No sábado em que passa a ser líder da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão fez uma primeira intervenção para marcar a linha de ação de um “novo ciclo”, que mostrou ser de rutura com o passado recente — ainda que tenha feito parte dele, como líder parlamentar e vice do partido na era de Rui Rocha. Leitão quer uma IL “mais clara ainda: sejamos radicais — radicais naquilo que verdadeiramente importa. Radicais na defesa da liberdade das pessoas.”

Numa intervenção curta, na abertura da Convenção da IL, num pavilhão multiusos em Alcobaça, Leitão limitou-se a traçar as linhas de orientação mais genéricas para a próxima fase do partido, depois de umas legislativas onde falhou o objetivo da relevância ao nível da governação. Para a candidata única à liderança, o atual cenário político “exige mais” da IL: “Mais exigência, mais compromisso, mais militância porque um partido liberal não se constrói com slogans”.

E convoca todos, sublinhando que o “novo ciclo começa dentro de casa”, desde logo com “uma Iniciativa Liberal mais coesa, mais ideológica, mais convicta”. A sua candidatura à liderança não teve oposição, o que tem merecido críticas internas com vários membros a preferirem que a sucessão de Rui Rocha fosse apenas resolvida depois das autárquicas, dando tempo para mais candidaturas poderem perfilar-se. Logo à entrada da Convenção, Mariana Leitão falou aos jornalistas e garantiu que “houve tempo suficiente” para haver candidatura alternativa à sua.

Agora, num tempo que reclama ser de “união”, Leitão quer “um partido que não pede desculpa por ser liberal” e sem “medo” de “defender a dignidade do indivíduo, a força do mercado, a coragem de empreender, o direito de errar, de tentar, de recomeçar”. Quando fala na necessidade de um posicionamento “radical” do partido nesta fase, a futura líder insiste sobretudo que “ninguém deve ser propriedade do Estado”, que “a ideia de que cada indivíduo tem o direito inalienável de viver como entender” e ainda na “defesa da autonomia pessoal” e na responsabilidade individual.

“Radicais, acima de tudo, na defesa da liberdade de viver sem medo do Estado, sem medo da maioria, sem medo de qualquer moda de qualquer Governo”, definiu Mariana Leitão, sublinhando que “quando o mundo escorrega para o conforto do autoritarismo suave ou do conformismo crónico, temos o dever de ser incómodos”.

Recusa “papel de figurante” e quer aproveitar autárquicas para mostrar diferenças

No atual contexto político, a Iniciativa Liberal surge agora sobretudo apostada na diferenciação face a AD — que tem tido o Chega como parceiro mais frequente no arranque da legislatura. E é precisamente neste ponto que entra a rajada de críticas ao partido de André Ventura, com Leitão a falar na “direita do caos” que diz que “já começa a esconder-se atrás da responsabilidade para deixar tudo na mesma. Não tenhamos dúvidas: o Chega não é mais do que um novo socialismo à direita.”

E continuou no tiro ao Chega nesta mesma linha, por não defender “a soberania enquanto indivíduos”, ou “qualquer reforma para Portugal”. “São coletivistas, estatistas, e paternalistas”, criticou, acusando o partido de Ventura por querer ditar como “devemos viver” e como são “muito parecidos com os que já conhecíamos, e precisam tanto do Estado como os outros”.

Neste quadro de espaço reduzido para marcar à direita, a próxima líder da IL recusa para o seu partido um papel secundário. “A Iniciativa Liberal não tem hoje as condições para contribuir para uma solução de governo”, reconheceu tentando convencer os presentes que a “função” da IL é “outra”.

“Não aceitamos o papel de figurantes num sistema que queremos transformar”. “O atual governo da AD pensa que falar em reformas e inventar um ministério chega para agradar aos liberais”, disse quando recusou essa posição para o seu partido, aproveitando para colocar as autárquicas como o desafio “importante” que se segue e onde a IL “pode provar que uma gestão liberal faz a diferença – estando ao serviço das pessoas, não dos interesses instalados”.

Para essas eleições coloca à cabeça a intenção de “mostrar que é possível governar com rigor, transparência e responsabilidade”, “que é possível colocar os cidadãos à frente dos caciques” e ainda “que o poder local pode – e deve – ser um espaço de liberdade, de autonomia e de mérito.”

Para quem se posiciona no partido para essa corrida eleitoral, a futura líder avisou que “não serão meros gestores de freguesias ou concelhos. Serão agentes da mudança.” Pede-lhes “coragem para enfrentar as redes de poder que há décadas se entranharam em tantas câmaras”. E o objetivo vale, sublinhou, para os que vão a votos soba a chancela da IL e “também para os que, em nome de um bem maior, irão coligados para desalojar poderes instalados” — a IL tem 15 coligações autárquicas anunciadas com a AD, Lisboa e Porto estão entre elas.

No discurso em que apresentou à Convenção a da candidatura, Leitão não deixou de atirar também à esquerda, mas sobretudo na análise do desaire eleitoral sofrido nas últimas legislativas pelos partidos nesta área política. “A esquerda radical pagou o preço da sua prepotência” e a “esquerda moderada carrega hoje um pesado fardo do seu passado de desgoverno, desorientação e negligência do país”.  E nesta convicção de que o “imobilismo começa a mudar de sinal”, que Mariana Leitão tenta agora posicionar o partido: entre esta esquerda e uma direita de onde procura destacar-se.