Sean Combs, rapper, produtor musical e empresário conhecido pelos nomes artísticos P. Diddy e Puff Daddy, foi condenado esta sexta-feira a quatro anos e dois meses de prisão por dois crimes de ajuda à prostituição, pondo assim fim a um dos mais mediáticos casos judiciais dos EUA dos últimos anos. De acordo com a CBS, o rapper vai receber crédito pelos 13 meses que já passou atrás das grades. Subtraindo-se este tempo, Combs vai ficar preso três anos e um mês.

O juiz impôs também uma multa de 500.000 dólares (cerca de 425 mil euros) a Combs, sendo esta a multa máxima que lhe poderia ter aplicado.

A leitura da sentença pelo juíz Arun Subramanian, do Tribunal Federal Distrital de Manhattan, decorre de um julgamento que durou oito semanas e cujo veredito foi anunciado em julho. O júri considerou então Combs culpado dos dois crimes acima descritos, mas inocente das acusações mais graves de crimes de conspiração para extorsão, de tráfico sexual da ex-namorada Casandra Ventura e de tráfico sexual da ex-namorada “Jane”, vítima sob pseudónimo. O rapper declarou-se inocente de todos os crimes.

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Caso tivesse sido condenado pelas cinco acusações que pendiam sobre si, o arguido arriscava uma pena de prisão perpétua; ao invés, tendo o crime de ajuda à prostituição uma moldura penal máxima de 10 anos, Combs enfrentava assim, no pior dos cenários, 20 anos atrás das grades.

“Um historial de boas obras não pode apagar o poder e o controlo que tinha sobre as mulheres”

O juiz Arun Subramanian começou a sua intervenção em tribunal a destacar o facto de Sean “Diddy” Combs ser um artista e empresário selfmade e que “inspirou e elevou comunidades”. Observou que o seu trabalho e impacto são “celebrados e icónicos” e destacou o seu “impacto na comunidade negra e empreendedorismo”.

“Isso é especialmente impressionante tendo em conta a morte violenta e precoce do seu pai e o trauma que deve ter deixado”, disse Subramanian.

Citado pela CNN Internacional, o juiz admitiu que “as drogas podem ter exacerbado o seu comportamento errático e violento ao longo dos anos”, mas assumiu que o “tribunal tem de ter em conta todo o seu historial”.

Apesar de todo o contexto, o magistrado rejeitou a tentativa da defesa de caraterizar os “freak-offs” e as noites de hotel como experiências consensuais íntimas ou apenas uma história de ‘sexo, drogas e rock ‘n’ roll’”.

“Um historial de boas obras não pode apagar o poder e o controlo que tinha sobre as mulheres que dizia amar muito. Abusou delas física, emocional e psicologicamente e usou isso para conseguir o que queria”, afirmou, recordando os testemunhos de várias vítimas, incluindo o de Cassie Ventura.

Apesar disto, Subramanian disse que uma sentença de mais de 11 anos, como solicitado pelo governo, “não é razoável”. “Atos de violência sexual são, infelizmente, comuns e deve ser aplicada uma pena substancial para enviar uma mensagem aos agressores e às vítimas de que os abusos contra as mulheres são objeto de uma verdadeira responsabilização”, justificou o juiz.

Depois de anunciar uma pena de pouco mais de quatro anos de prisão, o juiz referiu que se trata de um “período difícil” longe da família, mas também referiu que Combs terá uma vida depois da prisão. Ordenou ainda que Combs cumprisse cinco anos de liberdade supervisionada.

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“Não tenho ninguém para culpar a não ser eu próprio”. As palavras de Combs em tribunal

Antes da leitura da sentença, Sean “Diddy” Combs falou em tribunal. “Compreendo a gravidade da situação e estou a ter de lidar com as consequências. E assumo toda a responsabilidade”, disse. Mas apelou: “Eu sei que a acusação quer que façam de mim um exemplo, só quero que pensem em fazer um exemplo do que uma pessoa pode fazer se tiver outra oportunidade.”

“Se me derem outra oportunidade, não vos vou desiludir. E a prova disso são aquelas crianças lindas que se levantaram e falaram por mim”, afirmou, dirigindo-se aos seus quatro filhos, que tinham tomado a palavra pouco antes.

“Nunca, mas nunca mesmo, voltaria a pôr em risco estar nesta situação, estar longe da minha família que precisa de mim. É essa a minha dissuasão”, afirmou ainda.

Combs assumiu ainda que não tem “ninguém para culpar” a não ser ele próprio. “Sei que não voltarei a pôr as mãos noutra pessoa. Sei que aprendi a minha lição. Estou disposto a cumprir todas as condições que o tribunal me impuser”, acrescentou.

“Se tivermos oportunidade, quando falarmos da possibilidade de eu contar a minha história, não é apenas um esquema para tentar obter menos tempo – é porque esta história é real, esta história é trágica”, afirmou ainda.

Antes da leitura da sentença, Combs enviou carta de quatro páginas ao juiz

Os procuradores tinham pedido uma pena de 11 anos de prisão, ao passo que a defesa do artista pediu que não ultrapassasse os 14 meses — o que, confirmando-se, poderia resultar na liberdade de Combs ainda este ano, pois receberia crédito pelo tempo que já passara no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn desde a sua prisão em 16 de setembro de 2024. Desde que foi condenado, o juiz recebeu dois pedidos para sair da prisão, mas rejeitou-os.

Antes da leitura da sentença desta sexta-feira, Combs enviara uma carta de quatro páginas a Subramanian pedindo uma pena mais leve e pedindo desculpa “por toda a mágoa e dor” causada pela sua conduta, adianta a Reuters.

“Perdi o meu caminho, perdi-me nas drogas e nos excessos. A minha queda teve origem no meu egoísmo”, terá escrito, adiantando ter ficado sóbrio pela primeira vez em 25 anos e que a experiência na prisão o deixou “humilde e destroçado”. “Assumo total responsabilidade pelos meus erros passados”, adiantou ainda, apontando que a sua “violência doméstica” seria para sempre “um fardo pesado” que teria “de carregar para sempre”.

As confissões de Combs ocorreram depois da sua equipa de defesa ter visto um pedido para anular a condenação criminal decorrente do veredito de julho ser rejeitado por Subramanian esta terça-feira. O pedido, datado de 30 de julho, alega que não só o músico não participava ativamente nessas sessões de sexo, como os vídeos que gravava consistiam em “pornografia amadora”, uma prática que a defesa diz neste caso estar protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

O pedido alertava ainda que as provas utilizadas para sustentar as acusações entretanto caídas de conspiração para extorsão e tráfico sexual viriam a contaminar a sentença quanto ao caso de prostituição. O mesmo se sucede com as provas de que Combs abusava fisicamente das suas namoradas — inclusive um ato de violência doméstica praticado contra Casandra Ventura num hotel em 2016 apanhado pelas câmaras de vigilância. A defesa reconhecia a veracidade dessas práticas, mas contrapondo que as vítimas participaram voluntariamente nas performances sexuais.