Em 1990, o escritor Thomas Pynchon, expoente americano do chamado “romance pós-moderno”, graças a obras como como O Leilão do Lote 49 ou Arco-Íris da Gravidade, publicou Vineland, cuja intriga surreal-satírico-política circula entre os anos 60 e 80, envolvendo hippies velhos e radicais que estiveram metidos no ativismo contracultural violento, e agentes brutais do FBI, entre várias outras personagens muito coloridas, numa complicada e caleidoscópica intriga, bem ao jeito do escritor. Através dela, Pynchon, um esquerdista de pendor anarco-libertário, manifesta a sua execração pela “repressão fascista” dos tempos de Richard Nixon, e por Ronald Reagan (a história passa-se na Califórnia, em 1984), bem como o seu ceticismo sobre o combate governamental ao tráfico de droga.
Em 2014, Paul Thomas Anderson filmou, com resultados pouco relevantes, um dos livros de Thomas Pynchon, Vício Inerente, e queria também adaptar ao cinema Vineland, que acabou por inspirar, nos seus traços gerais, este Batalha Atrás de Batalha, rodado em VistaVision. E se no romance Pynchon se posicionava contra a “América Republicana” e o que entendia ser o perigo de um “estado policial” de direita (embora espetando também algumas alfinetadas na extrema-esquerda psicadélico-paranóica), Anderson transporta essa oposição para os EUA da era Trump. Embora de uma forma muito mais simplista do ponto de vista político, e sem o humor nem a capacidade de elaboração narrativa e de criação de personagens extravagantes próprias de Pynchon.
[Veja o “trailer” de “Batalha Atrás de Batalha”:]
O filme abre nos primeiros anos deste século, quando um grupo de guerrilha urbana, o French 75 ataca um centro de detenção militar de imigrantes ilegais, para os libertar. Dele fazem parte Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma militante fanática e violenta com uma boca de esgoto, e o seu namorado Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), um muito nervoso perito em explosivos. Durante o ataque, Perfidia dá de caras com o comandante do centro, o ridiculamente militarista e reacionário coronel Steven Lockjaw (Sean Penn). E enquanto os membros do French 75 se dedicam depois a roubar bancos e fazer rebentar bombas, Perfidia e Lockjaw embrulham-se numa estranha (e involuntariamente cómica) relação sexual envolvendo sadomasoquismo, humilhação e dominação.
Perfidia fica grávida, não se sabe se de Bob se do coronel, acaba por se tornar numa delatora e entrar num programa de proteção de testemunhas, e a seguir foge para o México e desaparece do mapa. Os membros do French 75 são ou mortos ou presos, menos Bob, que foge com a bebé, que entretanto nasceu, e refugia-se com ela num dos esconderijos do grupo, algures no interior dos EUA. A revolução foi por água abaixo. Passam 16 anos, a bebé, Willa (a estreante Chase Infiniti), é agora uma adolescente, com pouca paciência com a obsessão do pai com a segurança e a sua proteção (nem a deixa ter um telefone), e este passa o dia a ver televisão, a beber e a fumar erva.
[Veja uma entrevista com o elenco do filme:]
Entretanto, Lockjaw tornou-se membro de uma organização secreta de extrema-direita racista e fascista, os Cavaleiros do Pai Natal (não, não estou a inventar…), e volta a aparecer em cena, obcecado em saber se Willa é ou não sua filha. Bob e ela têm que se pôr em fuga, no meio de uma onda de protestos contra a prisão de imigrantes ilegais numa cidade perto da fronteira do México, e o confuso Bob pede ajuda ao professor de karaté da filha, Sensei Sergio (Benicio del Toro), que controla em parte a localidade. E que apesar de ser um traficante de seres humanos, já que passa mexicanos para os EUA clandestinamente, é apresentado como uma personagem positiva, mesmo heroica. A seguir, e para baralhar ainda mais as coisas, entram também na mistura freiras revolucionárias que cultivam marijuana e fazem tiro de metralhadora, e milícias direitistas de assassinos tatuados da cabeça aos pés.
Parte comédia negra e de ação em roda livre, parte panfleto anti-América de Trump feito a traço grosso, Batalha Atrás de Batalha contempla ainda o tema das relações entre pais e filhos e das convulsões familiares, que surge nalguns dos filmes de Paul Thomas Anderson, e sob vários registos, numa trama que dispara para todos os lados e se desenvolve em constante frenesim, povoada por personagens superficiais, esquemáticas ou caricaturais. E cujo exemplo acabado é o risível coronel Lockjaw de Sean Penn, o epítome do militar belicista, repressivo, racista e desumano, sem falar em sexualmente perverso. Já Leonardo DiCaprio é mau até ao embaraço no papel do desnorteado e bedungosoBob Ferguson, rivalizando com Penn no mais cerrado e histriónico cabotinismo (DiCaprio até estraga, pelo excesso, a divertida cena da conversa telefónica de Bob com um camarada ultra-zeloso).
Paul Thomas Anderson estoirou mais de 130 milhões de dólares em Batalha Atrás de Batalha, um filme politicamente primário e infantil, dramaticamente carnavalesco e cinematograficamente destrambelhado, que é bem o exemplo do desconcerto e do atarantamento da Hollywood “liberal” perante a atual situação política e social nos EUA, e do seu enorme e perigoso desfasamento com a realidade. E, last butnot least, é um lamentável desperdício do talento do autor de alguns dos melhores filmes americanos recentes, como Jogos de Prazer, Magnolia, O Mentor ou Linha Fantasma. Mas este é uma grotesca batalha perdida.