Imaginemos uns Jogos Olímpicos sem qualquer regulamentação no que toca ao doping ou substâncias de aumento de performance. É mais ou menos isso, pelo menos em termos teóricos, que vai acontecer em maio do próximo ano nos Estados Unidos: os Enhanced Games são polémicos, levantam centenas de questões teóricas, mas já estão a atrair medalhados olímpicos.
Embora não sejam propriamente uma novidade, os Enhanced Games saltaram para a atualidade com a notícia de que Ben Proud, nadador britânico que foi medalha de prata nos 50 metros livres nos últimos Jogos Olímpicos de Paris, decidiu participar na competição. “Realisticamente, alcancei tudo aquilo que estava ao meu alcance. Agora os Enhanced Games podem dar-me uma nova oportunidade. Não acho que esteja a desvalorizar o desporto limpo, de todo. Respeito muito a modalidade de que fiz parte e nunca voltaria se tivesse feito alguma coisa que fosse contra as regras”, explicou o atleta de 30 anos.
????♂️ Ben Proud joins the @Enhanced_Games.
???????? He becomes our first British athlete.
???? Welcome to @Enhanced. pic.twitter.com/1boOetxzsN— Enhanced Games (@enhanced_games) September 10, 2025
Mas como surgiu, afinal, a ideia dos Enhanced Games? Tudo começou em 2022, quando Aron D’Souza estava num ginásio nos Estados Unidos. Ao olhar em volta, o empresário australiano percebeu que a larga maioria das pessoas a fazer exercício físico utilizava esteróides. Com base na ideia de que cada um faz com o corpo aquilo que bem entender, Aron D’Souza pensou criar uma competição multidesportiva estilo Jogos Olímpicos, mas sem limitações quanto a doping ou outras substâncias de aumento de performance.
Com 40 anos, o empresário australiano considera que o Comité Olímpico Internacional é “corrupto e ganancioso” e defende a extinção da Agência Mundial Antidoping, que considera “uma força policial anticiência que trabalha para o Comité Olímpico”. Em várias entrevistas, já referiu que o sistema olímpico não paga o suficiente aos atletas e que os Jogos Olímpicos atuais incluem várias modalidades “que não importam”.
O projeto foi oficialmente lançado em 2023 e, já em janeiro de 2024, Aron D’Souza anunciou que tinha garantido um investimento multimilionário de vários empresários — incluindo Peter Thiel, bilionário que é co-fundador do PayPal e foi o primeiro outsider a investir no Facebook. Em fevereiro deste ano, Donald Trump Jr., o filho do presidente dos Estados Unidos, confirmou que também iria envolver-se no plano. “Os Enhanced Games representam o futuro: competição real, liberdade real e recordes reais a serem quebrados. É sobre excelência, inovação e a dominação norte-americana no palco mundial. Tudo aquilo que envolve o movimento MAGA [Make America Great Again, o lema de campanha de Donald Trump]”, disse, na altura, o empresário de 47 anos.
???????? LAS VEGAS 2026
The first Enhanced Games are coming to Las Vegas in May 2026.
World-class athletes in athletics, aquatics, and strength will compete to break records, win prizes of up to a million dollars, and redefine the limits of human performance.
???? Memorial Day Weekend… pic.twitter.com/VWNgPM2rHe
— Enhanced Games (@enhanced_games) May 21, 2025
Embora ainda não seja completamente conhecida a lista de substâncias que os atletas poderão consumir nos Enhanced Games, é certo que todas serão aprovadas pela United States’ Food and Drug Administration — algo que exclui desde logo drogas como cocaína ou heroína, sendo que chegou a ser ventilado que também poderiam ser permitidas. O evento será acompanhado por várias equipas médicas e, de acordo com a organização, o consumo de substâncias será regulado e acompanhado por especialistas.
Em reação ao anúncio oficial da competição, o Comité Olímpico Internacional defendeu que esta era “uma boa maneira de destruir qualquer conceito de ‘fairplay’ ou competição justa no desporto”, acrescentando que era completamente contrário “às ideias e aos valores dos Jogos Olímpicos”. Sebastian Coe, o presidente da World Athletics, garantiu que ninguém dentro do atletismo “leva os Enhanced Games a sério” e a Agência Mundial Antidoping lembrou que todos os atletas que participarem estão a violar as regras de doping internacionais — ou seja, irão ser sujeitos e submetidos a sanções, penalizações e suspensões.
A primeira edição dos Enhanced Games está então marcada para 21 a 24 de maio de 2026, em Las Vegas, e conta com natação (50 e 100 metros livres, 50 e 100 metros mariposa), atletismo (100 metros, 100 metros barreiras) e halterofilismo. Cada recorde quebrado, mesmo que não homologado oficialmente, representa um prémio individual de um milhão de dólares para cada atleta. Para além de Ben Proud, a competição também já tem as presenças garantidas de Kristian Gkolomeev, nadador grego, Megan Romano, nadador norte-americano, Andriy Govorov, nadador ucraniano, e Josif Miladinov, nadador búlgaro — sendo que a World Aquatics já anunciou que vai banir todos aqueles que participarem.