A preparação para uma fase a eliminar de uma grande competição obedece a uma série de critérios para que nada falte. A gestão da parte física, o cuidado com a questão disciplinar, a preparação da equipa à luz daquilo que é o adversário, a possibilidade de tudo ficar adiado para o prolongamento ou mesmo o desempate por grandes penalidades. No caso do Inter-Fluminense, havia algo mais para preparar: o tempo. E sendo um encontro disputado em Charlotte, onde Benfica e Chelsea experienciaram uma rábula que foi tudo menos inédita nos EUA ao terem de recolher aos balneários quando faltavam apenas cinco minutos para o tempo regulamentar, todas as preocupações estavam focadas no calor (35º) e na possibilidade de nova interrupção a meio tendo em conta que existiam previsões meteriológicas a apontar para a possibilidade de trovoada. Se tantas vezes vemos jogadores a olhar para cima em busca de inspiração divina, agora era mais do que isso.

Inter-Fluminense. German Cano coloca Flu na frente (0-1, 3′)

Antes, elogios de parte a parte e aquela sensação de querer provar “algo”. No caso do Inter, agora com Chivu no comando depois da saída de Simone Inzaghi, estava em cima da mesa a possibilidade de deixar para trás a ideia de uma época falhada com decisões perdidas à última na Serie A, na Taça e na Champions. Já no lado do Fluminense, após as derrotas de Botafogo e Flamengo, era também a “honra” dos clubes brasileiros que estava em causa depois de uma fase de grupos onde todos conseguiram ficar apurados. E era no encaixe entre as duas equipas que se escreveria a história de um encontro com favoritismo para os transalpinos.

“O Fluminense é uma equipa com qualidade, experiência e intensidade. O jogo contra o River Plate foi útil para nós porque nos obrigou a mudar de ritmo, esse foi um aspeto positivo. Agora teremos de fazer a mesma coisa. Precisamos estar preparados, entender os momentos do jogo. Considerando o que fizemos em Seattle, acho que estamos prontos e à altura do desafio. Temos de evitar erros próprios e aproveitar os erros dos outros”, apontara Chivu. “Sabemos da qualidade dos europeus e que no momento em que começam a entrar de vez na competição, ficam muito fortes. Mas isso é tudo uma coisa no papel. Eles são letais, não podemos vacilar nem dar mole”, salientara Renato Gaúcho. A questão do “erro” era o ponto comum entre ambos.

Ao primeiro deslize, 1-0. Depois de uma entrada com um susto à mistura numa atraso para Sommer, o Fluminense aproveitou a total passividade da defesa transalpina para inaugurar o marcador pelo veterano Germán Cano, a aparecer na pequena área depois de um cruzamento da direita de Jhon Arias com Dumfries e o guarda-redes suíço a ficarem a defender com os olhos entre o desvio de cabeça do avançado (3′). Mais do que as dificuldades que os brasileiros conseguiam colocar pelos bloqueios nas zonas de construção, o atraso no marcador não fazia bem aos nerazzurri, que tiveram apenas um remate de Di Marco para defesa de Fábio nos 20 minutos iniciais (11′) entre muita posse de bola mas longe do último terço com Laurato e Thuram.

Ainda haveria mais uma oportunidade de relativo perigo para o Inter, com Mkhitaryan a recuperar uma bola perdida no meio-campo por Nonato e a fazer o cruzamento largo ao segundo poste para o remate por cima de Marcus Thuram quase sem ângulo por cima (24′). No entanto, era o Fluminense que mostrava um maior conforto em campo, controlando todos os momentos do jogo e ficando perto do segundo antes da paragem para hidratação com Cano a ganhar uma segunda bola, Arias a rematar para nova defesa incompleta de Yann Sommer e Samuel Xavier a fazer passar a recarga muito próxima do poste (30′). Só mesmo de bola parada o Inter criava perigo, com Di Marco a rematar forte mas à figura num livre direto (37′), e o cenário poderia ser ainda pior ao intervalo caso um lance em que Ignácio marcou na sequência de um esquema tático não fosse anulado por fora de jogo (40′). Chivu tinha muito trabalho pela frente para “resgatar” o encontro.

A segunda parte começou sem alterações, com o Inter a acreditar que seria possível dar a volta ao resultado mudando posicionamentos tendo pela frente um Fluminense que podia sair mais ou menos em transições mas que nunca se “desmontou” em termos de organização defensiva. Contudo, seria uma questão de poucos minutos: Luis Henrique, Carboni e Sucic entraram em campo para tentar mexer com o jogo ofensivo dos nerazzurri, os brasileiros estiveram perto do 2-0 com Sommer a ter uma defesa fantástica a remate de Jhon Arias (64′) mas, já com Esposito também no jogo, ainda houve uma reação com de Vrij, após assistência de Lautaro Martínez, a falhar sozinho na pequena área o empate (68′) e Di Marco a fazer passar um livre direto a rasar o poste da baliza de Fábio (75′). A pausa para hidratação chegava com o Flu em quebra física.

Estava na hora de “entrar” em cena Lautaro Martínez, o mais inconformado com a desvantagem. Em três tentativas, nenhum golo: primeiro ganhou espaço na área para um remate que saiu fraco e à figura de Fábio (77′), depois apareceu de rompante ao primeiro poste a fazer o desvio após cruzamento de Esposito para uma grande intervenção por instinto do guarda-redes brasileiro (79′), por fim ganhou espaço após um trabalho individual na área mas o remate de pé esquerdo bateu no poste e passou perto da linha sem entrar (81′). O Inter tentava tudo mas seria o Fluminense a resgatar ainda uma última vida para o 2-0, com Hércules a aproveitar uma segunda bola após lançamento lateral para rematar rasteiro de pé esquerdo à entrada da área para bater Yann Sommer e carimbar em definitivo o triunfo dos brasileiros (90+3′) apesar de mais uma bola na trave dos nerazzurri, agora com Di Marco a arriscar o remate de fora da área (90+6′).

A pérola

  • Jhon Arias anda há muito a ser cobiçado por clubes europeus, tendo mesmo havido sondagens ainda exploratórias do FC Porto que nunca se transformaram em propostas concretas, a chegada ao Velho Continente parece uma questão de tempo mas, até lá, o colombiano continua a provar o porquê de ser um dos jogadores com mais mercado da América do Sul, fazendo mais uma grande exibição com a assistência para o golo de Germán Cano e vários lances de perigo que foram deixando a defesa do Inter em sentido entre um grande remate de fora da área que só não deu golo pela grande defesa de Sommer.

O joker

  • Thiago Silva, Germán Cano e Fábio voltaram a traçar uma linha distintiva entre experiência e veteraria sob condições que eram tudo menos agradáveis perante os mais de 30º em Charlotte. O avançado de 37 anos voltou a mostrar o sentido de oportunidade para inaugurar o marcador logo no terceiro minuto, o central de 40 anos foi sempre o grande baluarte de toda a organização defensiva do Fluminense e o guarda-redes de 44 anos segurou o triunfo nos últimos minutos, com um par de defesas que evitaram o empate de Lautaro Martínez antes de Hércules fechar o encontro com o 2-0.

A sentença

  • O Fluminense conseguiu surpreender o Inter, está nos quartos do Mundial de Clubes vai agora defrontar o vencedor do encontro entre Manchester City e Al Hilal, que se realiza esta madrugada. Já em relação aos vice-campeões europeus, chega ao fim uma temporada do “quase”, com muito por fazer durante a pré-temporada para recolocar a equipa de novo a discutir todos os troféus em disputa.

A mentira

  • Foi-se criando muito a ideia de que o Brasil está dependente de treinadores estrangeiros, sobretudo os europeus, para que as suas equipas consigam dar o passo em frente em termos táticos. Títulos como os campeonatos ganhos pelo Flamengo, pelo Palmeiras ou pelo Botafogo, todos com técnicos portugueses, até podiam confirmar a ideia mas a forma como Renato Gaúcho montou a equipa para entroncar na forma de jogar do Inter mostrou que nem tudo tem de ser assim. O antigo avançado brasileiro já passou por vários conjuntos brasileiros, ganhou títulos no Fluminense e sobretudo no Grémio, tem algumas finais perdidas mas deu mais um exemplo de que tem evoluído com o tempo, aproveitando também a experiência de alguns jogadores para preparar um conjunto capaz de travar uma das melhores equipas europeias da temporada… mesmo que não tenha também ganho nenhum troféu em 2024/25.