Novak Djokovic sempre foi uma figura próxima do governo da Sérvia. Tido como tesouro nacional, o tenista somou condecorações, elogios públicos, eventos de homenagem e até uma proteção clara durante a enorme polémica com a ausência de vacina no Open da Austrália de 2022. Agora, ao que parece, a relação parece ter esfriado até um ponto de não retorno. 

Para explicar o porquê de Novak Djokovic se ter afastado do regime sérvio é preciso explicar também o que se passa atualmente no país. Há praticamente dez meses que a Sérvia está afogada numa onda de violentos protestos maioritariamente estudantis e da população mais jovem contra a corrupção enraizada no sistema político e a postura cada vez mais autoritária do governo liderado pelo nacionalista Aleksandar Vučić.

Figura central da política sérvia desde 2012, começando por ser primeiro-ministro antes de se tornar presidente em 2017, Aleksandar Vučić tem caracterizado os protestos como “uma revolução de cores” promovida por países estrangeiros e qualificado os estudantes e os seus apoiantes como “traidores” e “inimigos do Estado”. Um grupo onde, nos últimos meses, Novak Djokovic acabou por incluir-se.

O tenista pronunciou-se pela primeira vez sobre os protestos ainda em dezembro do ano passado e em janeiro dedicou uma vitória no Open da Austrália a uma estudante que estava hospitalizada depois de ter sido atropelada durante uma manifestação. Em fevereiro, surgiu num torneio com uma camisola onde se lia “os estudantes são campeões”. Mais tarde, em março e quando cerca de 30 mil pessoas saíram às ruas de Belgrado para protestar contra o governo de Aleksandar Vučić, Djokovic partilhou fotografias nas redes sociais e escreveu “histórico, magnífico”.

Ainda que o afastamento entre o governo sérvio e o tenista não seja propriamente oficial ou decretado, as últimas semanas têm deixado bem claro que Novak Djokovic está cada vez mais longe do poder político do país. Aos 38 anos, decidiu deixar Belgrado e mudar-se com a família para a Grécia, estando já instalado num luxuoso bairro de Atenas. De acordo com a imprensa local, já inscreveu os dois filhos num colégio privado perto de casa, tem sido visto às compras e a treinar na capital grega e estará mesmo a pensar solicitar um “visto gold” para viver permanentemente no país.

Para além disso e no pormaior que está a incomodar mais os alicerces do governo da Sérvia, Novak Djokovic levou consigo o Open de Belgrado. Dono do ATP 250 — o tio já foi o diretor, atualmente é o irmão mais novo –, o tenista já anunciou oficialmente que o torneio vai deixar a capital sérvia e mudar-se para Atenas, mantendo as mesmas datas em novembro. Um duro golpe numa relação que, até aqui, era de proteção e apoio mútuos.

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