Quis o destino que o primeiro duelo de sempre entre FC Porto e Al Ahly tivesse muito pouco em jogo. Muito ou pouco, consoante as diferentes perspetivas de análise. Depois do empate frente ao Palmeiras, que prometia galvanizar a equipa para confirmar o teórico favoritismo nas restantes partidas, os dragões até foram superiores ao Inter Miami na primeira parte, mas o segundo tempo não passou de uma miragem e a exibição caiu drasticamente, naquela que tem sido uma das principais imagens de marca da versão 2024/25 do emblema portista. No final, a derrota saiu cara, com a equipa de Martín Anselmi a entrar para esta última jornada obrigada a vencer os egípcios e a ter de esperar por um “milagre” para seguir em frente. Ainda assim, sair da competição a ganhar significava deixar uma boa imagem no fim de uma temporada praticamente para esquecer e amealhar mais uma série de “trocos”.

Depois de André Villas-Boas apelidar o desaire de “vergonhoso”, perspetivavam-se alterações no onze inicial de Martín Anselmi, com Nehuen Pérez e Gonçalo Borges a perfilarem-se como os principais candidatos a entrar na equipa. Ainda sem Diogo Costa — que continua a recuperar de lesão —, Cláudio Ramos mantinha-se de pedra e cal na baliza, mais ainda depois de uma partida em que evitou que o resultado negativo fosse mais expressivo. Pela negativa, as condições climatéricas adversas dos Estados Unidos voltaram a fazer das suas e, na véspera desta partida decisiva, os dragões tiveram de adiar uma das suas sessões de trabalho por conta de uma tempestade que assolou Nova Jérsia, e que levou as autoridades a acionarem o protocolo de segurança. Ainda assim, a equipa conseguiu treinar na Universidade de Rugers, onde se encontra o seu quartel-general.

“Creio que, para lá de pensar no adversário, temos de pensar em nós. Temos de competir de maneira diferente. Sentimos que no último encontro não competimos como queremos, tanto ofensivamente como defensivamente. Temos o orgulho ferido e não é esta imagem que queremos dar. Temos uma oportunidade para reverter essa imagem, contra um adversário poderoso no continente africano, que ganhou duas das últimas quatro Liga dos Campeões. Tem um bom treinador, tem jogadores dinâmicos… São tricampeões. Temos de fazer bem o nosso trabalho. Falámos muito dos nossos erros. Falamos entre nós, sabemos que nos equivocámos e não o podemos permitir. Não queremos passar pelo Mundial de Clubes com esta imagem. Sabemos que no Porto é um dia festivo, um dia importante para a cidade e queremos que a festa seja completa. Para isso temos de ganhar e dar aos adeptos essa alegria”, assumiu o treinador argentino na antevisão ao encontro.

Ficha de jogo

↓ Mostrar ↑ Esconder

FC Porto-Al Ahly (4-4)

3.ª jornada do Grupo A do Mundial de Clubes

MetLife Stadium, em East Rutherford (Estados Unidos)

Árbitro: Jesús Valenzuela (Venezuela)

FC Porto: Cláudio Ramos; Zé Pedro, Stephen Eustáquio, Iván Marcano; João Mário (Martim Fernandes, 62’), Alan Varela (Gonçalo Borges, 46’), Fábio Vieira (Gabri Veiga, 68’), Francisco Moura; William Gomes (Pepê, 68’), Danny Namaso (Samu Aghehowa, 46’) e Rodrigo Mora

Suplentes não utilizados: Diogo Fernandes; Otávio Ataíde, Zaidu Sanusi, Vasco Sousa, André Franco, Nehuen Pérez, Tomás Pérez, Deniz Gül, Ángel Alarcón e André Oliveira

Treinador: Martín Anselmi

Al Ahly: Mohamed El-Shenawy; Mohamed Hany, Achraf Dari, Ahmed Ramadan, Ahmed Koka; Zizo, Ali Ben Romdhane (Afsha, 87’), Hamdi Fathi (Aliou Dieng, 35’), Hussein El Shahat (Omar Kamal, 58’); Trezeguet (Achraf Bencharki, 58’) e Abou Ali (Nejc Gradisar, 58’)

Suplentes não utilizados: Mohamed Seha, Mostafa Ahmed, Mostafa Makhlouf; Khaled Mohamed, Yasser Ibrahim, Karim El Debes, Mostafa Al Aash, Yahia Allah, Reda Slim e Taher Mohamed

Treinador: José Riveiro

Golos: Abou Ali (15’, 45+2’, g.p. e 51’), Mora (23’), William Gomes (50’), Samu (53’), Ben Romdhane (64’) e Pepê (89’)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Hany (25’), Ramadan (54’), Bencharki (60’), Dari (68’) e Luis Pastur (adjunto, 74’)

Para esta partida, Anselmi promoveu três alterações no onze inicial, com Stephen Eustáquio a saltar para o onze, por troca com Martim Fernandes. No ataque, William Gomes e Danny Namaso foram os escolhidos para atuar ao lado de Rodrigo Mora, com Gabri Veiga e Samu Aghehowa a começarem a partida no banco de suplentes. Nos diabos vermelhos, José Riveiro optou por alterar o esquema tático e lançar de início Ahmed Ramadan, Ahmed Koka e Hussein El Shahat.

Com o Al Ahly a jogar praticamente em casa no Hard Rock Stadium que, ainda assim, se apresentou bastante vazio, o 4-4-2 de Anselmi, com Eustáquio ao meio, Fábio Vieira na direita e Mora ao lado de Namaso, poucas dificuldades causou a uma equipa egípcia que entrou a dominar e com mais incursões no ataque. Ainda assim, a primeira oportunidade foi dos dragões, com João Mário a isolar Mora depois de um canto, mas o português não conseguiu finalizar em condições (14′). No lance seguinte, Namaso falhou um passe e deixou a bola nos pés de Hamdi Fathi, que só teve de conduzir e servir Abou Ali para o golo inaugural (15′). O FC Porto reagiu bem ao golo sofrido e, no espaço de um minuto, William quase empatou, atirando primeiro à trave (19′) e depois para defesa de Mohamed El-Shenawy (20).

Com o Inter Miami a ajudar a equipa portuguesa na sua missão e já depois de o Al Ahly ter tido um golo — bem — anulado, os portistas construíram uma grande jogada pelo meio, com Zé Pedro a servir João Mário e o português a entregar para Namaso que, depois de rodar sobre um defesa, deixou para Rodrigo Mora fazer das suas. O jovem português partiu para cima de dois defesas, ultrapassou-os com alguma sorte no ressalto e, perante a oposição de El-Shenawy, fintou-o e fez o empate (23′). A resposta egípcia apareceu já nos últimos minutos da primeira metade, com Zizo a driblar João Mário e Zé Pedro antes de tentar um golo de bandeira que saiu ao lado (39′). No lance seguinte, o avançado voltou a ter espaço dentro da área, mas atirou para as mãos de Cláudio Ramos (40′). Em cima do intervalo, Vieira derrubou Zizo dentro da área e, na cobrança, Abou Ali bisou (45+2′).

Para a etapa complementar, Anselmi apostou em Gonçalo Borges e Samu, retirando Alan Varela e Namaso, e a reação foi praticamente imediata, com William a apontar um golaço, com um remate em arco de pé direito, nos instantes iniciais (50′). A partida entrou, então, num ritmo frenético e, no ataque seguinte, Abou Ali fez o hat-trick de cabeça (51′). Em nova resposta, Fábio Vieira cobrou um canto da direita para o segundo, onde Samu apareceu a ganhar nas alturas e a golpear para o empate a três bolas (53′). Pouco depois, o médio emprestado pelo Arsenal assumiu a cobrança de um livre dentro da meia-lua, mas o remate saiu por cima (54′). Já com Martim Fernandes no lugar de João Mário, os golaços continuaram a aparecer, agora para o lado egípcio, com Ali Ben Romdhane a receber à entrada da área e a desferir um grande remate em arco para o 3-4 (64′).

Com o jogo cada vez mais partido, Gabri Veiga e Pepê foram as últimas opções a saírem do banco, Borges tentou de longe, com mais um remate em arco, mas El-Shenawy defendeu para canto (76′). Pouco depois, o extremo cruzou bem para o segundo poste e, completamente sozinho, Samu atirou de cabeça ao lado, com tudo para fazer melhor (83′). Na ponta final do desafio, Gabri Veiga encontrou Pepê solto de marcação ao meio e, de fora da área, o brasileiro desferiu um remate colocado de pé direito para novo empate (89′). Apesar da eliminação das duas equipas, o jogo continuou eletrizante até ao fim, mas não houve tempo para ninguém voltar a desatar o nó (4-4).

A pérola

  • Não é todos os dias que se apontam três golos numa competição como Mundial de Clubes. Esta foi a noite de Abou Ali, um avançado cheio de oportunismo que, ao serviço do Al Ahly, tem mais golos do que jogos. Só ficou a faltar o apuramento para coroar uma exibição para mais tarde recordar.

O joker

  • William Gomes foi a principal figura desta última versão do FC Porto em 2024/25. É certo que só chegou em janeiro, mas fica a ideia que o brasileiro merecia mais oportunidades. Frente ao Al Ahly, o extremo mostrou toda a sua qualidade com bola e deixou a partida com um golo de antologia.

A sentença

  • As contas são simples e acabam por resultar na eliminação das duas equipas, que rumam a Portugal e ao Egito com apenas dois pontos na bagagem.

A mentira

  • Pode um jogo com oito golos e discutido do primeiro ao último minuto não contar para nada? Pode. A expressão é demasiado redutora, mas o que é certo é que o jogo desta terça-feira pouco ou nada conta no que à competição diz respeito. Esperava-se um jogo totalmente em aberto e os protagonistas não defraudaram a expetativa, lutando pela vitória até ao fim.