Foi descoberto no ano da morte do ícone musical. Mas só quase dez anos depois o mundo fica a saber no grande projeto secreto em que David Bowie trabalhava quando morreu, aos 69 anos. Encontrado em em 2016, o esboço de The Spectator vai ser exposto aos olhos do mundo, pela primeira vez, no Museu “Victoria and Albert”, em Londres, avança a BBC em exclusivo.
Dois dias antes da sua morte, vítima de cancro do fígado, David Bowie deixava a sua última obra: o álbum Blackstar. Na altura, não se sabia do estado de saúde do autor, mas percebeu-se depois que o foco seria o diagnóstico da doença e a aceitação da mortalidade.
Mas a estrela da música tinha um outro projeto que nem os mais próximos conheciam. No escritório “sempre trancado”, ao qual apenas Bowie e a sua assistente tinham acesso, estavam notas coladas nas paredes da divisão “tal como ele as tinha deixado”, sobre aquele que definiu como o “musical do século XVIII” com o nome The Spectator. A emissora britânica teve agora acesso às imagens desses post-its amarelos e cor de rosa bem como a um caderno de capa azul sobre o jornal que o inspirou e dá nome à peça.
As notas revelam o fascínio do músico pela Londres do século XVIII, bem como por histórias de gangues criminosos e da “personagem popular” Jack Sheppard (um ladrão conhecido por roubos e fugas que o público).
David Bowie trabalhava no projeto que iria cumprir uma das suas ambições de vida. Não era segredo a sua paixão pelo teatro como se percebeu em 2002, numa entrevista à BBC Radio 4,
Logo no início, eu queria mesmo escrever para teatro. Suponho que podia ter escrito na minha sala de estar, mas penso que a intenção era [sempre] chegar a um público bastante vasto”.
O The Spectator era um jornal diário, fundado por Joseph Addison e Richard Steele, em Londres, com 555 edições entre 1711 e 1712. O objetivo da publicação foi definida pelos fundadores, na edição número 10, em 1711: “Animar a moralidade com inteligência e temperar a inteligência com moralidade”. Nesta eles comentavam costumes e tendências da sociedade londrina, sendo pioneiros na “imparcialidade” na imprensa da época.
“Nessa altura, Londres era uma cidade tão excitante, vibrante e diversa”, explicou à BBC um historiador e especialista em factos sobre o século XVIII, Bob Harris, afirmando que compreende por que razão este período cativou Bowie. “Era a maior cidade da Europa Ocidental (…) e tinha uma imprensa efervescente que comentava constantemente as modas e tolices da época”, acrescentou.
As notas foram doadas ao Museu Vitoria and Albert, juntamente com o resto do arquivo de Bowie, que conta com cerca de 90 mil objetos. Poderão ser vistos pelo público aquando da abertura do “David Bowie Centre”, no V&A East Storehouse, em Hackney Wick, Londres, a 13 de setembro. “Temos até a secretária [onde ele trabalhava] no Storehouse”, afirma Madeleine Haddon, a curadora da coleção.
Será ainda possível ver outros arquivos do músico, como por exemplo a set list para a digressão do álbum Station to Station, escrita em 1976, ou o fato que Bowie utilizou na digressão Serious Moonlight para o álbum Let’s Dance.
Cerca de 200 peças estarão em exposição no centro, mas os visitantes poderão marcar uma visita, através de um formulário online, para ver qualquer item da coleção de Bowie.
O fascínio de Bowie por Londres do século XVIII
Das notas resulta claro que David Bowie analisava toda a sociedade londrina do século XVIII, mas tinha um fascínio particular por dois temas: o crime e o castigo. Numa das notas encontradas, o músico imaginava o cenário pós enforcamento público, com “cirurgiões a lutar por cadáveres”.
Escreveu ainda sobre Jack Sheppard, um ladrão que conquistou a simpatia do público, ser uma das personagens principais do musical.
Outro desenvolvimento do enredo pensado por Bowie envolvia uma “figura central” do musical a ser atacada por um gangue conhecido como os “Mohocks”. O professor Harris explica à BBC que esta quadrilha foi uma “obsessão mediática” naquele século. “Tratava-se de jovens de elevado estatuto social que basicamente se embebedavam à noite e atacavam pessoas nas ruas de Londres, muitas vezes mulheres e, por vezes, vigilantes idosos”, continuou.
O professor acredita que aquilo que fascinava Bowie neste século eram os contrastes que Londres oferecia: “Entre o alto e o baixo, entre o virtuoso e o criminoso — estas coisas coexistiam lado a lado”, cita a BBC.
A responsável pela coleção, Madeleine Haddon, admite que o músico poderia estaria a encontrar um paralelismo entre aquela época e a atualidade. “É interessante pensar que Bowie trabalhava nisto nos EUA, em 2015, com a situação política que lá decorria”, referindo-se a um período em que, no segundo mandato de Barack Obama, os EUA passavam por intensas mudanças sociais, com temas como a desigualdade e preconceito em evidência. “Estaria ele a pensar nisso: no poder das formas artísticas para criar mudança no nosso próprio momento político?”, acrescenta.
Haddon tem a expectativa de que a coleção no museu impacte a nova geração de músicos e artistas além de os incentivar a utilizar as estratégias do artista na sua própria criatividade, tratando Bowie como um “visionário”. “Se pensarmos em como tantos jovens hoje não querem ser definidos por um género único, Bowie foi realmente um pioneiro nesse sentido”
Texto editado por Dulce Neto