Uma exposição de desenho e o primeiro lugar num concurso de poesia são algumas das conquistas dos jovens que frequentam a associação fundada pelo artista Dino D`Santiago.
O artista Dino D`Santiago lança em outubro um livro com textos escritos durante as insónias da paternidade, no qual partilha as suas cicatrizes, sendo a maior de todas a memória de quando o exército apontou armas à sua família.
“Essa imagem é a imagem mais horrível que eu tenho e que eu não consigo apagar, nem com tantas terapias; e não consigo perdoar também”, diz à agência Lusa, a propósito do livro “Cicatrizes”.
Trata-se de um conjunto de cerca de 80 textos, de um universo de 200 que foi desenvolvendo durante o seu processo psicoterapêutico e a fase pré e pós paternidade, além dos “encontros e desencontros” consigo próprio.
Textos escritos nas madrugadas após o nascimento da filha, em que Dino D`Santiago despertava e a mente “começava a ferver”.
“Entre a uma e as seis da manhã fui escrevendo, sem pensar que iria escrever um livro. Fui escrevendo, fui pintando mais de 70 obras e escrevendo canções”, conta.
Dino tem atualmente três álbuns gravados e ainda está a pensar como os vai editar, estando convencido que terão muita conexão com o Brasil.
A aventura literária será publicada em outubro e em 13 de dezembro, dia do seu aniversário, serão expostas pela primeira vez as 70 obras que desenhou.
“É mais um caminhar sobre as minhas cicatrizes e um fechar de feridas abertas na infância”, diz, ressalvando que ficaram de fora as mais viscerais, que eram os seus exercícios de purgar, no âmbito do seu processo psicoterapêutico.
Questionado sobre a sua mais dolorosa cicatriz, o cantor fecha os olhos e, como a acordar de um transe, responde de rompante: “A que doeu mais, porque também envolveu a minha família e doeu mesmo muito e não se curou até hoje, foi o dia em que o exército invadiu a nossa casa, ali nos anos 90 [do século XX]”.
“O meu pai tinha ido trabalhar às seis da manhã, eles arrombaram a nossa porta e ver a minha mãe a chorar e depois, quando fomos para a escola, eles apontarem-nos as G3 e a abrirem as nossas mochilas e ver a minha irmã a chorar e o meu irmão a chorar, essa é uma imagem que eu não perdoo ao país que me viu nascer, nunca”.
“Foram cruéis. E quando o meu pai chegou, veio de Vilamoura a correr até lá a casa, e foi a pessoa que ‘peitou’ estes guardas a dizer: Somos pessoas de fé, nós não temos nada, podem procurar o que quiserem, mas aqui não vão encontrar nada, mas vocês não têm o direito de fazer o que fizeram”, prosseguiu.
Filho de pais cabo-verdianos, da ilha de Santiago, Dino nasceu em Portugal e cresceu no Bairro dos Pescadores, um antigo bairro degradado da cidade algarvia de Quarteira, cujas últimas barracas foram demolidas em 2011.
A escassez marcou a sua infância e para ajudar os mais desfavorecidos fundou, com Liliana Valpaços, a associação Mundu Nôbu, destinada a ajudar jovens de comunidades menos representadas a atingirem todo o seu potencial, através da educação, da participação cívica e da celebração cultural.
A Mundu Nôbu terá em breve a funcionar “um braço” em Cabo Verde, que será sedeado na capital, Praia, com a filosofia adaptada à realidade do arquipélago, mas com o mesmo objetivo: “Trabalhar a auto eficácia e a autoconfiança dos jovens”, disse.
O autor de “Nova Lisboa”, que interpretou com Madonna o tema “Sodade”, de Cesária Évora, tem também novos projetos musicais prontos. A lusofonia e o crioulo estarão presentes nestas obras.
Jovens cumprem sonhos à velocidade da luz no mundo novo de Dino D’Santiago
Uma exposição de desenho e o primeiro lugar num concurso de poesia são algumas das conquistas dos jovens que frequentam a associação fundada pelo artista Dino D`Santiago, onde há um ano chegaram para contrariar a desvantagem das suas origens.
A Mundu Nôbu foi criada para ajudar jovens de comunidades menos representadas a atingirem todo o seu potencial. São cerca de cem os que, entre os 500 que se inscreveram, estão há um ano nesta fábrica de sonhos, onde também se ajuda a ultrapassar pesadelos, como o racismo e a discriminação.
O músico e compositor Dino D´Santiago é o presidente da associação, que fundou com Liliana Valpaços, e, em entrevista à agência Lusa, reconhece que é mais o que aprende do que o que ensina, embora saiba a importância que tem como inspiração e uma prova de que, mesmo quem vem de um ambiente desfavorecido, pode chegar longe, ainda que mais devagar.
O artista entusiasma-se ao falar destes jovens que muitas vezes vêm de lugares “onde até sonhar é um privilégio”, mas que neste Mundu Nôbu se apercebem que, “mais do que poderem sonhar, têm muitas ferramentas e muita gente à volta que prospera com eles e que, de forma subjetiva, vai trabalhando cada sonho”.
“Um quer seguir a área de jornalismo, nós conseguimos um estágio; outra quer seguir diplomacia e, passado um tempo, já está a falar sobre diplomacia com o Presidente da República, que a incentiva”, diz.
Neste espaço há jovens que gostam de poesia e ali encontraram um workshop de escrita criativa. Muitos saíram do país pela primeira vez e um deles representou Portugal em Osaka, na maior expo a nível mundial e com um poema da sua autoria.
E há a Abigail, 19 anos, que sempre adorou artes e já conseguiu expor na FNAC alguns dos seus trabalhos.
À Lusa, conta que a associação lhe proporcionou o contacto com “diversos povos, diversas naturalidades, diversas realidades”.
“Isso abre-me a mentalidade para poder ter mais inspiração e não só, mas também para poder fazer aquilo que mais gosto, que é desenhar”, adianta.
Raquel tem 18 anos, quer seguir jornalismo e acredita que a Mundu Nôbu já a ajudou a concretizar este sonho, sublinhando que o que a associação propõe acrescenta à sua vida o que lhe faltava.
Leonor, 16 anos, identificou nos objetivos da associação uma grande diferença em relação a todas as outras. Além de sonhar ser bailarina, desenha e gostava de ter uma empresa de arquitetura.
Sobre Dino D`Santiago, diz que a faz acreditar nos seus sonhos. “Ele mostra-me que, independentemente da minha realidade, nós podemos alcançar os nossos sonhos”.
Também Diana, 17 anos, sublinha os “bons resultados” desde que decidiu “atirar-se de cabeça” e inscrever-se neste mundo novo. Dos muitos convidados que já foram à associação — empresários de origem lusófona, artistas, desportistas, cantores -, a jovem recorda particularmente a atriz Rita Pereira. “Ela mostrou a vontade dela e deixou em mim e nos outros jovens o bichinho de acreditar”.
Para Dino D´Santiago, os sonhos destes jovens têm sido concretizados “à velocidade da luz”, para o que terão contribuído pequenas grandes apostas, como a localização da associação numa zona nobre de Lisboa e não nos bairros onde residem.
O autor de temas como “Nova Lisboa” e “Crioula” alerta para as dificuldades destes jovens, oriundos de bairros periféricos e, na sua grande maioria, provenientes de famílias muito disfuncionais e precárias.
“Nos nossos bairros sociais continuamos a ter casas sem luz, continuamos a ter casas sem água, continuamos a ter crianças que vão com fome para a escola porque não há, continuamos a ter crianças cujos grandes inimigos são os irmãos que disputam o pouco que existe no frigorífico”.
No Mundu Nôbu, os técnicos que acompanham estes jovens estão disponíveis 24 horas por dia, além de uma psicóloga. Partilham alegrias e tristezas, até porque há questões viscerais, como o racismo.
“Todas estas crianças partilham coisas horríveis que vivem nos seus lares”, disse, enaltecendo a capacidade de acreditarem no futuro, como o Edgar, que perdeu a mãe há pouco tempo e o pai vive em Angola. Tem muito pouco dinheiro mensalmente, vive sozinho, estuda e quer formar-se na área da política.
Edgar Domingos foi o grande vencedor do concurso literário que levou um jovem desta associação a representar Portugal na Expo Osaka, no Japão. Ele não pode ir, porque tem o processo de legalização em curso. Foi Francisco Vieira, que arrebatou a audiência com um poema que pergunta e responde: “E a seguir Portugal? É fazer acontecer!”.
O artista destaca a importância das relações entre os jovens. “De todo o projeto, o que eles mais gostam é dos momentos de partilha”.
“O facto de eles se sentirem ouvidos faz com que num silêncio absoluto, enquanto cada um fala, eles sintam cada vez mais que isto é uma casa onde podem libertar-se da sua vulnerabilidade”, diz.
E temas difíceis não faltam, como o triplo homicídio no Bairro do Vale, em Lisboa, no qual foi morto um barbeiro, pai de um dos jovens da Mundu Nôbu.
Mas também a morte de Odair Moniz, na Cova da Moura, e os corpos dos imigrantes asiáticos encostados pela polícia na Rua do Benformoso, episódios que os marcaram muito e sobre os quais técnicos e psicóloga tiveram de trabalhar.
Às polémicas que envolvem imigrantes e nacionalismos, os jovens respondem: “Eu vou provar o meu valor, eu vou provar que estou acima da cor que tu vês e achas que é inferior à que tu neste momento tens”, diz o músico.
Ângela Almeida, monitora social na associação, diz que olha para trás e para tudo o que lhe falhou e faltou para poder encontrar o que dar a estes jovens.
Destaca positivamente o contacto interpessoal dos jovens e vê neles “um futuro muito risonho, completamente diferente daquilo que eles próprios trouxeram”.
“Eu acredito que estes jovens, cuja mente já está a ser mudada, também vão querer mudar a mente de outros jovens”, diz.
José Vaz, outro dos monitores, diz que foi surpreendido com a capacidade dos jovens em se adaptarem.
“Aquilo que nós passamos para os jovens é confiança”, refere, acrescentando que a missão fica cumprida quando eles acreditam do que são capazes, que é muito.