José Mourinho voltou ao Estádio da Luz como treinador do Benfica e voltou a ser uma das figuras da partida, em que protestou, esbracejou e acabou a criticar a equipa de arbitragem com o seu toque de humor e ironia. Pelo meio, as águias voltaram a ceder pontos nos descontos (1-1), naquele que foi um jogo histórico para o treinador, que a partir desta terça-feira é o único técnico no ativo a orientar os encarnados na nova e na velha Luz. Até aqui, só José Antonio Camacho o tinha feito, mas o espanhol já está aposentado. Em termos de resultados, as contas continuam equilibradas para o Special One, que ganhou quatro dos sete jogos que fez na Luz.

A voz de trabalho ficou afónica no regresso a casa de quem perdeu o gosto para caçar (a crónica do Benfica-Rio Ave)

Esta partida serviu ainda para o Rio Ave colocar fim a uma sequência de 16 jogos a perder no Estádio da Luz em jogos do Campeonato, palco onde os vila-condenses nunca ganharam e voltaram a pontuar quase 20 anos depois (2-2 a 6 de novembro de 2005). Do lado encarnado, as estatísticas do GoalPoint mostram que a equipa de Mourinho desperdiçou praticamente dois golos (2,7 golos esperados), sendo que cerca de metade desse valor deriva de dois lances desenhados por Dodi Lukebakio, um chapéu que acabou nas mãos de Cezary Miszta (0,79 xG, o equivalente a um penálti) e um cruzamento que Richard Ríos não conseguiu desviar (0,76 xG). Para além disso, o Rio Ave tornou-se na equipa com mais ações defensivas numa partida deste Campeonato, registo que já tinha batido aos… 78 minutos.

Noutro capítulo, esta foi a segunda jornada consecutiva em casa em que o Benfica sofreu golos nos descontos, por intermédio de jogadores que entraram durante a partida. Há 18 anos que as águias não tinham apenas uma vitórias ao cabo de três jogos na Luz, a contar para o Campeonato. Por outro lado, a turma de Mourinho tem apenas 11 golos marcados em seis jogos, o que perfaz uma média inferior a dois golos por partida, o pior registo do clube desde 2013/14. Ainda assim, nessa temporada, Jorge Jesus conseguiu reverter a tendência (nove golos) e sagrou-se campeão.

“Na primeira parte foi pouco. A segunda parte foi boa, dentro das nossas limitações. Foi dominante, agressiva, com oportunidades, sempre a jogar no campo adversário, mas a jogar de maneira adversária. Os dois jogadores que entraram deram um cariz diferente ao jogo. Não quero dizer que fizeram um jogo tremendo. Se isto é o novo futebol, em que se anulam golos por pisar um dedinho com um outro dedinho, eu não gosto deste novo futebol. Depois é o momento em que não se pode sofrer. É tremendamente injusto. É um resultado péssimo para nós. Uma primeira parte pobre, mas uma segunda parte boa. O jogo foi o que o Rio Ave quis e o árbitro permitiu. Pouco podemos fazer em relação a isso. O que podemos fazer é jogar como jogámos na segunda parte”, disse José Mourinho na flash-interview da SportTV.

“O protagonista do jogo acabou por ser o senhor que estava na Cidade do Futebol ao chamar o árbitro para ver aquilo que vimos e depois o árbitro não ter personalidade, que normalmente não têm, quando vi que foi chamado já sabia que ia ser anulado. Na segunda parte fizemos de tudo. Não somos uma equipa com grande presença na área, nem física, nem de características de área. Fizemos um bom golo. Perdemos dois pontos importantes. Acho que esta segunda parte foi melhor do que a segunda parte na Vila das Aves. Tem mais qualidade e mais consistência. Tivemos 35 minutos verdadeiramente bons, com bola perdida e bola recuperada. Se dividirmos os meus dois jogos em quatro partes, esta foi claramente a melhor”, acrescentou, já na sala de imprensa da Luz.

Mais à frente, o treinador de 62 anos sublinhou que não é “obrigado a gostar” do “futebol atual”. “Não gosto deste tipo de golo anulado, seja para um lado ou para o outro. Não quer dizer que eu esteja a ser crítico. Honestamente, não acho que seja um golo para ser anulado. Um jogador que eventualmente simula fora da área, aos cinco minutos de jogo, leva cartão amarelo? Nem sei se simulou. Há jogadores que passam o jogo todo a retardar… mas lá está, são critérios. Não gosto de ir por aí e não foi por aí, não foi pelo árbitro que não ganhámos. Os árbitros também têm responsabilidade de melhorar o futebol, como nós. Eu também já fiz o mesmo e talvez vá fazer outra vez. Tivemos pouco jogo interior. Recuperávamos as bolas e, em vez de orientar, jogávamos novamente para trás, com uma relva fantástica para jogar depressa… A culpa também é minha porque optei por jogar com esta equipa. O Lukebakio não tinha condições para jogar muito mais do que aquilo que jogou”, concluiu o Special One.