Enquanto não começa a campanha eleitoral autárquica e se possa perguntar a qualquer candidato quantas árvores projeta, promete e garante plantar nos quatro anos de mandato (e, em seguida, que árvores e porquê, pois não é de todo indiferente), para obter efetivos controlo térmico dos aglomerados humanos, melhor ar e sustentabilidade ambiental, fazendo disso requisito central para a decisão do voto, nunca é demais observar que a aproximação dos mais novos ao mundo natural e aos seus problemas é uma tarefa essencial de pais verdadeiramente conscientes do mundo que os seus filhos receberão quando tiverem a idade deles.

Uma nova literatura infanto-juvenil tem-se dedicado ao assunto com devoção e graça — apoiando a formação dessa consciência conservadora e ambientalista, de que também fazem parte a parcimónia consumista, a preferência por produtos de longevidade assegurada pela sua qualidade material e o dever de máxima reciclagem e reaproveitamento —, e prémios atribuídos no decurso de feiras internacionais da especialidade dão boa conta desse recado, como sucedeu em abril de 2024 com este singelo Como Nascem as Árvores, o primeiro álbum ilustrado do francês Charles Berberian, em 1959 nascido em Bagdade de pai arménio e de mãe grega, e ele próprio co-autor de livros de banda desenhada premiados em Angoulême, capital internacional da BD.

A rapidez com que a Orfeu Negro transpôs para o mercado portuguesa este álbum de formato generoso mostra que está atenta e quer disputar uma quota-parte deste mercado editorial em clara rota de crescimento, renovação autoral e requalificação gráfica. Aproveitou financiamentos europeus e recebeu apoio à publicação dado pelo Instituto Francês em Portugal.


Título: “Como Nascem as Árvores”
Autor: Charles Berberian
Tradução: Joana Cabral

Editor: Orfeu Negro
Páginas: 26

O caprichoso pincel aguarelado de Berberian recria os ambientes de verde e sombra do bosque em que mãe e filho passeiam num “dia belo” em busca do “sítio perfeito” para plantar um rebento de árvore, “que cresceu sozinha num cantinho”, cumprindo promessa feita ao pai e avô para “quando ele já não estivesse connosco”. O diálogo entre ambos é uma breve pedagogia da floresta como ecossistema integrado, intercomunicante (“já percebi, mãe: é como se a floresta fosse a sua família”, p. 23), que se reproduz e expande por sementes lançadas à terra ou trazidas pelo vento (“as árvores grandes fazem árvores pequenas, mas não as fazem como nós, nem como os animais”, p. 5), mas é também — história paralela, desafiando a atenção dos petizes — o elogio da descoberta dos bichos que a habitam, neste caso feita pelo cão do rapaz, que se surpreende, persegue e no final, estupefacto, perde de vista um pássaro vermelho de peito amarelo.

As pranchas a tinta da china, que dão ritmo a este pequeno livro de formato grande, são um prodígio de tecnicidade nos traços de diferente espessura, atributo certamente derivado da experiência de banda desenhada do autor, sendo que os balões são preenchidos com tipo-grafia criada por Jean-François Rey e registada como “caracteres Jacques Berberian”. A bela arte do livro nunca deixará de nos surpreender: dos 7 aos 77 anos — e mais, se possível.