O circuito de Zandvoort é um autêntico culto a um herói nacional chamado Max Verstappen, a própria linha que férrea que faz a ligação a partir de Amesterdão foi rebatizada de Max Express, mas a interrupção na série de vitórias do tetracampeão mundial nos Países Baixos conseguida por Lando Norris no ano passado parecia ter mesmo vindo para ficar. Porquê? Ao longo de dois dias, a Fórmula 1 continuou a girar apenas e só à volta da McLaren, que dominou todas as sessões de treinos livres antes de voltar a ser de longe a mais rápida na qualificação. O que mudou? O piloto que estava na frente. E bastaram 12 milésimos para que a pole position mudasse de mãos, com Lando Norris a rodar sempre na frente até Oscar Piastri ficar com a liderança.

Oscar Piastri consegue ‘pole’ no GP dos Países Baixos por 12 milésimos

“O Oscar [Piastri] e o Lando [Norris] estiveram sempre muito, muito próximos durante toda a qualificação. Depois, na Q3, logo na primeira tentativa ficaram separados por apenas 12 milésimos, depois ainda andaram mais perto. Ambos conseguiram levar o carro ao limite mas às vezes há pequena subtilezas que fazer toda a diferença. Os dois mereciam ter ficado com esta pole position mas apenas um poderia conquistá-la e acabou por ser o Oscar a chegar lá”, resumiu Andrea Stella, diretor da Mc Laren, depois de uma qualificação que voltou a desempatar o número de pole positions em 2025 com o australiano a passar agora para a frente com cinco triunfos contra apenas quatro do britânico. Seguia-se a corrida, seguia-se novo despique a dois.

“A definição certa é que consegui atingir o pico no momento certo. Durante o fim de semana, senti-me bem mas houve algumas curvas em que não consegui ser tão rápido, encontrando depois velocidade noutras partes. Estou feliz por ter conseguido a pole position mas a disputa dos pontos é apenas amanhã [domingo]. Potencial para melhorar? Essa é uma das coisas boas de ter tantos treinos, ter tempo para trabalhar tudo o que se pode melhorar. Há variáveis que podem mexer as coisas entre mim e o Lando, vamos ver a corrida”, comentara Oscar Piastri. ” Frustrado com o resultado? Sim e não, foi por pouco. Foi apertado durante todo o fim de semana, poderia ter caído para qualquer lado mas fiquei um pouco dececionado por não ter ficado com a pole. Tivemos voltas decentes, não é o fim do mundo. Com o vento assim, a sorte também é um fator. Tivemos saídas más no ano passado, veremos o que dá a corrida”, salientara Lando Norris.

Depois de Áustria (Lando Norris), Grã-Bretanha (Lando Norris), Bélgica (Oscar Piastri) e Hungria (Lando Norris), tudo apontava para que o regresso da Fórmula 1 após quase um mês de paragem continuasse a ser um duelo direto entre os dois McLaren pela vitória, com Max Verstappen a ter uma aproximação a Piastri e Lando na Q3 em termos de tempo. Sobravam outras curiosidades, como a capacidade de Isaac Hadjar andar na frente depois de partir na quarta posição, os Ferrari aproximarem-se do pódio tendo Charles Leclerc e Lewis Hamilton a saírem da sexta e sétima posições ou os Aston Martin transportarem para a corrida os bons sinais que deixaram sexta-feira nos treinos livres. No entanto, as papaias continuavam a ser mesmo a fruta da época, com o momento de saída a ter um peso determinante no que poderia ser o resto da corrida bem como o tempo que poderia mudar todas as conjeturas, com possibilidade de chuva entre 60% e 65%.

As autênticas paredes laranjas que enchiam as bancadas do traçado esperavam um “milagre”, Verstappen fez a vontade: aproveitando uma saída titubeante dos dois McLaren, o piloto neerlandês conseguiu passar Lando apesar de ter perdido o controlo do Red Bull por breves instantes e não demorou a forçar o ritmo para não deixar que Oscar Piastri ganhasse grande vantagem na frente, com Hadjar a segurar o quarto lugar, Leclerc a passar Russell na quinta posição e Fernando Alonso a ser um dos “derrotados” da saída descendo a 13.º, a par dos dos pilotos da Kick, Nico Hulkenberg e Gabriel Bortorelo. A chuva, essa, poderia estar prestes a chegar, numa passagem de “classe 1” que parecia não assustar as equipas (pelo menos numa fase inicial) mas, antes desse aparecimento, Lando “vingou” a má saída com uma grande ultrapassagem a Verstappen.

A diferença para Piastri já estava na casa dos 4,5 segundos e esse passava a ser o desafio (mais complicado) de Lando Norris: rodar de tal forma rápido que pudesse atenuar a distância para o companheiro de equipa e ir à procura de algo mais nas paragens nas boxes. Com 15 voltas decorridas, o ataque do britânico colocara a diferença a três segundos (Verstappen deixara de contar para essa luta, com mais de sete segundos de atraso para a segunda posição) mas era no céu que se centravam todos os olhos, com avisos de alguns pilotos para as gotas que começavam a sentir – e os impermeáveis a serem vestidos nas bancadas contavam o resto da história. As primeiras paragens começavam a aparecer, com os pneus a deixarem Lando um pouco mais longe de novo de Piastri a 3,5 segundos. Aqui, mais uma vez, tudo mudou: Lewis Hamilton teve um despiste, o safety car entrou em cena, todos ganharam uma paragem quase de borla nas respetivas boxes.

As paragens foram tudo menos brilhantes mas com pneus duros em todos os carros menos no de Verstappen (que reentrou com médios) podia haver uma nova corrida a partir da 23.ª volta, com as repetições televisivas a mostrarem como o pneu de Hamilton escorregou na zona pintada e o britânico já não conseguir recuperar o controlo. Única mudança: Russell passou Leclerc, que voltava à sexta posição. Três voltas depois, a prova era recomeçada com Piastri a disparar forte na frente para ganhar uma distância confortável para Lando e com Liam Lawson e Carlos Sainz a terem um toque que os remeteu para os últimos lugares (Lawson teve mesmo de trocar a asa quando passou pelas boxes). “Este gajo é tão estúpido, é sempre a mesma coisa”, atirava o piloto espanhol da Williams visivelmente irritado com um fim de semana que estava estragado.

Houve mais um safety car virtual, neste caso para retirar alguns detritos da pista, houve mais emoção… um pouco atrás: Leclerc subiu de novo a quinto à frente de Russell (que ficou com o carro danificado nesse toque, o que fez com que mais tarde cedesse a posição a Kimi Antonelli), Hadjar agradeceu e ficou um pouco mais à vontade na quarta posição, o pódio continuava aparentemente definido com Piastri, Lando e Verstappen, com o britânico a tentar ver as hipóteses que teria de superar o australiano e a perceber que isso só iria acontecer perante os restantes pilotos em pista a atacar o companheiro de equipa quando estávamos a meio da corrida. Ainda houve uma pequena fase em que entrou em zona de DRS mas a diferença mantinha-se entre 1,2 e 1,5 segundos, com algumas equipas a prepararem a segunda troca de pneus para a parte final.

Depois do “teste” de Fernando Alonso, que ficou depois com a volta mais rápida, Kimi Antonelli parou e a Ferrari seguiu a ideia, trazendo Charles Leclerc até às boxes. Ainda saiu à frente do italiano da Mercedes mas seria sol de pouca dura: um pequeno toque do adversário fez com que desenhasse um peão e tivesse uma saída de pista para a desistência, com os McLaren a aproveitarem nova folga para trocarem de pneus para novo duelo após o safety car quando faltavam somente 15 voltar para o fim. Piastri voltou a conseguir segurar Lando, Verstappen tentava forçar para regressar à segunda posição, tudo continuou como estava antes do acidente com Leclerc mas com Antonelli a ter também de cumprir dez segundos de penalização. A história do Grande Prémio dos Países Baixos parecia escrita mas faltava ainda um último capítulo: Lando viu fumo a sair do carro, falou com a equipa, encostou para a desistência e estendeu a passadeira a Piastri, com Verstappen a ficar em segundo e Isack Hadjar a fechar no pódio num dia negro para a Ferrari.

No Mundial, Oscar Piastri passou a somar 309 pontos, mais 34 do que o companheiro de equipa, Lando Norris (275). Max Verstappen reforçou a terceira posição com 205, mais 21 do que George Russell (184). Já Isack Hadjar subiu ao top 10 depois do terceiro lugar nos Países Baixos com 37 pontos, numa classificação que tem também Leclerc (151), Hamilton (109), Antonelli (64), Alexander Albon (64) e Hulkenberg (37),