Se a “IA discorda completamente desta ideia” então é para avançar. “Fiquei contente por me dizer que era um mau nome para a loja”, ri-se a fundadora Lauren Kennedy Malpas. Admitamos que a eureka chegou pelas quatros da manhã, mas a decisão saída do horário aparentemente impróprio parece funcionar quando alcançamos estas ameias. A concept store Castle Hi Hi Hi (ou hi hi hi, porque, lá está, a vida é feita tanto de saudações e euforia como de risinhos irónicos) abriu portas este sábado no número 3 do largo de Santa Luzia e chamar-lhe loja num sentido estrito pecaria por defeito.
Numa zona onde o turismo atinge principescos níveis de saturação, com o miradouro defronte e a um passo do Castelo de São Jorge, a curadoria exaustiva reuniu as suas tropas e oferece peças escolhidas a dedo, mas também (e antes de mais) uma experiência algures entre o sonho e a fortaleza. Por aqui incentiva-se o encontro e a colaboração, a criatividade e a intervenção manual, gestos tão primitivos e analógicos como desenhar ou escrever, que vamos deixando cair. “Ficava aterrorizada com a ideia de abrir aqui mais uma Ale Hop ou uma Flying Tiger”, desabafa Malpas. “Vivo aqui ao lado e basicamente vejo a loja de casa. Adoro o bairro. A dona do edifício é historiadora medieval e portanto se o antigo inquilino ia sair queria que viesse para aqui algo que pudesse fazer sentido. Chegámos a bom acordo.”, explica-nos.
▲ O castelo This is Util no centro da loja e a fundadora Lauren com a artista Isa Toledo, que criou aerogramas especiais para estarem à venda na Castle HI HI HI
No coração da pequena sala, ergue-se um castelo efémero, que daqui a duas semanas dará lugar a outro tipo de mobiliário, desenhado pelos fundadores. Um castelo digno de 2025, claro, composto por módulos coloridos da This is Util, aqui um projeto pessoal do designer industrial e diretor criativo da marca Manuel Amaral Netto, quem forneceu a dica sobre este canto emblemático.
É no interior de cada módulo da instalação que se escondem as peças para venda, que parece reproduzir os contentores portuários, para mais outra referência local. A encetar as parcerias neste espaço independente e estúdio criativo, uma fornada de objetos com o selo de Constança Entrudo. “A nossa colaboração é a primeira da loja e chama-se Big Dreams. É quase como uma “back to school collection”, com roupa, cadernos e peças de decoração, tudo dentro do mood da BIC pen. O print de bolinhas desenhadas à esferográfica regressa como símbolo de foco, persistência e também do ato de sonhar.”, contextualiza a designer, que desde o início da sua marca tem trabalho com a stylist. Há individuais e bonés revistos por Constança, uma “introdução ao mundo dos interiores”, apesar de outros projetos recentes nesta área em interiores de restaurantes, por exemplo. “É olhar para a bic como símbolo da cultura contemporânea, com tudo de bom e mau. Também temos uns patches”.
O espaço vive de outras edições especiais de objetos do dia a dia, sempre em entrosamento com artistas e artesãos locais e internacionais. Por aqui encontrará peças de roupa, esculturas, livros e até cerveja, como a produção artesanal feita pelo padre Edgar Clara, pároco da igreja de Santa Cruz, junto ao Castelo (originalmente criada com o objetivo de angariar fundos para a restauração da igreja), que a Lauren modernizou com um rebranding especial. “No fundo, toda a gente envolvida no Castle Hi Hi Hi vive ou trabalha em Alfama — e é esse espírito de comunidade que sustenta o projeto.”, explica Constança, cuja long sleeve combina o melhor da descontração com o estampado da gravata, em mais um efeito trompe l’oeil.
Clémentine Berry elaborou o castelo de plasticina que anima os teasers de lançamento enquanto a Piecraft serviu bolachas-puzzle em forma de castelo. Da Cutipol um faqueiro infantil baby rosa, um aerograma da artista Isa Toledo convida a pôr a escrita em dia ou a pintura com este original estacionário. E não faltam os maravilhosos cadernos upcycled com lombadas fluorescentes da Stolen Books, incluindo as imagens do artista visual Martinho Costa ou um livro de Beatriz Banha que cruza notas pessoais e objetos recolhidos durante uma viagem pelo Algarve. Ainda uma edição limitada de Samuel Reis, artesão das das Caldas da Rainha que trabalha com o vidro.
As coloridas lombadas da Stolen Books © Mariusz Kiepura
“Maria, uma senhora que trabalha aqui, faz acessórios para cães, portanto em breve teremos algo com isso. A ideia é ir descobrindo. Eu adoro fazer compras mas quero criar uma experiência intencional, com propósito. E queria lembrar-nos de usarmos as nossas mãos. Estamos a render-nos à IA. Se precisamos de escrever um cartão de aniversário perguntamos ao ChatGPT. Como assim? Os seres humanos são incríveis, têm um imenso poder criativo, estamos a tornar-nos burros só porque sim.”
Em dia de inauguração, Pedro Fernandes, brasileiro a residir em Alfama, vai desenhando os modelos do dia, incluindo as mascotes caninas, que fazem uma paciente pausa junto à janela enquanto aguardam o resultado final. “Conhecemo-nos na rua, a passear os nosso cães. Raquel Espadinha é outra pintura que queremos mostrar. O ponto é não ter regras, queremos uma curadoria muito intuitiva”, frisa Lauren.
Nascida na Austrália, criada na Ásia, e há vários anos dividida entre a base em Paris e a vida em Lisboa, Lauren admite acusar um certo “complexo do forasteiro” de quem viu a cidade nem sempre crescer da forma mais sustentada, a reboque dos novos fluxos. A dois passos da sua atual casa alfacinha, a stylist de moda e responsável por projetos editoriais para clientes como Chanel ou Coca Cola quis contrariar o ciclo e “retribuir” ao país de acolhimento: arrendou uma morada onde durante 150 anos funcionou uma funerária, e que hoje conhece nova vida num bairro tão saturado de turistas como a espera da oportunidade certa. “Conheço bem as implicações [que os expacts trouxeram para a capital], como o aumento das rendas. Quero mudar a imagem do bairro, de ser só turistas e tuk tuks, e contrariar a narrativa viral de que é tempo de partir”.
Um dos patches da colaboração de Constança Entrudo © Mariusz Kiepura
Talvez a limpeza energética (sim, vieram tratar do assunto) tenha ajudado mas o facto é que a luz agora abundante, as paredes despojadas, as duas entradas, e o constante rame rame lá fora fazem esquecer o passado recente e aportam uma abundância inesperada no interior da Castel HI HI HI. Como uma tela em branco pronta para receber neste rés-do-chão um conjunto de ideias e projetos escolhidos a dedo.
Foi há oito anos, no café do marido de Lauren, em Paris, por pura casualidade que a designer conheceu a stylist que trabalhou com marcas como a Dior. Há muito que dividem esforços e ideias e este destino passará a ser um porto constante para Entrudo (aliás, é aqui que Constança irá apresentar em menos de quinze dias algumas próximas novidades da sua marca, no âmbito do calendário da ModaLisboa, numa parceria com a cadeia Humana, para um reaproveitamento de stocks). “Tínhamos uma visão muito semelhante, além de trabalharmos muito a cor, esta coisa fantasiosa, do sonho. Surgiu a oportunidade de fazer esta colaboração on going.”, sublinha Entrudo.
Um exemplar doce saído do evento do dia da inauguração, no passado sábado © Mariusz Kiepura
“A ideia é acreditares que podes construir o teu castelo”, remata Lauren, e daqui a um ano, quando as obras estiverem concluídas, vai ser mesmo possível fazer workshops no andar de cima. Nos sonhos, ou melhor, nos planos, estão ainda parcerias artísticas com pontos próximos como a FRESS – Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e um atelier familiar, nessa pequena grande cruzada de unir todos os pontos.