“Pensei que era um scam”, ri-se Maria Carlos Baptista sobre a abordagem da fadista Carminho em 2021. A jovem designer tinha vencido o concurso Bloom alguns meses antes e dava os primeiros passos no mundo da moda. “Vi umas fotos dela na internet e apaixonei-me. Enviei uma mensagem no Instagram“, conta a cantora, numa conversa intimista na Quinta do Bomfim, com vista para o Douro, no primeiro dia do Portugal Fashion. “Não vejo nenhuma separação na forma como me apresento como cantora das minhas roupas. É também comunicação, é parte da arte, da expressão”, afirma Carminho, a usar uma espécie de poncho cinza claro assimétrico com gola alta e uma abertura que deixa as calças pretas visíveis — o estilo que já se tornou inconfundível e que marca a parceria entre duas artistas que já dura há cerca de quatro anos.
Horas antes da talk, Carminho chegou na Quinta do Bomfim num visual discreto, em calções azuis e top branco. Deparou-se logo com uma equipa de reportagem de televisão — mas interpelada com a sugestão de uma entrevista, desconversou logo: “Queria ver a Maria, não está aqui a Maria?”, encontrando assim uma forma de se retirar do meio dos jornalistas. Mais tarde, a tentativa de se misturar na multidão parece que ganha uma explicação. A fadista descreve o seu gosto particular como “clássico, andrógino, místico e escondido”. “Ao esconder-se, sinto que deixo as pessoas com vontade de ver mais”, justifica Carminho. “O que temos em comum é a expressão como uma extensão do ‘eu’. A Carminho expressa-se através da música e eu através da roupa“, diz Maria Carlos Baptista. “Há uma conexão entre nós”, garante ainda, por entre olhares, elogios e sorrisos. A sincronia é tanta que uma completa a frase da outra. “Primeiro achava que estava a trabalhar para uma musa. Mas agora sinto que tudo desenvolveu, foi mais profundamente. Crio para a Carminho mas trocamos ideias. Sinto-me no palco quando ela usa minhas peças.”
▲ Nos bastidores, Maria Carlos e Carminho estiveram sempre a conversa. A designer ajeita os últimos detalhes do visual
IGOR MARTINS/OBSERVADOR
Da Primark ao Bloom, até os palcos do mundo todo
Maria Carlos Baptista trabalhava como lojista Primark quando venceu o concurso Bloom em outubro de 2020. Hoje é designer na Parfois, trabalho que concilia com as criações sob encomenda e a parceria com Carminho. “No início estava muito preocupada com crescer, mas já não sinto que tenho essa pressa. O processo tem sido muito feliz, estou a saber saborear. Trabalhar por encomenda dá me imenso prazer e o meu trabalho com a Carminho já está a ocupar bastante o meu tempo. Mas é claro que adorava estar à frente de uma grande maison, ser diretora criativa”, diz ao Observador.
A designer entra este ano numa espécie de incubadora da plataforma Bloom, promovida pelo Portugal Fashion, e vai passar por um trabalho próximo com os Marques’Almeida. Marta Marques e Paulo Almeida devem ajudar Maria e outros dois bloomers (Veehana e Arieiv) desde o processo criativo até a parte do negócio — trazendo a experiência de anos e do mercado internacional. Com o empurrão, Maria tem a expectativa de crescer a marca. Rejubilei. Fiquei como é óbvio, muito contente. Lembro-me de estar na escola e falar dos Marques’Almeida como referência. São portugueses e exemplo de êxito no estrangeiro”, diz Maria, que agora segue com a mentoria da dupla. “A intenção é apresentar uma nova coleção. No último ano não houve Portugal Fashion, foi uma fase turbulenta, não havia garantias. Como estava habituada com o calendário de março e outubro, não ia conseguir concretizar para julho. Mas quero voltar a trabalhar coleções, faz parte também do projeto com a incubadora”, assume, afirmando que pode passar a criar apenas uma coleção por ano, que se encaixe no calendário anual do evento do Porto. “Prefiro o produto intemporal, clássico, mas que tenha qualquer coisa de contemporâneo. Não estou a procura de estar a frente das tendências.”
Sobre o apoio da fadista na sua carreira de designer, Maria Carlos Baptista diz que Carminho é “muito impulsionadora. “Quando recebi o convite para o Portugal Fashion não tinha coleção para apresentar, estava insegura com isso. Mas o meu momento foi muito bonito. Quando eu lhe apresentei esta ideia de ela vir fazer o Portugal Fashion ela mostrou-se super pronta”, diz a designer.
“Se o teatro pegar fogo, ela pode correr?”
Desde o início da parceria que Carminho usa quase que exclusivamente criações de Maria Carlos Baptista em palco. “A primeira coisa que penso é: se o teatro pegar fogo ela pode correr?”, ri-se a designer, que depois explica. “Ela precisa respirar, estar confortável e mover-se bem“, diz, afirmando que a experiência prévia como bailarina ajuda-a a perceber o que é mesmo importante em cima do palco. A fadista concorda: “Faz vestidos tão práticos para cantar. Estar no palco não é como estar numa festa. Não tenho ferro nos bastidores, por exemplo. Então o vestido não deve precisar de ser engomado. São detalhes que são tão importantes.”
▲ O visual de Carminho precisa garantir conforto, praticidade e movimento em palco. Os tecidos não precisam de ser engomados
IGOR MARTINS/OBSERVADOR
Outro ponto importante é o papel do vestido na composição do concerto. “Faço o design de luzes dos meus concertos, e saber o design da roupa é muito importante para construir as ideias do que será visto depois. Portanto é essencial esta colaboração, que a Maria saiba como estará a luz e as cores”, explica Carminho. As duas garantem que a troca é constante, mas a designer reforça que procura dar um toque da própria identidade ao visual da fadista. “O que me ajudou a criar a minha imagem foi ser verdadeira comigo mesma.”
Para além do conforto em palco há ainda a componente dramática. “Sempre penso: como posso fazê-la ficar maior?”, questiona Maria Carlos, que justifica que a roupa não se pode sobrepor à arte. Questionada se escolheu Maria Carlos Baptista por ser portuguesa, Carminho é direta: “Visto Maria porque acredito nela e na nossa conexão, porque me sinto poderosa e consigo expressar-me. Mas é claro que amo dizer que ela é portuguesa.” A fadista termina a afirmar que acredita que “lealdade é importante”, e que não costuma usar roupas de outros designers: “Achei a minha alma gêmea”.
O Observador está instalado no Porto à convite do Portugal Fashion.