O príncipe Harry define como sua prioridade para o próximo ano estar mais próximo do pai, o Rei Carlos III de Inglaterra. “O foco tem realmente de estar no meu pai”, afirmou, depois de se ter encontrado com o Rei recentemente, pela primeira vez desde fevereiro de 2024. Harry concedeu uma entrevista ao The Guardian, durante uma viagem a Kiev, planeada secretamente para promover a associação Invictus Games Foundation onde abordou temas como a guerra na Ucrânia, a relação com os meios de comunicação britânicos e fez um balanço da publicação do seu livro de memórias.
A viagem de 36 horas à Ucrânia foi feita durante uma estadia de quatro dias no seu país natal, de que diz ter “gostado muito”. “Sempre amei o Reino Unido e vou sempre amar o Reino Unido. Tem sido bom reconectar-me com as causas pelas quais sou apaixonado. Tenho conseguido passar algum tempo com pessoas que conheço há muito tempo. É difícil fazer isso à distância”, disse o príncipe que vive no estado da Califórnia, para onde se mudou em 2020, abdicando do seu estatuto oficial como membro da realeza. À altura, Harry e a sua mulher Meghan Markle consideraram o ambiente da família real britânica como “tóxico” e denunciaram episódios de racismo — Markle é afrodescendente.
A ligação de Harry com o país natal tem sido também marcada por uma relação difícil com os media. O príncipe e outras figuras públicas interpuseram mesmo um processo judicial à empresa detentora do tabloide Daily Mail, cujo julgamento está marcado para janeiro. “Acho que parte da imprensa britânica quer acreditar que sou infeliz, mas não sou. Estou muito feliz com quem sou e gosto da vida que levo”, garantiu agora ao The Guardian.
“É apenas em alguns meios de comunicação que se vê essa conversa sobre eu estar deprimido ou de dizerem que não estou a sorrir. Isso vem de pessoas que acham que sabem o que estou a pensar e como me estou a sentir. Estão erradas”, disse o príncipe, que reconhece que, nos últimos quatro anos, teve de lidar com questões “muito stressantes” e que o “magoram muito”.
“Sinto muito apoio do público britânico. Mesmo agora, quando sinto que fui destruído por certos membros da imprensa britânica”, continua Harry. “Desde que me lembro, certos elementos da imprensa britânica tentam falar em nome da nação. Acho que eles estão desligados da nação em muitas coisas.” Questionado sobre se no futuro gostaria de passar mais tempo no Reino Unido, o príncipe disse: “Sim, gostaria. Esta semana definitivamente aproximou-me mais disso.”
Ao jornal inglês, Harry também abordou o livro de memórias, que publicou em 2023, onde aborda a o seu afastamento da família real britânica. O príncipe reconhece que falar abertamente incomoda algumas pessoas e explica que o livro tinha o objetivo de fazer “uma série de correções a histórias que já estavam por aí”. “Não acredito que tenha lavado a minha roupa suja em público. Foi uma mensagem difícil, mas fiz isso da melhor maneira possível. A minha consciência está limpa“, diz.
Príncipe visita Ucrânia
O objetivo da visita de Harry à Ucrânia era promover o trabalho da Fundação Invictus Games que tem auxiliado a recuperação e reabilitação de milhares de veteranos de guerra que sofreram lesões a combater a Rússia, nomeadamente promovendo competições de desporto adaptado. A Invictus tem-se tornado muito popular na Ucrânia e, sendo o responsável máximo da fundação, o duque de Sussex é cada vez mais celebrado no país, segundo o The Guardian.
“A recuperação e reabilitação desportivas não existiam na Ucrânia antes da Invictus”, afirmou Ruslan Prykhodko, secretário de Estado ucraniano dos veteranos de guerra. “Agora estamos a criar todo um sistema com diferentes tipos de treino e a preparar equipas para todo o tipo de desportos.” Em pouco mais de três anos e meio, a guerra provocou lesões que mudaram a vida a 130 mil pessoas. O governo ucraniano tem tido a necessidade de promover políticas de reabilitação dos veteranos e a primeira-ministra Yuliia Svyrydenko tem trabalhado com a Invictus, que ajuda ex-soldados a ter acesso a instalações desportivas.
“É incrível. Nunca esperávamos este nível de reconhecimento”, disse Olga Rudnieva, a fundadora e diretora da Superhumans, em Lviv, instituição que tem um centro de reabilitação que tem colaborado com a fundação de Harry. “As pessoas sabem quem ele é. Sinceramente, não sabíamos que ele se tinha tornado uma celebridade. Acho que a vinda do príncipe Harry aqui é um símbolo de vitória e poder. As pessoas olham para ele e para a sua experiência militar e vêem que ele não tem medo de vir à Ucrânia. É muito importante que ele tenha vindo.”
A mensagem do príncipe tem sido uma de inclusão. “Ver pessoas com próteses e lesões que mudaram as suas vidas será a norma na Ucrânia nas próximas décadas”, disse.”«Ninguém deve sentir-se envergonhado ou constrangido com as suas deficiências. Trata-se de passar da simpatia para a admiração e o respeito.”
O príncipe Harry também reconhece que teve “sorte” na sua carreira militar. “A única coisa que as pessoas sentem falta quando penduram o uniforme é o propósito. Perder o sentido de comunidade e de fazer parte de uma equipa e, claro, a camaradagem e a adrenalina. Mas, no fundo, o seu trabalho, o seu papel é servir um propósito maior do que você mesmo.” O trabalho para a associação Invictus foi uma das coisas que lhe deu esse propósito, depois de ter deixado as forças armadas. “Salvou-me“, admite.