1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-514531296
i

▲Casandra Ventura testemunhou na semana passada, no julgamento de Combs, do lado da acusação

Getty Images

▲Casandra Ventura testemunhou na semana passada, no julgamento de Combs, do lado da acusação

Getty Images

De grande promessa do R&B à relação com "Diddy" que minou tudo o resto. Quem é Cassie, a peça-chave do julgamento de Combs?

Casandra conheceu Sean Combs em 2006, que apostou nela como cantora. Relação saiu do estúdio e passaram a ser namorados mas seguiram-se dez anos de violência doméstica e festas de sexo e drogas.

“Desde que sejas bom comigo, eu vou tratar-te da maneira certa”, cantava Cassie, em 2006, no seu single de estreia Me & U, produzido por Ryan Leslie que alcançou o primeiro lugar na tabela Hot R&B/Hip-Hop Songs da Billboard. Foi a sua grande estreia no mundo da música e, a 20 anos de distância, o seu maior sucesso musical.

O mundo estava aos pés da cantora de 19 anos, quando a música — que ainda hoje é indispensável numa tracklist de êxitos dos anos 2000’s — se tornou popular além fronteiras. Apesar de a sua carreira até esse momento ser de modelo fotográfica, a recém-chegada à indústria da música assinou um contrato promissor com a empresa discográfica Bad Boy Records, detida por Sean P. “Diddy” Combs — rapper e produtor musical.

Foi a partir daí que a sua vida mudou, mas não como se esperaria de uma jovem cantora que acabava de assinar um acordo milionário. O contrato era quase inédito, incluía a gravação de dez álbuns, que ultrapassava a extensão de acordos até então conseguidos por artistas como Rihanna ou Britney Spears, que na altura já tinham atingido o estrelato. Desta dezena de potenciais discos, só dois chegaram a ver a luz do dia.

Cassie não conseguiu igualar ou sequer aproximar-se do sucesso alcançado com o seu single de estreia. Participou, no entanto, em vários filmes como atriz, caso do Step Up 2 e Honey 3, tendo sido a protagonista deste último.

Casandra Ventura, nome de batismo, nasceu em New London, no estado norte-americano do Connecticut, em 1986, filha de mãe afro-americana e mexicana e pai filipino. Começou a sua carreira como modelo aos 14 anos, desfilando para marcas como Calvin Klein e aparecendo em revistas como a GQ e Seventeen. Quando entra no meio musical fica conhecida por ser um autêntico diamante em bruto. “Diddy” quis, por isso, garantir que mantinha a artista sob a sua alçada. Em meados dos anos 2000, o rapper atingia o pico da sua popularidade e estava a assinar contratos com artistas de sucesso como The Notorious BIG, Mase e Faith Evans.

Não tardou até que o produtor de música, na altura na casa dos 30 anos, e a artista, que tinha acabado de atingir a maioridade, se envolvessem numa relação romântica sinuosa que viria a durar mais de uma década, com muitas interrupções e polémicas pelo meio.

Na semana passada, enquanto testemunhava no Tribunal Federal de Manhattan, com o ex-companheiro sentado no banco dos réus acusado dos crimes de tráfico sexual, violação e ofensas à integridade física, Cassie, hoje com 38 anos, recordou como começaram os episódios de violência doméstica de que foi alvo por mais de uma década. “Fazia a expressão errada e, quando dava por mim, estava a levar na cara”, recordou.

GettyImages-106112649

▲ Cassie, em setembro de 2006, durante uma visita à MTV, em Nova Iorque

FilmMagic

A lógica da letra do grande hit da cantora de R&B invertia-se na vida real: o namorado não era “bom com ela”, mas ela tentava “tratá-lo da maneira certa” com esperança que isso mudasse.

Dos ciúmes e controlo à violência doméstica. Cassie seria agredida por tudo e por nada

Quando conheceu Combs, em 2006, Cassie só sabia que ele era um grande empresário e músico. “Era fã da sua música. Não sabia muito sobre ele pessoalmente”, recordou Casandra Ventura em tribunal. Contou ainda que a relação extrapolou de profissional para amorosa durante uma viagem a Miami, onde tiveram relações sexuais num barco.

Da primeira vez que estiveram juntos, o rapper deu-lhe um comprimido de ecstasy para que pudessem passar um bom momento. Depressa percebeu, quando os dois já eram namorados, que do mundo de “Diddy” fazia não só parte a música e a fama, mas também — e em grandes quantidades — o sexo e a droga.

Dawn Richard, antiga amiga do casal, testemunhou em tribunal que bastava que Cassie se "defendesse" ou emitisse uma opinião diferente da de Sean Combs para ser agredida fisicamente

O humor do produtor musical mudava do dia para noite. Tinha reações extremas para com quem o rodeava, que nessa altura era, muitas vezes, Cassie. “Diddy” começou por demonstrar ser muito possessivo com a nova namorada, sempre que ela não atendia os telefonemas ou respondia a mensagens ele contactava-a “incessantemente”. Se não tivesse resposta no tempo que queria, mandava os seus assistentes e seguranças irem atrás dela para perceber onde estava e com quem.

Das cenas de ciúmes aos insultos constantes por não estar a vestir o que ele queria ver, ou a dizer o que ele queria ouvir, foi um passo curto e bastou pouco tempo para que o rapper a começasse a agredir fisicamente. Várias testemunhas arroladas pela acusação no julgamento de Sean Combs são amigos da época da cantora que dizem ter assistido às agressões constantes.

A cantora Dawn Richard é uma delas. Conheceu o casal depois de participar no reality show “Making The Band”, onde Combs era jurado, e acabou por colaborar artisticamente com o rapper ao longo de vários anos. Em tribunal, na segunda-feira passada, Richard descreveu dois casos de agressão. Um deles teve lugar num concerto no Central Park, onde Dawn Richard disse ter visto “Diddy” dar um murro na cara de Ventura com o punho fechado, cita o The Washington Post.

GettyImages-102474191

▲ Dawn Richard e P. Diddy gravaram músicas em dupla e atuaram juntos em várias ocasiões

Getty Images

A outra agressão remonta a 2010, quatro anos depois de os artistas terem começado a namorar. O rapper deu um murro no estômago de Ventura num restaurante em West Hollywood. Além dos empregados do local estavam presentes algumas das celebridades representadas pela Bad Boy Records. E como sempre houve silêncio, a reação mais comum dos que assistiam aos episódios de violência doméstica, garantiu esta testemunha.

Questionada sobre se entendia quais eram as motivações do seu antigo mentor para bater na namorada, Richard afirmou em tribunal que havia uma lista extensa de contextos em que a companheira de Combs era agredida. “Podia ser a Cass a defender-se, podia ser ela ter uma opinião…”, afirmou.

“Freak-offs” comprometeram carreira da cantora

A opinião de Cassie pouco importava na relação que teve com Sean “Diddy” Combs, recordou a própria em tribunal, cerca de seis anos depois do fim definitivo do relacionamento que se prolongou, com períodos de curta pausa, por mais de uma década.

Combs fazia-lhe exigências sexuais implacáveis e aproveitava, muitas vezes, o contexto sexual para a agredir fisicamente. As vivências íntimas que os dois tinham também não eram as de um casal regular. O rapper era conhecido pelas festas de sexo e drogas das quais era anfitrião. Batizou-as de “freak-offs” e Cassie tinha lugar cativo nos encontros.

O produtor musical terá angariado ilegalmente dezenas, senão centenas, de trabalhadores de sexo e outras pessoas a quem pagava para ter relações sexuais com a companheira, mas também com outras mulheres com quem se envolveu ao longo dos anos. Por vezes assumia um papel ativo nas orgias que chegavam a durar mais de 48 horas, mas na maioria dos casos, segundo tem estado a ser descrito em tribunal, ficava de fora, a masturbar-se e a gravar os atos sexuais, para mais tarde rever.

Estes registos em vídeo acabaram por servir, mais tarde, como meio para chantagear a companheira, que a certa altura se recusou a participar em mais festas. Em tribunal disse que na altura queria estar apenas com o namorado sexualmente, já que receava estar a ficar associada ao papel de mera protagonista das festas de sexo. Estava também a desenvolver um problema de abuso de álcool e drogas, que não eram facultativas naquele contexto.

GettyImages-527194702

▲ Cassie e "Diddy" foram fotografados juntos em dezenas de red carpets e outros eventos

WireImage

“Diddy” pressionava Cassie a continuar a participar nos “freak-offs” através das imagens íntimas que tinha recolhido e que podiam, com um mero upload, destruir-lhe a carreira de cima a baixo. Carreira para a qual a cantora não tinha sequer disponibilidade. Terá sido por isso, sabe-se agora, que muitas das suas gravações e lançamentos de álbuns foram sucessivamente adiados.

Casandra Ventura passava não só dias a fio a participar nas festas de sexo, como era muitas vezes responsável pela organização das mesmas, juntamente com os assistentes mais próximos de Combs, disse um deles esta semana em tribunal. Tinham de marcar hotéis, comprar lotes de óleo de bebé, lubrificantes e preservativos. Além disso era preciso angariar pessoas para ter relações sexuais com o casal e com outras celebridades que viessem a participar nas festas.

A defesa do fundador da Bad Boys Records está a tentar apresentar uma linha de argumentação em tribunal que aponta para Combs e Cassie enquanto um casal de “swingers”, tentando por tudo afastar as acusações de tráfico sexual e de outros crimes sexuais. O rapper admite, no entanto, os crimes de violência doméstica contra a antiga namorada.

GettyImages-937012062

▲ Casal de artistas está agora sentado em lados opostos do tribunal. Cassie é testemunha e Combs acusado

GC Images

No contra-interrogatório à testemunha-chave de todo o julgamento, perguntaram, não só à própria Cassie, mas também a um dos homens que manteve relações sexuais com ela a troco de dinheiro para satisfazer Combs, se ela estaria a “gostar” do que se passava nas festas de sexo, numa tentativa de provar que as relações foram sempre consentidas e não aconteceram sob pressão.

A artista garantiu em tribunal que era obrigada a fingir que tirava prazer dos atos sexuais, caso contrário ficaria em maus lençóis perante o companheiro. Tinha medo dele, garantiu, não só devido aos danos que ele lhe poderia causar através da divulgação dos vídeos íntimos — que ela lhe pediu muitas vezes que fossem apagados, sem sucesso — mas também das agressões físicas a que poderia ficar sujeita no caso de não agir exatamente como Combs desejava.

No final da gravidez do terceiro filho, Cassie contou em tribunal os danos que dez anos de agressões lhe deixaram

Uma das provas mais fortes apresentadas até agora em tribunal mostra, precisamente, as consequências que Cassie teria de enfrentar se contrariasse a vontade do companheiro, argumentam os procuradores do caso.

Trata-se de um vídeo, captado por câmaras de videovigilância num hotel em Nova Iorque, em 2016, em que Sean Combs é visto a pontapear, empurrar e arrastar a artista. As imagens foram obtidas e divulgadas em maio de 2024 pela CNN. Pela voz de Ventura, soube-se agora que a agressão ocorreu num “freak-off” que precedeu a estreia de um filme que a artista protagonizava.

Combs enviou-lhe uma mensagem de texto a pedir-lhe para estarem juntos sexualmente na véspera do evento. Para evitar que a estreia corresse mal, Cassie decidiu satisfazer-lhe a vontade com uma das festas de sexo. “Assim garantia que a minha estreia correria bem”, confessou perante o juiz e o júri no tribunal nova-iorquino na semana passada.

No quarto de hotel estava Cassie, uma acompanhante e Combs. Durante a relação sexual, o rapper acertou na companheira e deixou-lhe um olho negro. “Nessa altura, só conseguia pensar em sair dali em segurança”, recordou a testemunha. Depois de Combs a seguir para o corredor do hotel e de a ter atirado ao chão, diz Ventura, ela tapou a cara e ficou prostrada porque “não queria que ele fizesse mais estragos do que os que já tinha feito”.

Foi ainda questionado a Casandra Ventura, pelos procuradores, quantas vezes, durante a sua relação com Sean Combs, ele a tinha atirado ao chão, como se pode ver no vídeo do hotel. “Demasiadas para contar”, afirmou.

“Tu podes fazer isto sem mim. Não precisas mais de mim aqui”, terá dito Cassie ao seu atual marido, Alex Fine, depois de considerar desistir de tudo, em 2023

No banco de testemunhas, onde prestou declarações por mais de cinco dias, grávida de nove meses — entre questões dos procuradores que a arrolaram e dos advogados do rapper no contrainterrogatório — disse que as agressões físicas e sexuais de Combs, ao longo de mais de uma década, a deixaram emocionalmente devastada e levaram mesmo a que, em 2023, tivesse considerado o suicídio.

“Estava a perder a cabeça”, contou, citada pelo New York Times. “Eu não queria mais estar viva naquele momento”. No banco das testemunhas, acabou por chorar a recordar o dia em que, já depois de regressar da clínica onde esteve internada, num processo de reabilitação para tratar o problema de drogas que desenvolveu devido aos “freak-offs”, colocou as duas filhas na cama e disse ao pai das crianças: “Tu podes fazer isto sem mim. Não precisas mais de mim aqui”. Diz que saiu de casa em direção à estrada, mas que o marido interveio a tempo de evitar o pior.

Revelou ainda que, em 2018, quando a relação dela e de “Diddy” já tinha terminado, num contexto de um jantar de reconciliação — para que o ex-casal pudesse manter uma relação cordial — Combs acabou por violá-la quando os dois regressaram ao seu apartamento.

GettyImages-1398570438

▲ Cassie com o marido, Alex Fine, e uma das filhas

Getty Images for 1/ST

No final do seu longo testemunho em tribunal, Cassie está agora prestes a dar à luz. É o terceiro filho que vai ter com Alex Fine, o personal trainer com quem casou em 2019. Foi autorizada a presença do atual companheiro na sala de audiências, mas este tem estado a abandonar o espaço durante as partes do depoimento da mulher que o envolvem, já que o próprio poderá ser arrolado como testemunha, tanto da acusação como da defesa de Combs.

Para Cassie a presença em tribunal já acabou, mas espera-se que nas próximas semanas sejam ainda ouvidas muitas mais testemunhas, tanto da parte da acusação como da defesa do produtor musical que está preso preventivamente em Nova Iorque desde setembro do ano passado, depois de serem recolhidas provas incriminatórias da organização dos “freak-offs”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.