Talvez o fosso já não seja tão pronunciado como em outros tempos mas ainda há diferenças a separar clientes dos dois lados da fronteira. Toda uma península de inspirações, entre a ondulação do mar nacional e o salero vizinho. “Em Portugal gostam de uma coisa talvez mais discreta, em Espanha algo mais extravagante, arriscam mais. Tento criar o balanço entre uma coisa que seja mais visível, e algo que fique na memória. Por maior ou menos que seja a joia, acho que gostamos que a peça marque. Mas que também não seja um semáforo”.
A marca da anfitriã, Maria Mathias Jewlery, nasceu em Lisboa há cerca de três anos mas foi em Madrid que se instalou desde o ano passado. “É onde crio as peças”, explica a joalheira que se fixou com o marido a 500 quilómetros de Lisboa e ensaia agora novo regresso. No artístico bairro de Malasaña, na capital espanhola, a maior parte dos materiais que entram no estúdio vêm de Portugal, “a minha maior inspiração”, mas também do país de acolhimento, numa simbiose que enriquece o resultado final. “Fui viver para Madrid à procura dessa mistura, para ter novos conhecimentos, novas texturas, talvez novos processos de fazer as peças. Mais do que uma marca de luxo, quero que seja uma marca com vida, que possamos partilhar. Exclusivo mas sobretudo singular”.
Maria Mathias durante a passagem recente por Lisboa © Simão Pernas
Maria começou por cursar design mas “sentia falta de alguma parte manual”. Depois de um workshop no Centro Português de Joalharia descobriu o rumo certo. “Apaixonei-me logo. À medida que ia fazendo novos exercícios, novas técnicas, ia adorando; tornar as peças um bocadinho minhas, dar um pouco da minha história, partilhar a história de alguém também numa peça, poder colocar isso tudo num anel de noivado, um namoro, um casamento, criando uma peça para durar para a vida inteira”. De passagem por Lisboa, onde apresentou boa parte das novidades, as criações estendem-se também à mesa, onde brilham as peculiares argolas para guardanapos, fiéis ao registo despojado e elegante.
A “boa” concorrência nesta área, onde se multiplicam os projetos criativos, obriga a joalheira a reforçar o estudo, procurar novas técnicas e diferenciar-se, admite. A singularidade, essa, encontra-se na porosidade das criações, nas diferentes matizes trazidas pela interação humana, escapando ao efeito serial da máquina. É por isso que por aqui, onde os preços de partida rondam os 50 euros, dificilmente encontrará duas peças idênticas. “Gosto dos erros que não são erros. Muitas vezes estou a fazer uma peça, penso que errei e de repente adorei o erro e volto a repetir, e tento descobrir como é que fiz o erro .”
© Luís Nobre Guedes
Quem a procura com uma encomenda especial, atualmente um dos seus principais segmentos, pode apresentar-se com algum esboço na algibeira ou com uma folha em branco na cabeça. A partir daí, é unir pontos até alcançar um resultado personalizado, no tempo certo. “Posso ter um noivo que me chega e diz, ‘Maria, eu sei que quero fazer isto contigo, mas não sei o quê, podes ajudar’? Procuramos inspirações e coisas de que ele gosta, o que é que a namorada faz, o que é que o namorado faz, se gosta e usa joias, tentamos chegar a algo 100% indicado, como uns brincos para uma noiva usar no dia do seu casamento”, descreve.
É possível respeitar designs já concebidos e efetuar uma simples troca de pedras para um resultado totalmente novo, sempre com a mão da designer, ou afinar ao detalhe o projeto desde raiz, partindo por exemplo de algum espólio familiar. “O primeiro anel de noivado que criei foi para um grande amigo meu, eu ainda estava no curso, muito fresquinha. Reutilizámos joias que ele tinha de família. Para mim foi o clique; é isto que eu quero fazer para o resto da minha vida, porque adorei fazer parte da vida daquelas pessoas”.
© Luis Nobre Guedes
Navegando por mostradores, sucedem-se peças em prata, peças com banho de ouro e ainda anéis em ouro de nove quilates, “um ouro mais baixo, mas muito diferente do banho de ouro, e não deixa de ser uma peça de ouro, acessível e que dura uma vida — todos eles personalizáveis, com pequenos ajustes, alterações e inscrições. Se preferir uma granada encarnada e um diamante no lugar de uma pérola e topázio, é perfeitamente possível recriar a gosto. No mostruário reservado à prata, as pedras semipreciosas juntam-se à equação. “Não há molde, fui criado um a um, que podemos transformar para um anel de aniversário para a mãe, pôr uma pedra e escrever por dentro ‘feliz aniversário’ ou colocar uma inicial”. Não há um prazo standard para criar cada peça, e claro que tudo depende do processo de recolha e cruzamento de informação, mas em regra o trabalho pode levar entre um mês e meio ou dois meses.
As versáteis escravas, com símbolos dos dois lados, cruzam-se com os pares de brincos que quase nunca surgem idênticos, com a dissonância certa, entre borboletas, flores e outras silhuetas descontraídas. “Quero que o luxo esteja na qualidade da peça e não só no preço. Às vezes confundimos o luxo com o preço, mas se tiver a técnica, se tiver a marca, se tiver o desenho, é aí que eu procuro o valor, sem dúvida.”
© Simão Pernas
Em casa de joalheira, a clássica e circular aliança é conjugada com o uso quotidiano de peças próprias, qual cartão de visita ambulante que de vez em quando também se cruza com surpresas. “Gosto muito de ver as minhas amigas com peças minhas, e de me cruzar com alguém na rua e de repente reconhecer, ‘isto é meu!'”. Em matéria de gosto, Maria confessa que a sua preferência vai para as eternas pérolas, “por mais incrível que pareça”. No seu casamento, deixou as criações próprias em modo de pausa e para o momento especial, seguindo a tradição, deixou-se inspirar joias da família. “Usei uns brincos que o meu pai me ofereceu nos meus 18 anos e uma pulseira pela qual tenho grande carinho que era da minha avó, lá está, com pérolas, que são o que mais gosto.”