História
É em homenagem à avó materna que a italiana Ludovica Rocchi Brandão abre um segundo espaço em Lisboa. Tantazzi vem evocar o nome de família que há 80 anos explora em Roma o mundo da restauração escondida atrás de um outro nome: Fiammetta. Foi em 2018 que Ludovica e o marido, Manuel Brandão, inauguraram em Campo de Ourique aquela tão conhecida mercearia italiana que abriu com o objetivo de ser isso mesmo: uma loja de produtos 100% italianos. Rapidamente sentiram a necessidade de dar a conhecer aos clientes as formas — e receitas — como podiam utilizar aquilo que vendiam e à mercearia adicionaram um restaurante, com cinco ou seis mesas, que atualmente conta já com 50 lugares. Apesar do sucesso do negócio, a pequena cozinha da Fiammetta não permitia a Ludovica oferecer aos clientes todos os pratos que queria. “Não posso brincar muito com a cozinha. Não posso propor tudo o que a cozinha italiana tem para propor. Então chegou a altura de dar um segundo passo e abrir um segundo espaço”, recorda a empresária em conversa com o Observador.
Assim nasce o Tantazzi, inaugurado esta quinta-feira, dia 25 de setembro, no número 9 da Avenida Elias Garcia, é um restaurante de receitas “antigas, clássicas e italianas”, às vezes com um “twist mais moderno”, numa cozinha despretensiosa que desafia os clientes a fazer os mesmos pratos em casa. Com uma carta e um nome diferente da Fiammetta, Ludovica explica não querer ter um conceito franchising, deixando assim que cada restaurante tenha a sua própria identidade: “A família é a mesma, mas o que nós queremos propor, na verdade, são pratos diferentes”, afirma. Quanto à mercearia — “é a nossa cara” — também aqui encontramos uma muito mais pequena amostra daquilo que se pode adquirir em Campo de Ourique: “Escolhemos para aqui os nossos best-sellers. O pesto de rúcula, o tagliolini. Portanto, as coisas que se vendem mais, mas que são também mais representativas do nosso espaço”.
▲ Ludovica Rocchi Brandão e Manuel Brandão trouxeram uma amostra da mercearia da Fiammetta para o Tantazzi
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Já em Campo de Ourique contam com um piso inteiro dedicado à gastronomia italiana que tanto atrai a comunidade em Portugal como os próprios portugueses. “O portugueses perguntam e pedem sempre ajuda para receitas, portanto, pedem sugestões. Os italianos sabem, portanto, não precisam. Mas acho que há uma sinergia boa entre restaurante e mercearia”. É um bocadinho dessa sinergia que vão poder ter agora nas Avenidas Novas — local escolhido por, para o casal, fazer lembrar Campo de Ourique. Afirmam, no entanto, ser um público diferente: “Ainda estamos a descobrir mas estamos abertos para todos. Na inauguração tivemos pessoas que trabalham cá à volta, grupos de amigos, famílias, e até clientes habituais [da Fiammetta] que moram aqui na zona.”
Espaço
Na esquina que cruza a Avenida Elias Garcia com a Rua Eiffel viveu em tempos uma pastelaria — que roubava o nome àquela rua — e que vê agora o seu espaço ser transformado. Daquela história restam os letreiros, que passaram de decorar a fachada a ser expostos na casa de banho do Tantazzi. Em azul escuro, as palavras “pastelaria” e “snack-bar” recebem quem lá entre, e podem muito bem induzir em erro. “Na Fiammetta temos um chão verde, que é um chão original, que nós encontramos lá. Portanto, o que tentamos fazer é deixar sempre um pouco de autenticidade aos espaços”, explica Ludovica, acrescentando ainda que a estrutura de madeira que cai pelo teto da sala é um desses exemplos: “Foi algo que descobrimos. Tinha um teto dos anos 70, acho eu, que estava feio e podre por isso decidimos tirar. Devagarinho encontramos esta estrutura mas não fazemos ideia do que seja”. Em madeira castanha escura, dá assim mote aos apontamentos em madeira que compõem o espaço: das cadeiras aos móveis, passando pelas prateleiras que recebem os produtos da mercearia.
▲ No Tantazzi, produtos como queijos, enchidos e vinhos estão expostos tanto na entrada como na sala
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“A Fiammetta pode ter, se calhar, um aspeto mais industrial. Mas são muito parecidos. Óbvio que clientes nossos quando entram podem dizer: ‘Espera lá, isso é Fiammetta’. Não, não é. É a irmã”, esclarece. Assim como acontece em Campo de Ourique, no Tantazzi somos recebidos por uma despensa 100% italiana que faz de entrada para a sala, que conta com os sofás tantas vezes requisitados na irmã mais velha. Ainda na entrada, a acompanhar o balcão está uma vitrine de queijos prontos a ser escolhidos para decorarem as tábuas ou para serem vendidos para fora. Já ao fundo da sala, salta à vista uma montra de vinhos que, assim como em Campo de Ourique, que conta com 100 referências, são todos italianos: “Não temos um único vinho que seja igual ao outro”, diz, referindo-se à Fiammetta. Na carta, cada um deles vem acompanhado por uma descrição com as respetivas características. É mão de Manuel Brandão, que começou o dia com uma prova de vinhos da Capanna Winery que já fazem parte da seleção do Tantazzi.
Comida
“O conceito é uma Fiammetta alargada”, começa por dizer ao Observador Ludovica. O que vem então de lá? O clássico spaghetti alla carbonara (16 euros) — que aqui chega em massa mezze maniche — e o trofie alla sora checca (15 euros), uma massa fresca curta com tomate da estação, mozarela de búfala e azeitonas taggiasche. Mas, antes de chegarmos às pastas, há todo um menu de antecedentes criado pelas mãos do chef italiano Thibault Gilardi, que já faz parte desta esta família há cinco anos. Nos antipasti, a beringela panada em molho de tomate e queijo stracciatella (10 euros) e a crema di burro alla carbonara (8 euros), uma manteiga de carbonara com pão tostado, abrem o apatite para as saladas, as focaccias e as tábuas de queijos e enchidos — que o próprio cliente pode escolher da montra.
▲ A massa mezze maniche alla carbonara e o crostino de mozzarella di bufala e presunto de Parma
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Acho que temos um pouco de tudo porque conseguimos vir almoçar por 15 euros, se ficarmos aqui pelas focaccias. Portanto, acho que é um bom equilíbrio, é uma carta equilibrada. Se alguém quer fazer um almoço mais forte, encorpado, ficar mais satisfeito, tem um pouco de tudo”, defende Ludovica que dá ainda conta que, tanto ao almoço como ao jantar, o Tantazzi vai ter cinco pratos do dia. “Vamos estar abertos todos os dias ao almoço e jantar e a cozinha também vai ficar aberta à tarde”, adianta ainda.
Durante todo o dia é assim possível contar com uma carta que apresenta ainda uns gnocchi fritos com creme trufado e queijo pecorino (18 euros), uma massa spaghettoni com grelos salteados, anchova do cantabrico e creme de ricota (16 euros), um risotto de açafrão com javali estufado (19 euros) e uns ravioli recheados de alcachofras e menta (17 euros). Já nos secondi piatti há fatias de novilho braseado aromatizado com azeita, pimenta verde e rosmaninho (20 euros), escalope panado à maneira milanesa (18 euros) e um bife tártaro com ovo, alcaparras, cebola vermelha e molho de iogurte com alho (22 euros). Nos dolci, não falta o levíssimo tiramisú (8 euros), um affogato al caffè (6 euros) e al whiskey (12 euros), uns cannoli sicilliani (8 euros) e uma torta caprese al cioccolato (6 euros), que fez o seu caminho desde Campo de Ourique.
▲ O tiramisú do Tantazzi
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes e cartas.