Lili Caneças é presença assídua na ModaLisboa — nunca perdeu uma edição — mas quase falhou à estreia de Bárbara Bandeira (ou melhor, da 2B, ou “to be”). E não foi pelo atraso de mais de uma hora para o arranque do desfile que encerrou a primeira noite de ModaLisboa no Pátio da Galé esta sexta-feira, 3 de outubro. “Até telefonaram-me porque no convite vinha B não sei o quê e eu nem sabia que era a Bárbara Bandeira. Eu adoro a miúda! Acho que ela é uma cantora fantástica. Agora, apresentar roupa é que eu não estava nada à espera. Acho que esta ModaLisboa vai voltar à base do bom gosto, do glamour e de gente bonita, e de tudo o que a moda significa”.
Para a 2B o chão da passarelle transformou-se num espelho. E o reflexo estava também nas roupas, com diferentes texturas, todas brilhantes: dos metalizados aos acabamentos plásticos, passando pela pele e pelos bordados de cristais ou mini lantejoulas, sem esquecer da seda. Os modelos e cortes misturaram alfaiataria oversized com corsets e vestidos com decotes. Pelo meio peças de streetwear, como blusões com capuz, e calças de ganga. Todos looks que poderiam estar num videoclipe ou num concerto de Bárbara Bandeira, e que traduzem o estilo da artista nos últimos anos.
▲ Bárbara Bandeira, a diretora criativa da marca 2B, com o designer João Morais -- na plateia amigos da cantora, como Agir e Irma
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Pouco se sabia sobre a marca antes do desfile. Mas assim que a última modelo pisou na passarelle, Bárbara Bandeira revelou logo que não está sozinha no processo de criação. “Não faria sentido, eu não sou designer. A minha função nesta marca é ser diretora criativa e precisaria sempre de alguém que desenhasse as peças e que me ajudasse. E daí também não ter lançado uma marca de roupa mais cedo, porque não me sentia preparada”, assume aos jornalistas depois do desfile. A dupla escolhida é João Morais, um jovem criador que dá os primeiros passos no mundo da moda. Vindo de Mondim de Basto, em Vila Real, estudou design de equipamento e fez estágio na No Brand, tendo também formação em marketing digital e e-commerce. “Não tenho nada a ver com moda, mas a moda sempre puxou por mim”, diz o designer, que foi uma indicação dos stylists de Bárbara. “Nunca nos tínhamos visto na vida. E percebi que há uma coisa que eu e o João temos em comum. É que nós gostamos muito de trabalhar e somos muito obcecados com aquilo que fazemos”, afirma a cantora.
Sobre o processo de criação, João explica que o tema da coleção é “construção”, e que procurou também “referências de outros designers”. Entretanto, é inegável que a coleção tem o estilo pessoal de Bárbara Bandeira. “Queria muito encontrar o blazer perfeito. E sempre senti que era muito difícil encontrar nas lojas habituais um blazer que eu gostasse de usar todos os dias e que fosse confortável e que tivesse a estrutura que eu gostaria. E eu acho que a coleção acabou por nascer muito daí”.
A marca apresenta-se com uma proposta “sem género” e com produtos feitos 100% em Portugal. A coleção deve ficar disponível para venda online, mas a dupla é cautelosa sobre os próximos passos. “É um dos meus objetivos conseguir um espaço físico, mas, como tudo, é uma construção. Vamos aguardar pelo feedback das pessoas”, diz Bárbara. “Acho que já estão à espera e nós não vamos ficar parados”, garante João sobre as futuras novas criações — a marca prevê de duas a três coleções cápsulas por ano. Para já a 2B ganha impulso com a popularidade da cantora, que tem quase um milhão de seguidores no Instagram e uma legião de fãs, prontos para apoiar a nova marca. O desfile foi transmitido em direto em ecrãs em Lisboa e no Porto, e nas redes sociais já são muitas as interações e comentários positivos. No Pátio da Galé, Bárbara teve a presença de amigos da música, como Agir ou Irma, e também da moda, como Gonçalo Peixoto e Luís Borges. E, claro, Lili Caneças, que ficou para ver o que a cantora tinha para apresentar depois do desfile de Alves/Gonçalves algumas horas antes.
O “Manel” que veio ver os “Manéis”
É a segunda coleção de José Manuel Gonçalves a solo. O desfile de Alves/Gonçalves trouxe para a ModaLisboa uma figura que nem sempre frequenta estes eventos. Um dia depois de apoiar Suzana Garcia num comício na Amadora, Manuel Luís Goucha foi do mundo da política para o universo fashion. Enquanto falava com o Observador, o apresentador foi conduzido para um lugar de prestígio na plateia, ao lado de Eduarda Abbondanza. Simpático, falou com os jornalistas e posou para as lentes dos fotógrafos.
▲ Manuel Luís Goucha sentou-se ao lado de Eduarda Abbondanza
TOMAS SILVA/
Longe dos fatos com os quais habituou o público, para a Semana da Moda optou por um look mais casual: “Venho com uma mistura de peças. Calças largas do Paulo Battista, uma camisa que é feita sempre nos sítios onde eu faço as minhas camisas, que é uma empresa do Porto, a Fiducia. Tenho sapato Jacquemus, que comprei em Paris, e comprei este casaco em crochet, que achei muito interessante, e que é de um criador sul-coreano, que eu nem consigo dizer o nome”, conta o apresentador, que além do alfaiate a quem confia os seus fatos de trabalho, tem no guarda-roupa peças de Nuno Gama e Miguel Vieira.
Entretanto, com os Alves/Gonçalves também guarda boas recordações de moda — foram “os manéis” que vestiram o apresentador e Alexandra Lencastre em 1999, quando ambos conduziram o Festival da Canção. “Infelizmente, não fiquei com o smoking que ele fez para mim. Tenho uma pena de não o ter, porque era um smoking em três peças, com um colete todo de pássaros bordados. E tenho pena de não ter ficado com isso. Mas estou sempre a tempo de adquirir uma peça deles, neste caso dele. Falo sempre no plural porque o trabalho e a memória do Manuel estão vivos“.
▲ Lili Caneças, Manuel Luís Goucha, Luís Borges e Carlos Ferra foram algumas das figuras públicas no desfile de Alves/Gonçalves
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
José Manuel Gonçalves sorri ao saber que o apresentador queria ter ficado com o fato. “Só trabalho com quem eu tenho alguma coisa em comum”, destaca o criador, sobre a relação com as figuras públicas. “Se fizer sentido a celebridade e o designer, se os dois conjugam, acho muito bem. Se não, não é por ser celebridade que o designer terá que fazer. Acho que deve ser feito de uma maneira em que haja uma proximidade, em que as duas pessoas coordenam as suas coisas e que chegam a um acordo. Sem um nem outro prescindirem de quem são. Agora, só por ser celebridade, nunca”.
Ao Observador fala também acerca do processo até chegar a esta nova coleção. “Às vezes começo uma coleção que passou, aquilo que eu não consegui acabar, e pego nessa ideia e transporto para a próxima“, diz, assumindo que é o caso desta — uma continuação do que foi apresentado em março. Desta vez o criador escolheu os Beatles para embalar a sua coleção primavera/verão 2026. Na passarelle viu-se volumes geométricos e formas fluidas femininas, com efeitos de textura produzidos pelo uso de renda, plissados, flocados e craquelês em tons de rosa, branco, preto, bordeaux e azul. A alfaiataria clássica mistura-se com peças em ganga com formas desconstruídas e vestidos com volume e ombro à mostra.”Neste caso, como tinha muitos materiais… Tentei desenvolver muitas formas geométricas, flocagens, maneiras diferentes de aplicar a flocagem”, explica, sobre a segunda coleção que apresenta sem o companheiro, Manuel Alves, que morreu em maio de 2024. “Acho que estou muito mais capaz. Em março não estava. Ainda não estava com as ideias inovadoras, digamos. Agora, claro. O tempo faz coisas.”
O tempo, aliás, é a justificativa que dá para as boas amizades que criou no meio. “Toda a vida conheci os manéis e acho que eles são os melhores dos melhores que se apresentam na ModaLisboa”, disse-nos Lili Caneças, minutos antes do desfile. Quase ao final da conversa com o designer, após a apresentação da coleção, perguntámos sobre esta relação. “A Lili está cá?”, pergunta José Manuel Gonçalves. “É uma querida mesmo”, conclui.