Morreu esta sexta-feira aos 89 anos o general Amadeu Garcia dos Santos, antigo chefe do Estado-Maior do Exército. A notícia, inicialmente avançada pelo Correio da Manhã, foi confirmada pelo Observador junto de fonte oficial do Exército. Garcia dos Santos, que participou na revolução do 25 de Abril, morreu em sua casa.

Nascido em Lisboa em 1936, Garcia dos Santos foi uma figura preponderante na revolução, assumindo a responsabilidade pelo planeamento e coordenação do setor das transmissões. Já depois do 25 de Abril, viria a ser secretário de Estado das obras públicas no I Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves.

Ao longo da sua carreira militar, foi também chefe da Casa Militar do Presidente da República Ramalho Eanes e, no início da década de 1980, ocupou o mais alto cargo do Exército. No tempo do Governo de António Guterres, foi ainda presidente da Junta Autónoma de Estradas.

Garcia dos Santos entrou na Escola do Exército em 1953, ao mesmo tempo que Ramalho Eanes. Anos mais tarde, já perto dos 38 anos, teve contacto com os jovens capitães que, na altura, se começavam a organizar num movimento de descontentamento em relação à guerra colonial. Como recordou o próprio em entrevista ao Público em 2023, foi convidado para assistir às reuniões do movimento dos capitães, no seio das quais se desenvolveram os planos para a revolução que viria a mudar o rumo do país.

Foi Otelo Saraiva de Carvalho, o responsável operacional da revolução, que o convidou para assegurar as transmissões. “Eu conhecia muito bem o Otelo Saraiva de Carvalho, e porque eu era de Engenharia — nessa altura ainda não havia a arma das transmissões, as transmissões pertenciam à Engenharia. Toda a parte das transmissões estava comigo”, lembrou ao Público. “O Otelo veio ter comigo e diz-me: ‘Eh, pá, tens de fazer tu o plano da parte das transmissões.'”

Mais tarde, já depois da revolução, quando Ramalho Eanes foi eleito Presidente da República, chamou Garcia dos Santos para chefiar a sua Casa Militar. “Estive cinco anos com ele. É, de facto, um homem fora de série. Excecional”, assinalou Garcia dos Santos na mesma entrevista. Posteriormente, como presidente da Junta Autónoma de Estradas, foi uma figura central na denúncia da corrupção no Estado português.

Mais recentemente, entraria em rota de colisão com Cavaco Silva, Presidente que acusou de ser “um cobarde e uma nulidade completa”. Em 2014, o general Garcia dos Santos demitiu-se do cargo de vogal do Conselho das Ordens Nacionais, consolidando a rutura com Cavaco Silva. Na altura, disse que estava apenas a ser “coerente” com as críticas que tinha feito a Cavaco nas comemorações do 25 de Abril.

“Como me insurgi contra ele e como estou num cargo que depende dele, achei que não posso ser incoerente”, afirmou, dizendo que Cavaco Silva “é o principal culpado pela situação do país”. Para Garcia dos Santos, Cavaco “sabia perfeitamente como devia pôr cobro à situação que o país atravessa”.

Na citada entrevista ao Público, em 2023, disse não gostar “desse homem nem pintado”.

“Disse-o mais do que uma vez. Houve uma vez, eu já estava na reserva, fui a uma cerimónia fardado de propósito. E no fim da cerimónia havia a sessão dos cumprimentos. O Presidente da República estende-me a mão para me cumprimentar e eu fico a olhar para ele e ele de mão estendida. Aquilo foi um silêncio de morte. O Presidente da República de mão estendida e eu a não ligar-lhe nenhuma. A certa altura, faço direita volver e cumprimento o militar que estava lá. No almoço a seguir discutiram se haviam de me mandar prender por desrespeito ao Presidente da República”, contou.

Marcelo lembra “uma das figuras fundamentais do 25 de Abril”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, divulgou uma nota de pesar pela morte de Garcia dos Santos, sublinhando que recebeu “enorme tristeza a notícia do falecimento” do militar e enviando “à família enlutada, nesta hora difícil, as sentidas condolências”.

“Constituiu-se como uma das figuras fundamentais do 25 de Abril e, mais tarde, no exercício de altos cargos militares, foi Chefe da Casa Militar do primeiro Presidente da República eleito após o 25 de Abril, foi ainda General Chefe do Estado-Maior do Exército, servindo dedicadamente a instituição militar”, escreveu Marcelo.

“Portugal perdeu uma referência do momento inicial e do avanço para a consolidação do 25 de Abril e da então Democracia nascente”, acrescentou.

Nuno Melo enaltece papel do general no 25 de Abril e 25 de novembro

O Ministério da Defesa Nacional também lamentou a morte do general Garcia dos Santos, enaltecendo a sua participação no 25 de Abril de 1974 e no 25 de novembro do ano seguinte. Numa mensagem publicada na rede social ‘X’, antigo Twitter, o ministério tutelado pelo presidente do CDS-PP, Nuno Melo, lamenta profundamente a morte do general, “que participou ativamente no 25 de Abril e no 25 de Novembro”.

“Neste momento difícil enviamos as nossas sentidas condolências à família e ao Exército Português”, lê-se na nota.

Montenegro relembra “legado militar e cívico de grande valor”

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, enalteceu igualmente o seu “legado militar e cívico de grande valor”. “O General Amadeu Garcia dos Santos, antigo Chefe de Estado Maior do Exército e Militar de Abril, deixa-nos um legado militar e cívico de grande valor, marcado pelo amor à Pátria e pelo serviço a Portugal”, lê-se numa publicação na sua conta oficial na rede social X.

O chefe do executivo português endereça “sentidas condolências” à família e amigos em seu nome e do Governo português.