Neemias Queta foi, mais do que nunca, o Quetão. Começou com um triplo, acabou a primeira parte com uma eficácia de lançamento de 88%, jogou mais minutos quando foi necessário para segurar a vitória, terminou de forma natural como MVP entre 23 pontos, 18 ressaltos, quatro desarmes de lançamento e várias ações que rapidamente se tornaram virais nas redes sociais. A entrada a ganhar de Portugal frente à Rep. Checa na fase final do Europeu ficou muito marcada pela boa defesa e pelo rasgo de Rafael Lisboa em momentos chave mas teve o poste dos Boston Celtics como grande destaque que não passou ao lado de nada nem ninguém.

As mãos de Lisboa a colorir uma parede chamada Neemias: Portugal vence Rep. Checa no regresso a um Europeu de basquetebol 14 anos depois

Portugal não participava num Campeonato da Europa há 14 anos e não vencia um encontro da fase final há quase duas décadas (2007). Em paralelo, Neemias Queta tornou-se o primeiro jogador a fazer pelo menos 20 pontos e 15 ressaltos num jogo de estreia na prova, de acordo com os dados fornecidos pela organização. Era complicado encontrar maior destaque para o primeiro e único português na NBA, que teria agora pela frente muitos daqueles que são seus adversários na principal liga de basquetebol mundial. Nikola Jokic, poste que se sagrou campeão pelos Denver Nuggets, era só o maior dos nomes da equipa comandada pelo experiente Svetislav Pesic onde constavam também Bogdan Bogdanovic, Nikola Jovic ou Tristan Vukcevic, entre outros.

“Na altura da última vitória de Portugal num Europeu ainda nem era jogador, era muito jovem. Por isso é uma grande sensação para todos. Não estamos muito eufóricos, cada jogo é uma final e essa é a mentalidade. É um bom momento para o basquetebol português, que é um país de futebol, mas estamos a lutar pelo nosso lugar”, comentou o poste nacional depois do triunfo com a Rep. Checa. “A defesa é onde tentamos levar a melhor. Não vamos ter sempre jogos perfeitos ofensivamente, por isso temos de colocar o tom na defesa, sendo físicos. Isso vai ajudar-nos a chegar ao passo seguinte. Sérvia? Vai ser uma boa oportunidade defrontar um dos melhores postes do mundo. Sei que não será fácil mas estaremos à altura. Tentaremos fazer o nosso melhor e não pensar em demasia neles, eles também têm de pensar em nós”, acrescentou Neemias Queta.

“Temos de entender a realidade do jogo que vamos apanhar. Não acredito em tentar ludibriar a realidade do jogo. É uma equipa muito complicada, com muito talento. Vai ser um jogo muito difícil a todos os níveis, físico, defensivo e ofensivo. Mas, se entendermos isso, se jogarmos cada posse de bola como se fosse a última, se estivermos no limite os 40 minutos, poderemos ter uma percentagem de conseguir competir com esta equipa. Pode não ser muito elevada mas temos”, apontara Nuno Manarte, técnico adjunto, na antecâmara do segundo encontro. “Foi muito importante termos começado da melhor maneira, arrancar com uma vitória é sempre relevante. Estamos a pensar jogo a jogo. A Sérvia dispensa apresentações, tem para muitos o melhor do mundo mas vamos dar o nosso melhor. Se ficámos mais perto do apuramento? Claro que sim. Se são seis equipas e passam quatro, temos de somar duas vitórias”, acrescentara o base Diogo Ventura.

Era neste contexto que chegava a segunda ronda do grupo A do Europeu, em Riga, num jogo onde a Seleção tinha pouco a perder e muito a ganhar caso conseguisse manter essa veia competitiva. O triunfo a abrir com a Rep. Checa permitiu que a questão da qualificação fosse olhada de outra forma, tendo em conta que, num plano normal, a Estónia é o outro adversário mais acessível para lutar pelo apuramento para a segunda fase, mas as partidas com Sérvia, Turquia (sábado) e Letónia (segunda-feira) podiam funcionar como rampa de lançamento para esse objetivo. Tudo, claro, dentro das naturais diferenças – como não demorou a perceber-se depois da vitória dos sérvios por mais de 30 pontos com a Estónia (98-64), sendo que os triunfos mais apertados de Turquia e Letónia com Rep. Checa e Estónia, respetivamente, davam outra “esperança”.

O primeiro período começou como se fosse um qualquer encontro entre duas equipas que se equilibravam, tendo Portugal em várias ocasiões na frente com Diogo Brito, que falhou os 11 lançamentos tentados frente à Rep. Checa, a somar sete pontos no empate a nove que se registava com cinco minutos do encontro. A Sérvia, com esse poste chamado Jokic que tem a capacidade de ser primeiro ou segundo base consoante aquilo que a equipa necessite, demorava a “engatar” e perdeu cedo Filip Petrusev, que foi desqualificado depois de um soco na barriga de Diogo Brito após bloqueio do português. Depois, tal como na primeira partida, a rotação de jogadores acabou por tirar alguma qualidade à defesa nacional, que sofreu um parcial de 8-0 e terminou o primeiro quarto a perder por quatro pontos mas ainda ligada, e bem, ao resultado (23-19).

Percebendo que as coisas não estavam a correr como pretendido, Pesic aproveitava todas as paragens para dar indicações aos sérvios e pedir maior intensidade, velocidade e agressividade no jogo. Percebendo que as coisas começavam a resvalar, Mário Gomes tentava outras formas de travar os balcânicos com defesas à zona que tirassem vantagem no pintado ao adversário. A entrada no segundo período nem foi a melhor mas cinco pontos seguidos de Diogo Brito para o 28-26 levaram Pesic a pedir mais um desconto de tempo. Se o jogo inaugural com a Estónia estava decidido em dez minutos, a resistência de Portugal ia surpreendendo a Sérvia e foi a dupla Jokic-Bogdanovic que teve de agarrar na batuta para marcar diferenças no encontro, que chegou ao período de descanso com dez pontos de diferença (43-33)… e uma Sérvia mais descontente.

Esse era o maior prémio de Portugal, que contava com um Diogo Brito rejuvenescido com 14 pontos e cinco ressaltos, esse era também o maior perigo para Portugal. Aliás, bastaram dois minutos e meio para Mário Gomes ter de parar o encontro, com os sérvios a dispararem para 15 pontos de avanço (50-35) com Nikola Jokic mais envolvido no jogo ofensivo. Mais uma vez, a resiliência nacional voltou a imperar, com a defesa a recuperar níveis mais elevados para uma nova recuperação que deixou o encontro de novo a dez pontos quando se pensava que os balcânicos tinham arrumado tudo de vez (57-47) antes do 64-49 com que se chegou ao final do terceiro período e com Mário Gomes a pedir mais à equipa no rendimento ofensivo.

Os derradeiros dez minutos chegavam como uma espécie de pro forma do encontro, tendo em conta que a Sérvia tinha a vitória na mão (fazendo por isso descansar Nikola Jokic durante alguns minutos) e Portugal nunca iria perder a capacidade de resistência ao poderio dos balcânicos, mas nem por isso a Seleção deixou de tentar algo mais no resultado arriscando um pouco mais em termos defensivos, terminando com uma derrota por 80-69 apesar do 74-67 a 1.40 do fim que não deixa de ser um desaire mas que mereceu muitos elogios internacionais, a começar pela organização do Eurobasket. Mais: Diogo Brito (22 pontos, nove ressaltos e dois roubos de bola), Travante Williams (15 pontos, cinco roubos de bola e quatro ressaltos) e Diogo Ventura (11 pontos e três assistências) mostraram que há mais vida além de Neemias (seis pontos, três assistências e um ressalto). Quanto a Jokic, 23 pontos, dez ressaltos, três assistências e outro jogo fantástico.