Havia estudantes, barbeiros, polidores de carros, professores, corretores de seguros, agentes imobiliários, fisioterapeutas, representantes de Coca-Cola e de tudo um pouco. Todos têm uma paixão em comum que se chama futebol, todos têm um ponto em comum que é não fazerem vida do futebol. Por razões óbvias, se há uma equipa com holofotes centrados neste Mundial de Clubes é o Auckland City, a única formação amadora em competição que durante todo o ano domina a liga local e a Oceânia mas depois sair para hemisférios bem diferentes e choca com realidades diametralmente opostas. A primeira, essa, foi talvez a pior de todas. Para o Bayern, mostrar respeito pelo adversário é nunca tirar o pé do acelerador, mesmo que isso signifique um jogo que muda de campo aos seis e termina em 10-0. Agora, seguia-se o Benfica. E as expetativas eram altas.

Benfica goleia Auckland City no grupo C por 6-0 após interrupção de uma hora e meia pelo tempo

Apesar da exibição que em muitos momentos ficou aquém do esperado, o conjunto da Luz conseguiu ainda resgatar um empate frente ao Boca Juniors quando estava reduzido a dez e colocou as decisões do grupo C em torno de dois “fenómenos”: o que cada equipa conseguiria fazer contra o Bayern e por quantos ganharia cada equipa ao Auckland City. Estas eram as diretrizes, este era também o desafio para o Benfica, que iria jogar com mais de 30º à hora de almoço em Orlando sabendo que cada golo marcado era um passo para garantir o apuramento para os oitavos do Mundial de Clubes antes do encontro com os bávaros.

“Vamos ter vários desafios mas o primeiro tem de ser a mentalidade certa para vencer, para garantir os três pontos. Depois, sabemos a importância que terá o resultado. Tem de haver respeito pelo adversário, a nossa consciência em fazer uma boa exibição. Só assim é que se consegue um resultado mais expressivo. Esta equipa tem tido esta capacidade. Já o fez no campeonato, na Champions, na Taça. Outro desafio é claramente o horário e a temperatura que vai estar. Além de fazermos uma análise cuidada dos nossos jogadores, porque muitos já vão numa época longa, há que ter essa preocupação. Temos jogadores de países diferentes, com adaptações diferentes e sentimos que há uns que têm tido maiores dificuldade do que outros a adaptarem-se a determinadas temperaturas e horários. Para terem ideia, temos realizado alguns jogos de treino e há alguns jogadores que têm mostrado dificuldades em jogar…”, explicara o treinador no lançamentos do encontro.

“A pressão que colocamos em nós é fazer sempre bons jogos. Já viram que a equipa fez resultados acima de 3-0 ao longo da época, quer no Campeonato, quer na Champions, quer na Taça. Essa é a nossa exigência. O que vou exigir é que sejamos competentes durante 90 minutos, percebendo onde o adversário poderá criar perigo. O que quero é uma equipa comprometida e garantir a vitória, respeitando o adversário. Como preparámos o jogo? Tentámos reunir o máximo possível de informação sobre o adversário. E o que vimos, além do jogo do Bayern, foi uma equipa que tem jogado com uma linha de cinco. Acredito que queira dar uma imagem diferente mas vimos uma equipa fechada, concentrada, determinada em fechar a baliza e explorar as condições. Preparámos a equipa em função do posicionamento do adversário”, acrescentara, entre alguns reparos às condições de trabalho das formações europeias em comparação com as americanas.

“Acho que há um ponto transversal, eventualmente se esta competição se repetir as pessoas vão pensar em tentar aproximá-la para o final de uma época ou para o início de outra. Se queremos fazer disto um Mundial, temos de dar condições iguais aos treinadores e isso não aconteceu. Terminámos o Campeonato há três semanas, os jogadores dispersaram, depois viajaram de vários pontos do mundo para se encontrarem e, passado três dias, estarem a competir. Muitas das equipas estão a receber jogadores novos nesta altura, inclusive muitos com treinadores novos. E acho que vamos também perceber isso. O lado económico é muito importante, mas jogar às 12h00 [locais]… Os jogadores têm sentido o calor que faz à hora do treino e amanhã [sexta-feira] será uma dificuldade acrescida”, apontara Bruno Lage antes da partida. A parte da teoria estava certa, a questão da prática nem por isso e a primeira parte passou ao lado do desejado.

Ficha de jogo

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Benfica-Auckland City, 6-0

2.ª jornada do grupo C do Mundial de Clubes

Inter&Co Stadium, em Filadélfia (EUA)

Árbitro: Salman Ahmad Falahi (Qatar)

Benfica: Trubin; Aursnes (Tiago Gouveia, 71′), António Silva (Bajrami, 87′), Otamendi, Carreras (Dahl, 46′); Leandro Barreiro, Kökçü (Renato Sanches, 61′); Di María, Prestianni (João Rêgo, 71′), Aktürkoglu (Schjelderup, 61′) e Pavlidis

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, Gonçalo Oliveira, Joshua Wynder, Leandro Santos, João Veloso, Rafael Luís, Diogo Prioste e Bruma

Treinador: Bruno Lage

Auckland City: Garrow, Ilich (Jackson Manuel, 59′), Mitchell, Nikko Boxall, Adam Bell, Zhou Tong (Garriga, 46′), Michael den Heijer (Christian Gray, 80′), Myer Bevan (Ryan de Vries, 73′), Jerson Lagos, David Yoo (Matt Ellis, 59′) e Haris Zeb (Manickum, 59′)

Suplentes não utilizados: Conor Tracey, Sebastian Ciganda, Regont Murati, Nathan Lobo, Dylan Connolly, Alfie Rogers, Jordan Vale, Jeremy Foo e Kilkolly

Treinador: Paul Posa

Golos: Di María (45+8′, g.p. e 90+8′, g.p.), Pavlidis (53′), Renato Sanches (63′), Leandro Barreiro (76′ e 78′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Álvaro Carreras (45+4′), Kökçü (48′) e Bajrami (87′)

O encontro começou conforme previsto, com o Benfica a ficar instalado no meio-campo do Auckland, com Aursnes a ocupar uma posição meia de médio do que propriamente de lateral direito e com os movimentos na frente à procura dos espaços que não abundavam. Ainda assim, havia uma diferença: uma coisa é ter um autocarro de uma ou duas linhas à saída da área, outra coisa é colocar tudo a defender num bloco mais do que baixo mas sem a organização necessária para evitar que os espaços surgissem de forma natural. Era isso que a equipa da Nova Zelândia queria mostrar, era isso que o conjunto da Luz pretendia evitar. No entanto, e apesar desse completo domínio, os dez minutos iniciais passaram sem uma oportunidade flagrante, com três remates sem grande perigo (Aktürkoglu ao lado, Otamendi com pouco ângulo, Kökçü à figura) e um grande destaque para os adeptos encarnados presentes em Orlando, que se faziam ouvir desde o início.

Desde início, o golo era uma questão de tempo. Problema? Sem espaços, esse tempo também se foi perdendo. O Auckland City nunca foi uma equipa que criasse propriamente perigo, até porque sempre que alguém tinha a bola no meio-campo do Benfica estava mais preocupado com as transições defensivas do que em chegar ao último terço, mas Bruno Lage começava a ficar mais agitado na zona técnica entre as primeiras duas grandes oportunidades falhadas com Aktürkoglu a rematar a rasar o alvo numa segunda bola ganha em corredor central à entrada da área (18′) e Pavlidis a surgir isolado depois de um grande passe de Ángel Di María para uma tentativa que bateu ainda no poste mas saiu (24′). Estava confirmada a primeira surpresa do início da tarde em Orlando: a pausa para hidratação à meia hora de jogo chegou sem qualquer golo…

Bruno Lage tentava falar com calma, retificava posições e movimentos mas nem por isso o nulo era desfeito. Até ao intervalo o Benfica esteve bem mais rematador, exagerando muitas vezes da solução de longe que ia facilitando a tarefa de Nathan Garrow (Aktürkoglu, Pavlidis e Di María tiveram as suas tentativas, tudo com defesas a soco para a frente do guarda-redes dos neozelandeses), mas os minutos passaram sem golos. Ainda houve um golo festejado de Aursnes, prontamente anulado por falta de Pavlidis na pequena área sobre o número 1 do Auckland City (45′), uma “fita” de Zhou para não sair de campo depois de levar uma bolada na cabeça, um cartão amarelo a Carreras que o tira do próximo encontro, mas o golo surgir em cima do descanso com Prestianni a ser carrregado na área de forma ingénua e Di María a fazer o 1-0 de penálti (45+8′).

Se a primeira parte não tinha sido boa, a chegada do intervalo não melhorou nada. Longe disso: as equipas foram informadas quando recolhiam aos balneários de que o recomeço do encontro seria adiado devido às condições climatéricas e sem uma hora referência para um potencial arranque. Estavam 31º em Orlando, a sensação térmica chegava aos 37º e quando a chuva parecia dar tréguas ouviam-se relâmpagos e trovoada que não traziam boas sensações para quem só queria voltar a ver futebol. Mais de uma hora e meia depois, com Dahl no lugar de Carreras, o jogo teve novamente início e com o primeiro remate com perigo a pertencer mesmo aos neozelandeses, com Zeb a obrigar Trubin a uma defesa apertada para canto (50′).

Era uma questão de tempo até o Benfica voltar a entrar de vez na partida, com essa particularidade de ter conseguido a abrir aquilo que só fizera a fechar na primeira parte: Kökçü viu o movimento central de Pavlidis entre os centrais, grego conseguiu deixar dois adversários pelo chão e rematou rasteiro para o 2-0 (53′). Era um jogo onde tudo acontecia, com a substituição de Kökçü a criar mais um caso no seio do balneário perante a reação do turco contra o treinador, mas estava aberta a porta para os encarnados acelerarem para uma goleada quase natural: Renato Sanches aumentou para 3-0 num remate de longe mal entrou em campo (63′), Leandro Barreiro fez o 4-0 depois de um cruzamento rasteiro de Dahl ao segundo poste (76′), o mesmo Leandro Barreiro apareceu sozinho na área para desviar uma assistência de Tiago Gouveia para o 5-0 (78′). Com maior pressão, mais intensidade e melhor circulação de bola, o Benfica parecia outro e o resultado final acabou por ser o menos estranho num encontro onde aconteceu um pouco de tudo em Orlando.

A pérola

  • Não foi por acaso que, apesar da idade, do desgaste e de todas as circunstância que envolveram o jogo, Bruno Lage decidiu manter Ángel Di María os 90 minutos em campo. O argentino já fez exibições de encher o olho bem acima do que realizou com o Auckland City mas, sempre que a bola parava nos seus pés, algo de diferente acabava por acontecer. Os dois golos marcados, que fazem com que esteja no topo da lista dos melhores marcadores a par de Musiala, surgiram de grande penalidade como já tinha acontecido com o Boca Juniors mas foi dali que nasceu o rasgo individual para encontrar soluções quando o problema da falta de espaço aparecia. E, no final, como não poderia deixar de ser, houve uma corrida à caça da camisola de um dos jogadores com maior currículo que está neste Mundial de Clubes…

O joker

  • O jogo com o Boca Juniors voltou a estar longe daquilo que consegue fazer, apesar de uma ameaça de fora da área logo a abrir, mas a entrada de Renato Sanches em campo diante do Auckland City a meia hora do final acrescentou algo ao jogo ofensivo do Benfica: jogou rápido e simples a variar o centro de jogo, tentou várias vezes a meia distância que deixava a defesa contrária na dúvida entre sair ou manter a linha mais recuada e marcou um golo que pode ser importante nas contas finais do grupo C.

A sentença

  • Com a vitória diante do Auckland City, que era quase uma obrigatória perante todas as fragilidades que os neozelandeses apresentam, o Benfica ascendeu de forma provisória ao primeiro lugar do grupo com mais um ponto do que o Bayern e mais três do que o Boca Juniors, equipas que se defrontam esta madrugada (2h). Perante esse resultado, os encarnados ficarão a saber se os golos falhados podem ou não fazer falta, tendo em conta que defrontam os germânicos na última jornada do grupo C.

A mentira

  • Ponto prévio: a segurança está acima de tudo, seja nos EUA, na Europa ou em qualquer ponto do mundo. No entanto, este quarto encontro com paragem devido às condições climatéricas mostrou bem o caos que se pode gerar numa grande competição quando as balizas dos horários acabam por não ser cumpridas como previsto (o Flamengo-Chelsea, que teve início às 19h, acabou mais cedo em Filadélfia do que o Benfica-Auckland City em Orlando). Seja pelas equipas, pelos jogadores, pelos adeptos ou pelas transmissões, este é um ponto a ser revisto no Mundial de seleções em 2026.