Em 2008, o realizador inglês Mike Leigh fez um filme chamado Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky, no original) que tem como personagem principal uma professora primária de 30 anos chamada Poppy (Sally Hawkins), e que é uma otimista inoxidável (alguns diriam mesmo insuportável). Onde quer que vá, Poppy espalha alegria, boa disposição, exuberância, compreensão e benevolência, não havendo situação complicada nem pessoa deprimida que destruam o seu espírito positivo, abalem a sua afabilidade ou minem a sua crença que o ser humano veio a este mundo para ser feliz.

Poppy está nos antípodas de Pansy (Marianne Jean-Baptiste), a protagonista de Verdades Difíceis, o novo filme de Mike Leigh (que já dirigiu a atriz em 1996, em Segredos e Mentiras). E se Poppy conhecesse Pansy, era bem possível que o seu otimismo ficasse amolgado pela primeira vez — e também pela primeira vez perdesse a paciência com um semelhante de feitio difícil. Aliás, chamar-lhe “difícil” fica muito aquém da realidade. É que Pansy é a pessoa mais insuportável do mundo. E ai de quem tem que levar com ela todos os dias, como Curtley (David Webber), o seu calado e resignado marido, um canalizador, e o filho Moses (Tuwaine Barrett), um matulão monocórdico que passa o dia a preguiçar e a sofrer os ralhos da mãe, que como lhe tolheram a vontade.

[Veja o “trailer” de “Verdades Difíceis”:]

Pansy acorda aos gritos, embirra absolutamente com tudo e todos, dentro e fora de casa, e só vê defeitos em todas as coisas e pessoas — inclusive as felizes. Toda ela é raiva, agressividade, hipocondria e auto-piedade, e quem quer que esteja no seu raio de ação é um alvo privilegiado, seja a sua sofrida dentista, seja a amável vendedora da loja de móveis onde foi apreçar sofás. Em casa, não pode ver uma coisa fora do lugar ou um prato sujo. Nem pensar que lá entre um inseto que seja, e quando uma raposa aparece no seu pequeno jardim, Pansy entra em pânico, como se um ladrão e violador lhe tivesse invadido o lar. Até os bolsos dos casacos dos bebés chamam a sua ira: “São bebés, o que é que eles vão guardar nos bolsos? Facas?”. Verdades Difíceis é também uma comédia, porque as diatribes e as embirrações de Pansy dão vontade de rir, apesar do cerrado dramatismo que a envolve.

Pansy é insofrível em jato contínuo, a sua casa é tão imaculada como fria, um lugar de tristeza de cortar à faca, e a sua família é um ecossistema de infelicidade. Mas tem uma irmã mais nova, Chantelle (Michele Austin), mãe solteira com duas filhas crescidas. E as duas irmãs são como o ovo e o espeto. Chantelle trabalha, dirige um próspero cabeleireiro sempre cheio de clientes, é alegre e descontraída, tem amigos, dá-se lindamente com as filhas, que têm bons empregos, e vivem numa casa cheia de plantas e flores. Um almoço em casa desta no Dia da Mãe, em que as duas irmãs vão também visitar a campa da mãe, que morreu alguns anos antes, dá origem a um confronto entre elas.

[Veja uma entrevista com Mike Leigh e Marianne Jean-Baptiste:]

Mike Leigh não concebeu Pansy como um mero cliché de negatividade ambulante e de desesperança crónica, e nem por um momento a personagem apela à nossa simpatia ou mendiga a nossa piedade (pelo contrário, é daqueles que ela destrata que temos pena). Na sua caracterização de pessoa de trato muito problemático, ela é aparentada com outras personagens de filmes anteriores do realizador, como Johnny, o desempregado interpretado por Mike Thewlis em Nu (1993), o compositor William Gilbert, da lendária dupla Gilbert e Sullivan, de Topsy-Turvy (1999), e até o pintor William Turner, de Mr. Turner (2014). Essa é a sua natureza, parece dizer o realizador.

[Veja uma sequência de “Verdades Difíceis”:]

Por isso, haverá quem se sinta frustrado por Mike Leigh não chegar a “explicar” Pansy, a dar-nos mais informação sobre porque é que se comporta assim, por que razão é que toda ela é só bílis para o mundo e quantos andam nele, conhecidos ou estranhos. Filmado com aquele naturalismo discreto, nunca forçado ou intrusivo, na encenação, nos diálogos, nas personagens e na identidade visual (foi o derradeiro filme do diretor de fotografia Dick Pope, que morreu pouco depois) a que Mike Leigh nos habituou, Verdades Difíceis não tem catarse, não oferece uma redenção, não contempla uma conclusão sob a forma de uma revelação emocional intensa e profunda. Embora na sequência no cemitério com as duas irmãs, haja uma sugestão de que a relação diferente que cada uma tinha com a mãe possa estar na origem dos males e da azia existencial de Pansy.

Mas a eventual deceção com este final aberto e irresolvido para a personagem principal é compensada pelo realismo credível, tranquilo e eloquente da realização de Mike Leigh e pelo trabalho dos atores, em especial de Marianne Jean-Baptiste, extraordinária de intensidade amargurada e de crispação obsessiva. E para que nem tudo seja pessimista, sombrio e sem esperança no final, Leigh deixa uma porta entreaberta para dar uma possibilidade ao jovem Mose de sair daquele inferno familiar em fogo lento, e de ao pé da alma torturada que é a mãe.