendamento de eleições legislativas.
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Na passada sexta-feira, dia 23 de maio, a Comissão de Disciplina da Federação Internacional de Judo comunicou então a decisão de suspender a Federação Portuguesa de Judo por violação dos Estatutos e do Código Disciplinar do organismo, apesar de realçar a “sinceridade” nas tentativas de justificar a situação financeira. A federação nacional está assim afastada das competições internacionais durante um ano ou até que toda a dívida seja saldada.
Ainda assim, os judocas portugueses poderão continuar a competir internacionalmente, incluindo nos próximos Mundiais de Budapeste — ainda que de forma neutra, tal como tem acontecido com os atletas russos e bielorrussos de todas as modalidades desde o início da invasão da Ucrânia. Ou seja, todos os judocas nacionais irão competir sob a bandeira da Federação Internacional de Judo e, em caso de medalha, a bandeira portuguesa não será hasteada e o hino nacional não será ouvido.
Telma Monteiro, que terminou a carreira em dezembro e conquistou uma medalha de bronze no Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, para além de outras 15 medalhas em Europeus e quatro de prata em Mundiais, já reagiu à suspensão. “Primeiro as buscas da PJ à FPJ… Agora a Federação Internacional de Judo suspendeu a FPJ por dívidas acumuladas ao longo dos anos. E lembrar que éramos nós os sete que estávamos errados… Gestão danosa em todos os sentidos! Nada do que se passa é uma surpresa para quem viveu de perto tudo o que se passou. Quem perde são os que menos têm culpa, os atletas. O desporto português, o Judo. E isto vai continuar a acontecer em qualquer modalidade em que as pessoas se serviam do desporto em vez de servirem o desporto”, escreveu a antiga judoca no Instagram.
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