Ao contrário do que tantas vezes aconteceu, a gala da France Football começou no Théâtre du Châtelet sem que ninguém tivesse certezas sobre quem iria terminar a noite com a Bola de Ouro na mão. Raphinha, Lamine Yamal, Mohamed Salah e até Nuno Mendes surgiam entre os principais favoritos, mas o vencedor acabou por ser aquele de quem mais se falou: Ousmane Dembélé.
Aos 28 anos, o avançado francês foi eleito como o melhor jogador do mundo na temporada passada e sucedeu a Rodri como o vencedor da Bola de Ouro. Uma escolha em muito justificada pela conquista da Liga dos Campeões e da Ligue 1 com o PSG, para além da presença na final do Mundial de Clubes, mas também pelo rendimento individual inédito que lhe garantiu a melhor época da carreira: 35 golos e 14 assistências em 53 jogos em todas as competições, a distinção de melhor jogador do ano em França e também de melhor jogador do ano da principal competição europeia.
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Dembélé é assim o segundo francês a receber a Bola de Ouro no espaço de quatro anos, depois de Karim Benzema em 2022, mas apenas o segundo jogador da história do PSG a ter a distinção — já que Lionel Messi, em 2021, representava os parisienses. No que toca ao ranking internacional, a vitória de Dembélé fez com que França igualasse a Argentina enquanto país com mais troféus, oito, sendo que os franceses têm de juntar as de Platini, Zidane, Kopa, Benzema e Papin e os argentinos contam apenas com todos os de Messi. Segue-se a Alemanha, com sete Bolas de Ouro divididas entre cinco jogadores, e depois Países Baixos e Portugal, ambos também com sete Bolas de Ouro mas entre três jogadores.
O triunfo de Dembélé, porém, não deixa de ser uma história de resiliência, perseverança e superação. Depois de explodir no Rennes, clube onde realizou praticamente toda a formação, o avançado nascido em Vernon com ascendência no Senegal e no Mali chegou ao Borussia Dortmund com apenas 18 anos. E só precisou de uma temporada na Bundesliga, apimentada com dez golos em 50 jogos, para merecer o passaporte para a Catalunha.
O problema? Dembélé chegou em 2017 e depois de Neymar sair para o PSG por 222 milhões de euros, o valor mais elevado alguma vez pago por um jogador de futebol, e não foi preciso pensar muito para imaginar que o francês teria a responsabilidade de calçar as chuteiras do brasileiro — ou até a camisola, de forma muito literal, já que herdou precisamente o número 11. Mas entre lesões recorrentes, exibições que oscilavam entre o brilho e o apagão, a ideia de que levava uma vida pouco regrada e com excessos na alimentação e até a noção clara de que não estava feliz, o avançado nunca conseguiu ser o ídolo que os catalães procuravam.
Aliás, a relação entre Dembélé e o próprio Barcelona nunca foi pacífica. Em janeiro de 2022, numa altura em que os catalães garantiam que estavam a tentar renovar contrato com o avançado há vários meses, a imprensa espanhola chegou a escrever que o clube tinha perdido a paciência e que iria tentar transferi-lo até ao fim daquele mercado de inverno. Dembélé, que entretanto tinha ouvido o histórico Hristo Stoichkov a pedir-lhe que parasse de “sujar o emblema do Barcelona”, decidiu responder nas redes sociais.
“Já se passaram quatro anos desde que parei de ler coisas sobre mim mesmo sem nunca tentar justificar-me. Os mexericos sobre mim estão a acumular-se há quatro anos. Faz quatro anos que as pessoas falam por mim, que mentem vergonhosamente com um único propósito: a intenção de me prejudicar. Eu sigo a minha linha de nunca responder há quatro anos, de nunca justificar nada. Tem sido um erro? Certamente. A partir de hoje, acabou. A partir de hoje, responderei honestamente, sem ceder a nenhum tipo de chantagem […] Proíbo qualquer pessoa de dar a impressão de que não estou envolvido no projeto desportivo. Proíbo qualquer um de me atribuir intenções que nunca tive”, escreveu.
Nos dias seguintes, tanto Xavi como Mateu Alemany, então diretor desportivo do Barcelona, disseram publicamente que Dembélé teria de sair ainda em janeiro se não quisesse renovar. Aparentemente, o diferendo prendia-se com o facto de o avançado querer sair a custo zero no verão, enquanto que o clube queria naturalmente garantir que realizava algum tipo de encaixe financeiro com a eventual venda. Dembélé, porém, ficou para lá de janeiro, não renovou e voltou a ser utilizado depois de uma primeira fase em que chegou a não ser convocado. Tudo porque prometeu que renovaria no fim da temporada, algo que acabou por acontecer — e com uma redução salarial de cerca de 40%.
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A estadia na Catalunha, porém, só durou mais um ano. No verão de 2023 e a troco de mais de 50 milhões de euros, mudou-se para Paris para reforçar um PSG que ainda tinha Kylian Mbappé mas que, curiosamente, também tinha acabado de ver Neymar sair para o Al Hilal. Pela segunda vez na carreira, Dembélé tinha a responsabilidade de substituir o brasileiro num dos maiores clubes do mundo.
A primeira temporada no PSG até trouxe números abaixo do último ano no Barcelona, embora com maior utilização e regularidade exibicional, mas tudo mudou na segunda época. Em 2024/25, também com a saída de Mbappé e a ideia que Luis Enrique conseguiu tornar o grupo numa verdadeira equipa que aproveita a qualidade individual para alimentar a coletiva e não o contrário, Dembélé atingiu o melhor momento da carreira e tornou-se um elemento fundamental para o treinador espanhol. Móvel, mais rápido do que nunca, com golos e assistências e uma facilidade ambidestra que não tem grande paralelo na atualidade, carregou o PSG até à conquista da Liga dos Campeões, da Ligue 1 e da Taça de França e afastou o fantasma de que seria sempre uma promessa por confirmar.
Depois da final da Liga dos Campeões, onde Dembélé fez duas assistências durante a goleada contra o Inter Milão, foi mesmo Luis Enrique a lançar o avançado para a Bola de Ouro. “Está toda a gente muito preocupada com quem é que vai ganhar a Bola de Ouro… Eu dava a Bola de Ouro ao Dembélé pela maneira como ele defendeu nesta final. Isto é que é liderar uma equipa. Acredito sinceramente que ele merece a Bola de Ouro, sem dúvida. Não apenas pelos títulos que conquistou ou pelos golos que marcou, mas pelo que defendeu. Fez tudo esta temporada, mas fez tudo ainda mais excecionalmente nesta final”, explicou o treinador, numa ideia corroborada mais recentemente por Luís Campos, português que é diretor desportivo dos franceses, e reiterada pelo próprio espanhol este fim de semana.
Apesar de o PSG ter jogado enquanto decorreu a gala da France Football, já que o jogo contra o Marselha inicialmente agendado para este domingo foi adiado devido ao mau tempo, Ousmane Dembélé conseguiu marcar presença no Théâtre du Châtelet por estar lesionado — assim como Désiré Doué e João Neves, ambos jogadores do PSG e ambos nomeados para a Bola de Ouro e para o Troféu Kopa. Assim, de uma forma irónica, o avançado francês viu os problemas físicos que chegaram a retirá-lo dos maiores palcos serem os responsáveis pelo facto de ter podido subir ao maior palco de todos.
Dembélé recebeu o troféu das mãos de Ronaldinho, que também representou o PSG, e emocionou-se muito quando agradeceu à família, que estava presente na plateia — com a mãe do jogador a subir mesmo ao palco para o abraçar. “O que acabei de viver é excecional. Não tenho palavras. Foi um ano incrível com o PSG, muita coisa aconteceu durante a minha carreira. Ter Ronaldinho, uma lenda do futebol, a dar-me este prémio é excecional. Estou orgulhoso do que conquistei. Quero agradecer ao PSG, que veio atrás de mim em 2023, ao presidente, a todo o clube. Nasser [Al-Khelaïfi] é como um pai para mim. Também quero agradecer a toda a equipa técnica, que foi excepcional, ao Luis Enrique, que também é como um pai para mim. Quero agradecer aos meus companheiros de equipa, ganhámos praticamente tudo. Vocês apoiaram-me. Ganhámos quase todos os troféus e este troféu individual é realmente uma recompensa para a equipa”, começou por dizer.
“Também quero agradecer a todos os clubes em que joguei: Dortmund, Rennes, o meu clube de formação, onde aprendi praticamente tudo, e o Barcelona, onde sonhava jogar, onde aprendi com jogadores excecionais como Andrés Iniesta e Lionel Messi. A Bola de Ouro não era um objetivo na minha carreira, mas é excecional. Trabalhei para tentar ganhar a Liga dos Campeões, a Ligue 1, a Taça de França, e ser recompensado com um troféu individual é excecional. Também quero agradecer aos meus companheiros da seleção nacional, aqueles com quem cresci nas categorias de base, e ao treinador, em quem sempre confiei. Agora esperamos ganhar uma Mundial no seu último ano”, acrescentou, enquanto dezenas de adeptos do PSG já faziam a festa no exterior do Théâtre du Châtelet.
“Também gostaria de agradecer à minha cidade, Evreux, onde cresci e dei os meus primeiros passos no futebol. Tento voltar lá sempre que tenho tempo livre, eles estão sempre lá para mim. Agradeço também à minha família, que sempre me apoiou, e ao meu agente, que sempre acreditou em mim. Ele disse que um dia eu ganharia a Bola de Ouro. Obrigado também à minha mãe e ao meu melhor amigo, que me acompanhou em todos os lugares”, concluiu Dembélé, que é assim o sexto francês a ser eleito melhor jogador do mundo depois de Raymond Kopa (1958), Michel Platini (1983, 1984 e 1985), Jean-Pierre Papin (1991), Zinédine Zidane (1998) e Karim Benzema (2022).
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